Desafiar os Anciãos e Mudar a Tradição Na Zâmbia

LUSAKA, 3 Março de 2014 (IPS) – Há muito que David Mubita é conhecido na família como um tolo que cria problemas. O último acontecimento foi ser circuncidado em segredo e quase expulso pelo avô, Ndumwa. Mas Mubita pode vir a revelar-se o mais esperto da família.

O povo Lozi na Zâmbia Ocidental valoriza as suas tradições. Portanto, quando Mubita decidiu ser circuncidado no início de 2013, não só quebrou a tradição mas envergonhou a família.

Na Zâmbia, a circuncisão é praticada pelos Luvale e pelos Lunda, na Província do Noroeste, pelos muçulmanos e pela pequena comunidade judaica. Mas não pelos Lozi, que a designam de “buhole” – deficiência.

“Pensei que ele estivesse a brincar. Porque é que um homem normal iria querer uma circuncisão se não fosse Luvale?” afirmou Lubinda, o seu irmão mais velho.

Mubita, com 26 anos, não se arrepende. “Ouvi na rádio e decidi fazê-lo para minha própria protecção. Não estou arrependido – vejam todas as pessoas que estavam a morrer (de SIDA). Temos que ter coragem para mudar a tradição.”

Mas não é assim que o avô Ndumwa vê a questão. Como chefe da aldeia de Kandiana, considerou a circuncisão de Mubita um desafio descarado à sua autoridade.

“Cortou para quem?” perguntou Ndumwa zangado quando ouviu a notícia. “Se estiver cansado de viver connosco pode abandonar a aldeia agora. Devemos ser ‘Wa-Wiko’ por causa dele?” ‘Wa-Wiki’ é um termo pejorativo para as pessoas provenientes de Angola, país vizinho, onde a circuncisão é quase universal.

Mubita refugiou-se temporariamente em Lusaka até a situação acalmar.

Um corte polémico

A tensão entre Mubuta e Ndumwa é um exemplo das dificuldades que os funcionários de saúde enfrentam na Zâmbia Ocidental, onde uma campanha nacional para promover a circuncisão masculina não foi bem recebida.

O objectivo é circuncidar 2.5 milhões de homens com idades compreendidas entre os 13-39 anos, de forma a impedir 340.000 novas infecções de VIH. Mais de 240.000 circuncisões masculinas foram feitas em 2012 e o alvo para 2013 era de 300.000 até ao fim de Dezembro. Em Agosto, o mês designado para as circuncisões, 30.000 homens submeteram-se a este procedimento.

Estudos indicam que a circuncisão masculina pode reduzir o risco de contrair o VIH em 60 por cento.

A taxa de seroprevalência nacional na Zâmbia é 13 por cento, uma das mais elevadas do mundo. É ainda mais elevada na Província Ocidental, onde atinge os 15 per cento.

A circuncisão masculina também protege contra a transmissão heterossexual do vírus do papiloma humano (HPV), o vírus que causa o cancro do colo no útero.

David Linyama, médico do Hospital Universitário em Lusaka, o maior centro de encaminhamento médico na Zâmbia, explicou à IPS que a circuncisão masculina é um procedimento simples. “Não demora mais de 20 minutos,” disse.

“Não foi complicado. Deram-me uma injecção para perder a sensação no meu orgão e ao fim de dez minutos estava feito,” contou Mubita, que é casado e tem um filho e uma filha.

Esteve com dores durante quatro dias e absteve-se de relações sexuais durante quatro semanas para que a ferida sarasse.

“Valeu a pena porque agora estou seguro. Esther (a mulher) está satisfeita porque não posso passar-lhe o HPV,” acrescentou. Ele insistiu que a circuncisão não é uma licença para ter múltiplas parceiras sexuais. O sexo seguro continua a ser necessário.

Em Kandiana, as pessoas falam abertamente da sua circuncisão. Os homens mostram o seu desagrado, os rapazes olham para ele com espanto e as mulheres fazem comentários atrás das suas costas.

Mas o passo corajoso de Mubita é a faísca que ateou o fogo em Kandiana.

Aconteceu na altura em que o governo iniciou a sua enorme campanha de circuncisão masculina com refrãos publicitários na rádio, cenas cómicas na televisão, cartazes de rua, uma linha de telefone gratuita e uma página Web.

Dois chefes provenientes do exterior da Província Ocidental atiçaram os ânimos quando revelarem que recentemente tinham sido circuncidados. O Chefe Mumena, de 47 anos e líder da tribo não circuncidada dos Kaonde, espantou a nação ao revelar que se tinha oferecido como voluntário para o corte

“A nossa região, o Leste e a África Austral, necessita de mais circuncisões masculinas porque é o epicentro da pandemia do VIH e da SIDA,” disse o Chefe Mumena.

Em Outubro de 2013, o Chefe Chanje dos Tumbuka, na Província do Leste, também foi circuncidado. E o Chefe Nondo do povo Mambwe, na Província do Norte, aprovou estas iniciativas.

É claro que o Chefe Mdungu dos Luvale sabe que este é o caminho a seguir. Todos os anos a sua tribo faz a circuncisão dos rapazes na idade da puberdade em campos que apelida de Mukanda.

Até agora, nenhum chefe Lozi na Província Ocidental disse nada para apoiar a circuncisão masculina. Mas Mabita não tem dúvida que é só uma questão de tempo.

“Tenho a certeza que mesmo o velho (o avô Ndumwa), se viver muito tempo, será tentado a fazer a circuncisão masculina!” afirma Mubita rindo.

 

 

(FIM)

 

Lewis Mwanangombe

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