Mandela, o pacifista ou o rebelde?

Mandela1 Mandela, o pacifista ou o rebelde?

Nelson Mandela em 1937. Foto: Domínio público

 

Montevidéu, Uruguai, 9/12/2013 – Talvez seja uma falsa contradição. Mas hoje são muitos os que destacam a mensagem pacifista com que o sul-africano Nelson Mandela (1918-2013) saiu da prisão em 1990, e poucos os que ressaltam sua rebeldia contra o apartheid, inclusive armada, que o levou à prisão. Mandela foi um político e um revolucionário pelo menos desde 1942. Dois anos depois uniu-se ao Congresso Nacional Africano (CNA) e contribuiu para criar sua Liga Juvenil e conduzir o movimento, que há décadas vivia na irrelevância, a posições mais radicais.

Mandela foi um rebelde quando encabeçou a campanha de desobediência civil contra leis injustas do regime segregacionista branco, em 1951, e quando, apesar de ser um mau estudante, completou um curso de dois anos de direito e começou a exercer a advocacia no primeiro escritório negro de advocacia do país. Foi um rebelde, e por isso proscrito mais de uma vez, detido e processado no Julgamento por Traição, do qual finalmente foi absolvido em 1961. Foi um rebelde quando passou à clandestinidade.

No entanto, sobretudo, foi coerente com sua rebeldia após a matança de 69 pessoas desarmadas durante a manifestação de Sharpeville contra as leis segregacionistas, em 21 de março de 1960, a posterior instauração do estado de exceção, a prisão de 18 mil pessoas e a proscrição do CNA e de outras organizações. Naquela ocasião entendeu que não bastavam marchas, greves e ações de desobediência civil para abalar as fundações do apartheid, cuja estrutura ia se sofisticando até o delírio dos bantustanes (reservas segregadas para não brancos).

Foi um ato de rebeldia encabeçar a luta armada em 1961 e contribuir para criar o braço que a executaria, Umkhonto weSizwe (Lança da Nação). Ou sair do país em segredo para buscar apoio e treinamento de guerrilha. A África do Sul era um berço útil para as potências ocidentais – as mesmas que hoje honram Mandela como herói – em uma região convulsionada pelas lutas de libertação colonial e pela Guerra Fria.

Na década de 1970, Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, sócios comerciais do regime, vetaram uma moção para expulsar a África do Sul da Organização das Nações Unidas (ONU). O embargo de armas só se tornou obrigatório em 1977. Nos anos 1980, o apartheid envergonhava a maioria da humanidade. Porém, somente em 1985 Estados Unidos, Grã-Bretanha e a então Comunidade Europeia adotaram sanções econômicas contra o regime, e em boa medida para aplacar a indignação pública que surgia em cada país.

Mandela estava há anos na prisão, desde 1962. Foi julgado por sabotagem e condenado à prisão perpétua em 1964. A rebeldia o sustentou nesses 27 anos, durante os quais rejeitou três ofertas de liberdade condicionada. O direito de se rebelar contra a opressão, que assiste a cada povo, foi muito frequentemente objeto de supressão e, sobretudo, de tergiversação. No caso da África do Sul, os Estados Unidos pensaram bem. Somente em 2008 eliminaram o CNA da lista de organizações terroristas de seu Departamento de Estado, nove anos depois de Mandela ter deixado a Presidência.

Quando emergiu de seus anos de confinamento, em 1990, mas, sobretudo, quando foi investido presidente, em 1994, Mandela sabia que desmantelar o apartheid não teria sentido se no processo o país se desintegrasse em divisões e vinganças. E foi, desde então, o pacifista mais ativo e convencido, levando sua rebeldia a um novo terreno, o do exercício democrático e do diálogo como solução dos conflitos.

Como consta de um artigo da IPS, muitos sul-africanos ainda hoje continuam afundados nas armadilhas da desigualdade e da pobreza, com o CNA acusado de ter entrado em um ciclo de opacidade e nepotismo. Não é simples sacudir uma herança que data dos tempos do regime colonial britânico. A segregação e suas causas econômicas deixam marcas profundas.

Não basta ter um presidente negro, como ilustram os Estados Unidos, cujas prisões continuam tendo muito mais detentos negros do que brancos. Contudo, agora, os sul-africanos podem canalizar sua rebeldia contra essas máculas em um processo democrático e um Estado de direito pelos quais se deve agradecer a Mandela, o rebelde. Envolverde/IPS

* Diana Cariboni é coeditora-chefe da IPS.

Diana Cariboni

Diana Cariboni es editora jefa asociada de IPS desde junio de 2010 y jefa de redacción del servicio mundial de noticias en español y de América Latina desde marzo de 2003. Desde 2007 edita el premiado servicio semanal sobre ambiente y desarrollo sostenible Tierramérica, que publican más de 20 periódicos de América Latina. Encabezó los equipos que cubrieron las negociaciones de cambio climático de Copenhague y de Cancún, en 2009 y 2010, y la cumbre Río+20, en 2012. Ha entrenado a decenas de periodistas de América Latina y enseñó periodismo en la Licenciatura de Comunicación de la Universidad ORT de Uruguay. En 2007 obtuvo con su colega Constanza Vieira la Beca AVINA de Investigación Periodística en Desarrollo Sostenible por el proyecto La riqueza inverosímil del Chocó. Se inició como periodista en 1992, trabajando para varios medios uruguayos, como los diarios El Observador y El País y las radioemisoras Sarandí y Setiembre FM. Se especializó en tecnología, ciencia y salud pública. También escribió sobre política internacional, economía y ambiente para distintas publicaciones del Instituto del Tercer Mundo. Es casada, tiene cinco hijos y una nieta. Nació en Argentina en 1962 y se mudó a Uruguay en 1984. Trabaja para IPS desde 2001. Puedes escribirle a dcariboni@ips.org o seguirla en @diana_cariboni

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