YAOUNDÉ, 17 de janeiro de 2014 – Com um sorriso aberto, Beatrice M* afirma que segue o lema “A vida é curta e linda – deve ser vivida na sua plenitude”. Esta mãe seropositiva de 20 anos recusa ser derrotada pelas suas novas circunstâncias.
Beatrice, aluna do segundo ano de antropologia da Universidade de Yaoundé, descobriu que estava grávida e era seropositiva quando tinha 18 anos.
“Quando o médico me deu a notícia pensei que a minha vida tinha acabado. Mas o meu ginecologista receitou-me Zidolan [medicamento anti-retroviral] para impedir o contágio de mãe para filho e disse-me que as coisas iam correr bem,” contou à IPS. O médico tinha razão e agora a filha de dois anos de idade não é seropositiva.
Olhando para longe, com as mãos cruzadas no colo, recorda: “Não foi uma gravidez desejada. O meu namorado pediu-me para fazer um aborto mas recusei. Quando o informei que era seropositiva, disse que tinha feito o teste e que era seronegativo. Pouco depois deixou-me.” Nessa altura, já estava grávida de cinco meses.
Beatrice acredita que o namorado de 25 anos – colega na mesma universidade – a infectou. Explica que era virgem quando se conheceram.
De acordo com Flavien Ndonko, um antropólogo junto da Agência de Cooperação Internacional Alemã ou GTZ, uma taxa alarmante de 20 a 30 por cento das raparigas camaronesas entre os 15 e os 24 anos tem gravidezes não desejadas.
Segundo o relatório sobre a epidemia da SIDA realizado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas para o VIH/SIDA (ONUSIDA) referente a 2013, cerca de 600.000 pessoas, ou 4.2 por cento da população camaronesa composta por 19 milhões de pessoas, são seropositivas. As mulheres e os jovens são os grupos mais afectados. Esta nação da África Ocidental faz parte dos 20 países no continente considerados prioritários pela ONUSIDA, e tem demonstrado apenas uma redução moderada de novas infecções.
Beatrice teve conhecimento destas estatisticas após ter sido informada da sua condição. “Durante a nossa relação nunca pensámos em contracepção ou na SIDA. Tinha ouvido falar disso mas não pensei que tivesse algo a ver comigo.” Durante o liceu, não tinha mostrado interesse em participar nos programas Educação para a Vida e Amor (ELL), um curso de formação em competências para a vida ministrado nos liceus em todo o país.
Arlette Ngon, assistente social, afirma que o país necessita de uma nova abordagem à sensibilização. “Além dos cursos de ciências, o programa ELL é a única oportunidade para debater em profundidade as infecções sexualmente transmitidas e a SIDA na escola. A mensagem parece não estar a passar aos jovens.”
Yvonne Oku, da Rede Nacional das Associações das Tias (RENATA), acredita que muito mais precisa de ser feito para reduzir a percentagem de novas infecções. A RENATA, uma organização não governamental, educa os jovens sobre a forma de evitar a gravidez na adolescência e a SIDA, sendo isto feito através de “tias”, que são jovens mães formadas em questões de saúde.
Aubin Ondoa, antropóloga, disse à IPS que o factor de maior risco para as jovens era a actividade sexual precoce, juntamente com uma falta gritante de informação. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a População, a idade média da primeira relação sexual nos Camarões é 15.8 anos, enquanto que uma em cada três jovens com idades compreendidas entre os 20 e os 24 anos é mãe antes de ter atingido os 18 anos de idade.
“Além disso, as jovens são alvos preferenciais de homens mais velhos que lhes oferecem dinheiro,” explicou Ondoa.
As consequências das relações sexuais desprotegidas para muitas jovens mal informadas com pouco ou nenhum rendimento são ficarem grávidas e contraírem SIDA.
Agora, Beatrice usa preservativos quando está com o seu parceiro. Tem uma relação com um um professor de liceu que é seronegativo, que sabe que ela é seropositiva e que quer casar com ela. Mas ela recusa visto que receia infectá-lo. Tem receio que, se casarem, deixarão de usar preservativos.
A Geração Positiva – uma organização de combate à SIDA criada em 1998, que tem 60 membros, a maioria dos quais estudantes – tem sido uma fonte de apoio para Beatrice. O grupo ajudou-a a aceitar o facto de viver com o VIH.
A jovem decidiu manter em segredo o seu estatuto de seropositiva. “Os meus pais não estão preparados e prefiro mantê-los na ignorância. Tenho receio do estigma,” disse.
Devido ao facto de viver com as duas irmãs, tem de ser muito reservada para que não descubram que é seropositiva. “Sou muito discreta. Seria difícil que alguém descobrisse que tomo medicamentos a horas específicas,” confidencia.
Chega mesmo a trazer a filha, que vive com os pais numa aldeia na região ocidental do país, até à capital, Yaoundé, para fazer exames médicos. Na aldeia, afirmou, “não existe sigilo médico.”
Nos Camarões, os medicamentos anti-retrovirais são gratuitos e ela só tem de pagar o hemograma semestral e os exames CD4, que custam perto de 34 dólares. “Seria difícil se tivesse de pagar por tudo,” disse. Os pacientes em áreas remotas não têm tanta sorte. Muitas vezes têm de se deslocar 44 quilómetros a pé, através de uma floresta, antes de serem atendidos num centro de saúde.
Beatrice orgulha-se da sua pequena filha e gostava de ter mais filhos, mas desejava também que o pessoal de saúde tivesse uma atitude mais profissional.
“Fiquei rasgada durante o parto mas a parteira recusou cozer-me. Recusou igualmente fazer testes de rotina à minha filha,” queixou-se com lágrimas nos olhos.
Para ela, esse comportamento não é mais do que uma forma de estigmatização e é algo de que ela não precisa na tentativa para viver a sua vida em plenitude.
*Nome fictício.
Alguns dados importantes sobre o VIH nos Camarões:
As novas infecções nas crianças diminuíram em mais de um quarto desde 2009.
Registam-se poucas mudanças no número anual de mulheres com idades compreendidas entre os 15 e 49 anos recentemente infectadas com VIH. O número era 21.000 em 2012 – o mesmo que em 2009.
Cerca de dois por cento das jovens e um por cento dos jovens com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos vivem com VIH.
Sessenta por cento das mulheres solteiras com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos usaram um preservativo na última vez que tiveram relações sexuais.
Uma em cada três raparigas com idades compreendidas entre os 20 e 24 anos foi mãe antes dos 18 anos.

