NAIROBI, 17 de janeiro de 2014 – “Este é o som que eu mais gosto em todo o mundo,” afirmou Hussein Ahmed quando os sinos amarrados ao seu gado começaram a tinir no regresso a casa. Ahmed, um pastor no distrito de Marsabit, na região árida e semi-árida do norte do Quénia, perdeu todos os animais em 2011 durante uma das piores secas na região dos últimos 60 anos.
Na altura, Ahmed deslocou-se para a Etiópia, país vizinho, em busca de água e pastagens para o seu gado.
“Fugi dos ladrões de gado armados que queriam roubar todos os animais que tinham escapado à seca. Durante essa viagem de 250 quilómetros de Marsabit até à Etiópia perdi todos os animais devido à falta de pastagens e água.
“Antes disso [tinha perdido os meus animais] para os ladrões de gado que tentavam repor o que tinham perdido durante a seca,” disse Ahmed à IPS.
Regressou a Marsabit um mês mais tarde, desconsolado e de mãos vazias. Mas um membro do seu clã, que tinha subscrito um seguro piloto para gado, deu-lhe cinco cabras e uma vaca e a oportunidade de recomeçar tudo outra vez.
A vida é diferente agora. Ahmed reconstituiu a manada e sente-se seguro, mesmo perante a seca e o roubo contínuo de gado.
Há um ano subscreveu o mesmo seguro piloto para gado que o membro do seu clã tinha – a primeira cobertura de seguro destinada aos pastores no Quénia, e que está a ser oferecida pelo Instituto Internacional de Investigação Animal (ILRI), uma ONG.
“Tornei-me membro em 2012 e desde essa altura já recebi pagamento pelo gado que perdi em duas ocasiões, incluíndo Março deste ano,” contou Ahmed.
O seguro é subsidiado pelos parceiros do ILRI, o Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido, a União Europeia e a Agência Australiana para o Desenvolvimento Internacional.
No início, o seguro só estava disponível em Marsabit. Mas em Agosto foi implementado nos condados de Isiolo e Wajir, no norte do Quénia. Devido ao seu sucesso neste país da África Oriental, está a passar por uma fase piloto em Borana, uma zona árida e semi-árida no sul da Etiópia.
De acordo com o Instituto Internacional de Investigação Animal, 4.000 ou metade dos pastores no norte do Quénia estão cobertos. Contudo, é difícil verificar o número total de pastores na região. Teresia Njeri, funcionária responsável pelo ambiente no norte do Quénia, disse à IPS que o motivo desta ignorância residia no facto de os “pastores nunca ficarem no mesmo local por muito tempo, pois estão em constante movimento.”
Os pastores desempenham um papel importante na região. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Pescas do Quénia, o valor estimado do sector da pecuária no país é 800 milhões de dólares. Dados do Banco Mundial indicam que o PIB total do Quénia ascende a 37 mil milhões de dólares. A Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento na África Oriental, um bloco comercial regional, calcula que mais de 90 por cento da carne consumida na África Oriental seja proveniente das comunidades pastoris.
Mas a vida de um pastor sempre foi difícil. Issa Salesa, um pastor em Isolo, disse à IPS que são sempre vulneráveis. “A seca normalmente afecta muitas partes do norte do Quénia, entre Junho e Dezembro, e piora entre Janeiro e Abril, basicamente colocando os pastores e os seus animais em risco de inanição ou de ataques violentos por parte dos ladrões de gado durante todo o ano,” explicou Salesa.
Mas agora Ahmed e Salesa, tal como os muitos milhares de pastores nos seus distritos que se inscreveram no seguro, sabem que, se os animais morrerem durante uma seca, irão receber uma indemnização por eles. Para Ahmed, isto quer dizer que a família terá alimento durante todo o ano e os filhos podem agora ir à escola.
Yusuf Aden, um pastor em Marsabit e beneficiário de um seguro, disse à IPS que é exigido aos pastores que segurem pelo menos 10 cabeças de gado e que os prémios variam de animal para animal.
“Por exemplo, por 10 ou mais cabras pagamos um prémio de cerca de 20 dólares por ano, valor que é acessível porque apenas precisamos de vender uma cabra para angariar fundos para segurar pelo menos 10 cabras,” afirmou Aden.
“O objectivo do [seguro] é indemnizar os clientes no caso de haver uma perda mas, ao contrário do seguro tradicional, onde se efectuam pagamentos com base em avaliações caso a caso das perdas individuais dos clientes, este seguro para o gado paga aos tomadores do seguro com base num indicador externo, como a disponibilidade de pastagens,” esclareceu à IPS Andrew Mude, responsável pelo projecto do seguro para o gado junto do Instituto Internacional de Investigação Animal.
Explicou ainda que a informação obtida por satélite proporciona leituras estimadas sobre a disponibilidade de pastagens, sendo efectuado um pagamento quando se prevê que a falta de pastagens irá causar a morte do gado nessa área.
Os pastores recebem uma indemnização com base na perda de mais de 15 por cento do seu gado. Mas os benefícios para a sua vida têm sido maiores.
“As famílias seguradas já sentiram uma redução de 33 por cento da probabilidade de redução do seu consumo nutricional e uma descida de 50 por cento das vendas forçadas de gado [o que acontece quando há seca], assim como uma redução de 33 por cento da dependência da ajuda alimentar,” fez notar Mude.
Embora não haja a certeza que este novo seguro irá ser popular no resto do Quénia, Beatrice Wambu, correctora de seguros, salientou que “segurar o gado não é viável em termos económicos”.
“Segurar contra a natureza é arriscado, visto que não é possível controlar o clima… Mas em áreas onde os seguros para o gado estão a funcionar, e caso as companhias encontrem uma forma de ficarem numa situação onde todos ganham, incluíndo os pastores, este produto irá mudar vidas” disse Wambui à IPS, acrescentando que, a menos que as companhias de seguros façam parceria com as ONGs, não conseguiriam passar a mensagem aos pastores.
Explicou tambémque, embora as companhias de seguros comecem a ponderar a introdução de um produto semelhante, estão a fazê-lo “numa escala muito reduzida e não estão disponíveis para o divulgar”.
“Algumas estão a trabalhar com apenas 50 clientes só para ver como é que a situação se desenvolve ao longo de um ano,” disse Wambui.
Njeri indicou que, embora os seguros do Instituto Internacional de Investigação Animal estejam a melhorar a segurança e a vida das famílias, era preciso chegar a uma audiência muito mais alargada.
Os pastores dos distritos de Samburu, Turkana, Pokot e Marakwet, no norte do Quénia, ainda correm o risco de perder a sua fonte de rendimento para os ladrões de gado – o seguro ainda não se encontra disponível nestas áreas.
Moses Lentoimaga é um pastor do distrito de Samburu que teme os ladrões de gado com armas automáticas. Os bandidos atacaram a sua aldeia no dia 18 de Outubro, mararam cinco vizinhos e roubaram 1.000 cabeças de gado. Também ele quer a segurança oferecida a Ahmed e Aden.
“Antes de irmos ter com os nossos vizinhos na Etiópia, deviam primeiro vir ajudar-nos,” disse Lentoimaga à IPS.

