Jornais venezuelanos por uma bobina de papel

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Vários jornais editados em Caracas sofrem de escassez de papel e podem deixar de circular temporariamente em dias ou semanas. Foto: Humberto Márquez/IPS

Caracas, Venezuela, 21/1/2014 – A escassez de diferentes produtos da cesta básica venezuelana atingiu o papel para jornais, e vários deles entraram em contagem regressiva para deixar de circular, ao menos temporariamente, em dias ou semanas. “Já reduzimos de três para um os cadernos do jornal e baixamos a tiragem, mas nosso estoque só dá para 12 dias”, conrou David Natera, editor em Ciudad Guayana do Correo del Caroní, principal diário do sudeste industrial e minerador. “Depois disso, não poderemos imprimir”, disse à IPS o também presidente do privado Bloco de Imprensa Venezuelana.

A Venezuela não produz papel para jornal, que é comprado do Canadá, do Chile ou da Europa. Como toda importação, essas aquisições estão sujeitas a um rígido controle de câmbios vigente há 11 anos, com o Estado como único a ofertar divisas.

Catalina Botero, relatora para a liberdade de expressão na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, disse no domingo passado em Washington que “o papel para jornais é um insumo fundamental para o exercício da liberdade de expressão”, se referindo à situação da imprensa venezuelana. A escassez de papel “representa um problema muito grave, não só para os veículos e jornalistas, como para toda a sociedade, que vê afetado seu direito de receber informação”, pontuou.

Um dia antes, Tania Díaz, ex-ministra de Informação e deputada do governante Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), destacou que “aqui nunca houve nem haverá limitação alguma para os jornais ou as empresas de comunicação desenvolverem sua atividade em total e plena liberdade de expressão”.

“Há meses nenhum importador traz papel newsprint, utilizado pelos jornais, ou do tipo glacê, usado pelas revistas. A negativa do governo de entregar as divisas necessárias para importação nos leva a um país sem jornais, algo nunca visto em dois séculos”, disse à IPS o editor do jornal El Nacional, Miguel Henrique Otero. O El Nacional, um dos jornais de circulação nacional, publicou em página inteira cartas dirigidas às autoridades de câmbio e ao presidente, Nicolás Maduro, nas quais solicita resposta ao seu pedido de US$ 3,8 milhões para pagar bobinas de papel contratadas.

“Na Venezuela, toda importação fora do controle cambiário oficial é ilegal, pode dar cadeia. Por isso nem mesmo podemos buscar dólares a preço maior em um mercado paralelo ou negro para comprar insumos”, explicou Otero.

Aparentemente, os mais afetados são El Nacional e El Nuevo País, em Caracas; Correo do Caroní e El Impulso, na cidade de Barquisimeto. Todos eles têm uma linha editorial frontalmente crítica em relação ao governo de Maduro e de seu antecessor, Hugo Chávez, que governou o país de 1999 até sua morte em 2013.

A escassez de papel também afeta outros jornais neutros, como o de maior circulação do país, o popular tabloide Últimas Notícias, que reduziu seu número de páginas este mês. O tabloide Vea, de Caracas, fundado por antigos comunistas em 2003 para apoiar o governo de Chávez, enfrenta penúrias semelhantes aos jornais de oposição, os quais Maduro pediu aos seus seguidores para “não comprar nem ler”.

“Não temos uma folha de papel. Editamos o jornal pedindo emprestada alguma bobina, comprando de quem nos vende algo, enquanto não pudermos importar por não termos tratamento preferencial e para obter divisas nos pedem todos os papéis e permissões imagináveis”, disse à IPS o responsável pelo Vea, Carlos Servando García.

Segundo Otero, os jornais devem tramitar e obter 19 permissões e solvências em cada pedido de divisas para insumos, “incluindo o certificado de não produção, cada vez e para cada caso, apesar de ser óbvio que a Venezuela não produz papel de jornal”. Os trâmites, como para resto das demandas de divisas, são eletrônicos.

O deputado Julio Chávez, do PSUV, responsabilizou pela situação os importadores e os donos de jornais, por revenderem papel para obter lucro no mercado ilegal de divisas. O câmbio oficial na Venezuela permanece em 6,30 bolívares por dólar, enquanto se afirma que transações paralelas do dólar chegam a alcançar dez vezes esse valor, embora sejam dados incertos porque a informação a respeito está proibida.

No último ano, “o governo entregou mais de 70% das divisas, cerca de US$ 80 milhões, solicitadas para importar papel de jornal. Mas alguns jornais e intermediários revendem o papel, mais caro, para jornais menores”, explicou Chávez, integrante da Comissão de Meios de Comunicação da legislativa e unicameral Assembleia Nacional. “Não se explica que em 2012 a imprensa tenha funcionado com 129 mil toneladas métricas de papel e se queixem com as 142 mil de 2013”, assegurou .

Por sua vez, a deputada Díaz destacou que “os editores sabem bem que não há nenhum tratamento discriminatório. É importante entendermos que, por serem meios de comunicação, não escapam do resto das ações, das medidas que o governo está tomando para frear a especulação financeira”, acrescentou.

Otero e Natera concordam que “o oficialismo não pode dizer que algumas empresas burlam a lei sem apontar quais são” e se declararam abertos a investigações se houver ilícitos nas importações de papel. O Bloco de Imprensa estima que a dívida dos 70 jornais que circulam no país seja de US$ 140 milhões para que possam honrar seus compromissos externos.

O país, embora tenha renda com suas exportações de petróleo de aproximadamente US$ 100 bilhões ao ano, sofre escassez de divisas, que afeta os particulares, desde viagens a países vizinhos até empresas automobilísticas, passando pelas indústrias de alimentos, telecomunicações, farmacêuticas e aeronáuticas. A central dos empresários tradicionais, Fedecâmaras, estima que as dívidas do Estado com empresas privadas, em divisas não entregues por importações, cheguem a US$ 10 bilhões.

Com a escassez de papel, “além de afetar os direitos à livre expressão e de o povo estar informado, se coloca em risco os empregos e os salários de cerca de 30 mil pessoas que o setor emprega”, advertiu à IPS Marco Ruiz, secretário-geral do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa.

“Também somos afetados. Há três anos ganho a vida vendendo jornal nessa avenida”, disse à IPS a vendedora Evelyn González, enquanto apregoava vários jornais em um concorrido cruzamento em La Trinidad, sudeste de Caracas. A venda de jornais “é um ímã que atrai pessoas para vendermos doces, cigarros, caneta esferográfica. Assim, há 14 anos mantenho minha família”, contou à IPS o arrendatário de uma pequena banca de jornal, Luis Angarita, na popular e central zona de Quinta Crespo.

“Em parte estamos diante da desordem administrativa e da crise do modelo econômico com controles mantido há anos”, pontuou Otero. Mas, acrescentou, “entre o pessoal do governo pode haver a ideia de impor-se aos meios impressos”, depois que o governo conseguiu “a limitação ou neutralização dos meios audiovisuais” que lhe eram críticos. Envolverde/IPS

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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