HARARE, 20 de janeiro de 2014 – Natalie Mlambo*, de 17 anos, tem dois bons motivos para fazer o teste de VIH. Tem dois namorados e teve relações sexuais sem protecção. Um deles é um colega do liceu. O outro é mais velho, trabalha num banco e pode oferecer pequenos presentes a Mlambo e algum dinheiro.
“Sim, durmo com os dois,” disse Mlambo à IPS. Uma vez que apenas tem relações sexuais com estes dois homens, eles deixaram de usar preservativo, explicou.
Mas Mlambo está aterrorizada com a ideia de fazer um teste de VIH. “Tenho medo,” afirmou. “É melhor não saber nada do que saber que terei de enfrentar a morte; o tratamento não elimina a doença.”
Mlambo, estudante do último ano do liceu no bairro de Kuwadzana, de elevada densidade populacional, em Harare, não é um caso único – quer em relação ao sexo mercantil e ao facto de ter parceiros sexuais múltiplos quer sobre o receio de fazer um teste de VIH.
Felicia Chingundu, activista do Shingai-Batanai, grupo de apoio ao VIH/SIDA, em Masvingo, uma cidade a 300 quilómetros no sudeste de Harare, todos os dias assiste à resistência manifestada pelos adolescentes.
Por que Não Fazem os Adolescentes o Teste
Na Zâmbia, país vizinho do Zimbabwe, as raparigas com idades compreendidas entre os 15 e 19 anos divulgaram os receios que as impedem de fazer o teste de VIH:
• Receio de saber o resultado (58 por cento)
• Receio de depressão e suicídio (27 por cento)
• Receio de estigma (24 por cento)
• Receio de morrer mais depressa (24 por cento)
• Não correr o risco de contrair o VIH (12 por cento)
Fonte: Inquérito Sobre o Comportamento Sexual 2010. Múltipla escolha permitida.
“Os adolescentes têm um comportamento sexual arriscado mas raramente os vemos nos centros de despistagem do VIH,” disse Chingundu à IPS.
O Zimbabwe implementou programas de prevenção precoces e robustos na década de 90 responsáveis por terem reduzido a taxa de prevalência de VIH de 24 por cento em 2001 – uma das mais elevadas do mundo – para menos de 15 por cento em 2012, de acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas para o VIH/SIDA (ONUSIDA). Apesar de uma série de crises políticas e económicas depois de 2000 terem reduzido muitos programas, é generalizada a sensibilização sobre a SIDA.
Segundo o Inquérito Demográfico e de Saúde (DHS) de 2011, um dos resultados é o facto de mais de metade dos adolescentes com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos terem um conhecimento abrangente sobre a SIDA, um número superior à média regional. Contudo, o conhecimento não se traduz necessariamente em acção.
O Ministério da Saúde criou instalações de despistagem móveis que visitam escolas e outros centros de despistagem em clínicas. Mas os adolescentes dizem que os centros não são apelativos aos jovens.
“A maior parte dos jovens não se aproxima desses lugares, dizendo que estão sobrecarregados de adultos,” explicou Mavis Chigara, coordenadora da Rede de Jovens para a SIDA no distrito de Mwenezi, na Província de Masvingo.
Em 2012, esta organização efectuou um inquérito a 12.500 jovens no distrito; só cinco por cento tinha feito o teste do VIH.
“Fazer a despistagem do VIH equivale procurar a pena de morte e tomar os medicamentos anti-retrovíricos é um fardo que dura a vida inteira,” afirmou Terrence Changara, de 19 anos, proveniente de Highfield, um bairro de baixos rendimentos em Harare.
O estigma também contribui para esta atitude. Apesar de uma epidemia generalizada e programas massivos de tratamento e campanhas de informação, continua a haver resquícios de discriminação “
“Os meus dois namorados troçam das pessoas que contraíram o VIH/SIDA,” contou Mlambo. Explicou que tal atitude indicava que não deviam ter SIDA ou então teriam uma posição de maior compreensão.
Em 2011, o Inquérito Demográfico e de Saúde encontrou taxas de prevalência de cerca de quatro por cento entre os jovens do sexo masculino e mais de seis por cento entre as jovens. Os dados do recenseamento indicam que há 3.1 milhões de jovens no país com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos.
Os Benefícios do Teste
Os testes podem ser assustadores e revelar a um conselheiro que se praticou sexo de alto risco pode ser embaraçoso, mas são muitas as vantagens.
“É importante que os adolescentes saibam o seu estatuto serológico visto que isso lhes permitirá iniciar o tratamento precoce e melhorar a sua saúde,” afirmou Judith Sherman, especialista em VIH/SIDA junto do Fundo das Nações Unidas para a Infância no Zimbabwe.
“Relativamente aos adolescentes mais velhos, irá reduzir o risco de transmissão do vírus a outra pessoa,” acrescentou. “Finalmente, também ajuda os adolescentes que não têm VIH a evitarem ficar infectados.”
De acordo com o Inquérito Demográfico e de Saúde, apesar do medo, quatro em cada 10 raparigas sexualmente activas entre os 15 e 19 anos afirmaram que tinham feito um teste de VIH nos últimos 12 meses. Mas uma razão frequente para a despistagem é o facto de as raparigas ficarem grávidas e estarem a receber cuidados clínicos pré-natais.
“É raro que os adolescentes façam o teste do VIH,” sublinhou Mandy Chiwawa, conselheira para a SIDA em Harare. “Precisam de apoio para fazerem o teste.”
Todavia, um crescente número de pessoas com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos está agora a fazer o teste, comparado com o Inquérito Demográfico e de Saúde de 2006. A percentagem de rapazes sexualmente activos que fizeram o teste triplicou para 23 por cento, enquanto que a percentagem de raparigas aumentou cinco vezes mais, para 45 por cento. Trata-se de um número mais elevado do que a média regional de 22 por cento de raparigas e 14 por cento de rapazes.
Apesar de haver um longo caminho a percorrer, e de existirem muitas Mlambos que precisam de ajuda para ultrapassarem os seus receios, a tendência é encorajadora.
*Nome fictício

