Combinação Perigosa: Violência na Gravidez e VIH na África do Sul

JOANESBURGO, 7 de Março de 2014 (IPS) – Quando Phumzile Khoza* chegou à clínica de cuidados pré-natais num dia gelado em Agosto de 2013 sentia-se apreensiva. Não sobre os procedimentos médicos – já tinha dois filhos – mas devido ao facto de ter que falar com a enfermeira.

Era a sua terceira gravidez a viver com o VIH, mas a primeira com um novo parceiro de quem escondeu o seu estado de seropositiva nos últimos dois anos.

Esta gravidez tinha sido difícil desde o princípio. Khoza tinha tentado convencer o parceiro a ir com ela fazer o teste de VIH mas ele recusara. Sem o aconselhamento que é facultado aos casais, Khoza ficou com medo de revelar a sua condição, e era cada vez mais difícil tomar os medicamentos diários antiretrovíricos (ARV) às escondidas.

O parceiro de Khosa esbofoteava-a repetidamente, dava-lhe murros no estômago e pontapés durante as discussões. Khoza tinha receio que a situação poderia piorar se ele soubesse que ela era seropositiva.

Embora precisasse de ajuda, Khoza imaginava que as enfermeiras não teriam tempo para conversar com ela sobre a sua situação complicada. Ainda por cima, tinha visto como as enfermeiras ficavam zangadas com as mulheres que não completavam o tratamento anti-retrovírico.

Ao olhar para essa visita pré-natal, Khoza considerou: “Estava num grande stress devido à forma como vivia a minha vida, preocupada com o meu passado e com a minha gravidez. E não tinha ninguém.”

Números chocantes

A história de Khoza é cada vez mais comum. Estima-se que uma em cada quatro mulheres sul-africanas conhecem a violência íntima cometida pelo parceiro nos 12 meses que precedem o nascimento de um filho.

A violência durante a gravidez está associada à perda de gravidez, aborto espontâneo e morte neonatal, taxas de depressão pós-parto mais elevadas e poucos benefícios para os bebés.

Durante uma revisão sistemática da literatura, o Dr Simukai Shamu, um especialista em violência junto do Conselho de Investigação Médica, constatou que a prevalência da violência entre as mulheres grávidas em África é das mais altas registadas globalmente, e que um dos principais factores de risco desta violência é a infecção pelo VIH.

“Uma vez que a maior parte dos estudos é transversal, é difícil dizer se a violência é resultado de exigências ou da mudança de vida devido à gravidez, ou se a gravidez é o resultado da violência,” disse Shamu à IPS.

Desde o início de 2013, uma equipa do Instituto de Saúde Reprodutiva e VIH da Wits (Wits RHI) tem estado a entrevistar mulheres que vivem numa situação de violência em Joanesburgo.

Nataly Woollett, a investigadora principal, afirmou que muitas mulheres descreviam a gravidez como um período de maior violência.

“Em parte devido ao facto de terem de divulgar a sua condição de seropositiva, e em parte em resultado dos homens utilizarem a consulta pré-natal – onde é praticamente obrigatório fazerem o teste – como substituto para a sua própria condição em relação ao VIH, ficam com curiosidade para conhecer os resultados,” explicou à IPS.

Na mesma clínica, a IPS falou com Martha Rampele*, que descreveu a rápida escalada de violência que a deixou no hospital aos seis meses da gravidez. “Começou por dizer que eu era idiota e estúpida. Depois estrangulou-me e deixou que o primo me espancasse .”

Ramphele apresentou queixa na polícia, mas mais tarde retirou as acusações para salvaguardar a sua segurança e estabilidade financeira. Ela suspeitou que a divulgação da sua condição de seropositiva tivesse causado o abuso físico, mas não teve a certeza.

Ninguém consegue dizer precisamente o que é que desencadeia a violência, mas muitas vezes a mistura do stress associado à gravidez, a dinâmica da alteração da relação de poder e de controlo, aliada a um novo diagnóstico do VIH, são suficientes para aumentar a tensão.

A resposta das enfermeiras

A violência durante a gravidez tem um impacto negativo na saúde das mulheres seropositivas.

Marieta Booysen, enfermeira sénior do Instituto Aurum, uma organização de investigação sediada em Joanesburgo, explica que as mulheres grávidas em relações violentas são as mais susceptíveis a abandonar o tratamento. “Quando se diz a uma paciente que ela é seropositiva mas ela tem medo de revelar a sua condição ao parceiro, é precisamente essa paciente que vai deixar de tomar os medicamentos mais tarde.”

A equipa da Wits RHI constatou que a maior parte das enfermeiras nos cuidados pré-natais que foi entrevistada reconhece que a violência dificulta a adesão ao tratamento anti-retrovírico mas poucas sabem como lidar com esta questão.

Esta resposta inadequada dos cuidados de saúde pode ser parcialmente atribuída à falta de formação mas também pode reflectir o facto de muitas enfermeiras sofrerem violência em casa e terem medo de responder.

Uma especialista em violência e em VIH sediada na Universidade da Wits, a Drª Nicola Christofides, explicou que “as enfermeiras que são afectadas pala violência nas suas próprias vidas […] ou são muito sensíveis em relação à questão da violência na vida das suas pacientes e muito receptivas, ou o oposto, quando efectivamente se encontram num estado de negação e não têm capacidade para ouvir.”

Segundo o projecto Wits RHI, as enfermeiras que prestam cuidados pré-natais querem receber formação para lidar com a violência.

A IPS falou com Khoza na clínica de cuidados pré-natais cinco meses depois de ela ter consultado uma enfermeira do Wits RHI junto do projecto Segura & Sã, que identifica a violência durante a gravidez e faculta aconselhamento individual e referenciamento em três clínicas de cuidados pré-natais em Joanesburgo.

A enfermeira encaminhou Khoza para o hospital mais próximo onde são oferecidos cuidados psicológicos e aconselhamento. “É bom poder falar sobre coisas difíceis se houver alguém que compreenda a situação e forneça pistas,” disse Khoza.

Khoza nunca tinha falado acerca da violência na sua vida até às visitas pré-natais. Uns meses mais tarde separou-se do parceiro agressivo e tenta agora  encontar formas de sustentar os filhos.

“Ainda sinto stress mas isso não está no meu coracão. Digo a mim própria que tudo vai acabar bem, apesar de ser difícil,” afirmou Khoza.

 

* O nome foi alterado para proteger a sua segurança

 

Factos breves sobre o VIH na África do Sul

 

• 18% de prevalência de VIH em pessoas com idades compreendidas entre os 15-49

• 150.000 mulheres com novos casos de infecção em 2012

• 14.000 novos casos de infecção em crianças que nasceram em 2012

• 3 milhões de mulheres vivem com o HIV

 

Fonte: ONUSIDA 2013

 

 

Alisa Hatfield

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