Conflito entre RDC e Zâmbia ameaça o comércio da África

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O tráfego no posto fronteiriço de Kasumbalesa, entre a República Democrática do Congo (RDC) e Zâmbia, voltou à normalidade após a morte de dois caminhoneiros este ano, mas muitos deles temem por suas vidas. Foto: Cortesia de Ephraim Nsingo

 

Lusaka, Zâmbia, 25/2/2014 – Duas vezes ao mês o caminhoneiro Alfred Ndlovu transporta cobalto da rica província mineira de Katanga, na República Democrática do Congo (RDC), até a África do Sul. Mas está pensando em abandonar esse trabalho porque teme por sua vida cada vez que cruza a fronteira.

“Não é bom estar sempre com medo. Supõe-se que os soldados e policiais devem nos proteger, não nos castigar por negarmos pagamento de subornos. Na África austral somos um e as forças de segurança congolesas não deveriam tentar criar conflitos desnecessários”, afirmou Ndlovu à IPS.

Este ano o conflito causou duas mortes no posto fronteiriço de Kasumbalesa, que separa a RDC, ao norte, de Zâmbia, ao sul. Em janeiro, o caminhoneiro zambiano de 28 anos Patrick Mwila, morreu após ser baleado por funcionários congoleses devido a uma disputa sobre suborno, e, no começo deste mês, o caminhoneiro zimbabuense Joseph Howard Mwachande, de 52 anos, foi assassinado a tiros no lado zambiano da fronteira.

Essa fronteira é o maior vínculo da RDC, no centro do continente, com o sul da África e o resto do mundo, já que só conta com um isolado corredor de 40 quilômetros como saída para o mar. A Autoridade Fiscal de Zâmbia diz que Kasumbalesa é a fronteira mais ativa do país. O tráfego na região aumentou mais de 120% no último biênio, e atualmente passa por ali “uma média de 600 caminhões em um dia normal e até 800 quando há congestionamento”, segundo esse órgão.

Porém, durante os quatro primeiros dias de fevereiro, caminhões não cruzaram de Zâmbia para a RDC, em protesto dos transportadores. Chilufya Chansa, coordenador interino da filial em Zâmbia da Associação de Caminhoneiros da Comunidade para o Desenvolvimento da África Meridional, informou à IPS que os motoristas voltaram a passar pelo posto, mas se sentem inseguros em território da RDC.

“Não estamos a salvo. Só viajamos pela graça de Deus”, pontuou Chansa. “Só na semana passada tivemos um incidente em que quatro caminhões de uma empresa sul-africana foram assaltados por homens armados vestidos com uniformes militares. Saquearam os caminhões e levaram objetos pessoais dos motoristas. Imploramos aos governos de Zâmbia e da RDC que cumpram as medidas de segurança na fronteira e áreas vizinhas… Não estamos salvo. A fronteira continua sendo permeável”, ressaltou.

O dia 7 deste mês, dias depois da morte do segundo caminhoneiro, o presidente de Zâmbia, Michael Sata, declarou em um comunicado que seu governo havia solicitado ao governo da RDC o necessário e imediato “fortalecimento da segurança em Kasumbalesa”, para evitar fatos semelhantes e que os criminosos se aproveitem da situação na fronteira.

O ministro do Interior de Zâmbia, Ngosa Simbyakula, informou que o governo considera a criação de um porto seco no posto fronteiriço. “Se a RDC não pode garantir a segurança dos nossos motoristas, se avançará seriamente com a ideia de um porto seco em Zâmbia para que os caminhões que transportam mercadorias para a RDC possam descarregá-las aqui e que os caminhões desse país as recolham”, explicou Ngosa aos jornalistas.

No entanto, para Chansa, o governo deveria falar menos e agir mais. “Já não nos interessam as promessas, queremos ação. Pedimos ao governo que nos ajude a proteger nossos motoristas”, ressaltou. Também pediu que “o governo ajude a garantir que, quando formos à RDC, voltemos a salvo e com tudo intacto”.

Além das preocupações dos caminhoneiros, o gerente de comunicações corporativas da Autoridade Fiscal de Zâmbia, Mumbuna Kufekisa, afirmou à IPS que “a situação do tráfego em Kasumbalesa voltou à normalidade. A fila do lado de Zâmbia tem menos de 200 caminhões e todos são recém-chegados. Tivemos que aplicar medidas de intervenção para mitigar a situação”.

“Ainda estamos fazendo esforços para garantir a facilitação de um comércio eficiente através de nossa fronteira. Também continuamos nos comunicando com nossos interessados, os motoristas e agentes de aduanas, para garantir perturbações mínimas na fronteira mediante o uso de estratégias de resolução de conflitos proativos e pacíficos”, destacou Kufekisa.

Porém, o secretário-geral do Mercado Comum para a África Oriental e Meridional, Sindiso Ngwenya, declarou à imprensa que as escaramuças afetam o comércio regional e pediu a retirada do pessoal de segurança armado que patrulha os bloqueios de estradas para as mercadorias em trânsito. “Se conseguíssemos retirá-los e colocá-los onde devem estar, penso que não teríamos esses problemas”, enfatizou Ngwenya em um comunicado. Envolverde/IPS

Ephraim Nsingo

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