Paquistão trava uma guerra perdida contra o Talibã

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Automóvel atacado por rebeldes perto de Peshawar. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS

Peshawar, Paquistão, 27/3/2014 – O Paquistão está imerso em um difícil debate sobre a continuação das operações militares contra o movimento extremista Talibã nas Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata), especialmente após a brutal matança de 23 soldados no mês passado. O político de oposição Imran Kan assegurou que o governo reconhece que as possibilidades de êxito do exército são muito baixas.

Kan, ex-jogador de críquete e presidente do partido Pakistan Tehreek Insaf (PTI), pressiona para que sejam abertas conversações com o Talibã. “A insurgência aumenta apesar da presença do exército. Cerca de 50 mil pessoas, incluindo cinco mil soldados, foram assassinados por terroristas”, ressaltou à IPS. Seu partido governa Jyber Pajtunjwa, vizinha às Fata. “Pedimos com urgência a manutenção das conversações de paz porque a intervenção das forças armadas não é uma solução para o terrorismo. O Talibã está matando nossos soldados e civis em uma guerra iniciada a instâncias dos Estados Unidos”, acrescentou.

Governo e Talibã formaram seus respectivos comitês para manter negociações de paz. Mas os esforços se tornaram difíceis após o assassinato, em 16 de fevereiro, de 23 soldados do Corpo de Fronteira por extremistas islâmicos da agência de Mohmand, nas Fata. Eles foram decapitados após permanecerem cativos desde 2010. “Nossos soldados estão combatendo seu próprio povo. A insurgência nunca diminuirá mediante a ação militar”, opinou Kan.

Em uma entrevista transmitida pela televisão em fevereiro, Kan afirmou que o comandante do exército dissera ao primeiro-ministro, Nawaz Sharif, que as operações militares não poderiam erradicar o Talibã, o que causou grande alvoroço. “As declarações de Kan buscam desmoralizar o exército”, afirmou Jursheed Shah, líder da oposição na legislativa Assembleia Nacional. Ele também acusou Kan de apunhalar o exército pelas costas.

O ministro de Informação, Pervez Rasheed, assegurou que o exército é capaz de eliminar completamente o Talibã. “A decapitação de 23 soldados é condenável. Mesmo a Índia, nosso arquirrival, tratou nossos soldados capturados de acordo com as Convenções de Genebra, e não decapitou nenhum”, ressaltou à IPS. Por seu lado, o senador Mohammad Adeel, do também opositor Partido Nacional Awami, afirmou que Kan tenta subestimar o exército.

Porém, muitos creem que Kan tem razão. “Suas declarações de que há apenas 40% de possibilidade de as operações militares terem sucesso contra o Talibã disparou um duro debate no Paquistão, e ele não esta totalmente errado”, disse à IPS o analista político Mohammad Shoaib, que é professor na Universidade de Peshawar.

Segundo o exército, o Talibã matou 460 pessoas desde 9 de setembro de 2013, quando uma conferência multipartidária decidiu manter conversações com os rebeldes. Shoaib disse que a decapitação dos 23 soldados é um sinal de que os insurgentes ainda estão fortes. “Mantiveram os reféns por quatro anos, os mataram e inclusive divulgaram um vídeo sobre os assassinatos”, acrescentou.

Segundo analistas, a situação nas Fata é muito mais complexa agora do que antes da ação militar. Jalal Akbar, professor de ciência política na Universidade de Gomal, em Jyber Pajtunjwa, disse que antes houve outros grupos do Talibã que libertaram seus prisioneiros. “Em 2007, elementos pró-Talibã sequestraram 250 soldados na agência do Waziristão do Sul, nas Fata, mas os libertaram quando seus próprios homens foram soltos pelo governo”, pontuou.

Membros do Talibã e da rede extremista Al Qaeda têm como objetivo as forças paquistanesas e afegãs das Fata, onde se refugiaram depois que o governo talibã em Cabul foi derrubado por forças lideradas pelos Estados Unidos, em 2001. Muitos acreditam que o exército está em desvantagem nas Fata, enquanto os rebeldes travam uma guerra de guerrilha. “A maioria de nossos soldados não está acostumada a lutar nas montanhas e nas florestas. O exército não pode combater o Talibã ali pelas características do terreno”, explicou à IPS o oficial Mohammad Rafiq.

Alguns paquistaneses acreditam que as operações militares só provocam mais ações brutais por parte dos rebeldes. Em Swat, distrito de Jyber Pajtunjwa que esteve sob domínio do Talibã entre 2007 e 2009, a população ainda recorda os truculentos atos de violência. “Todas as manhãs víamos cadáveres decapitados de soldados pendurados nos postes de luz”, contou Nasirullah Khan, ex-inspetor de polícia em Swat.

Jawad Shah, funcionário da luta contra a poliomielite, disse que os talibãs não permitem que as vacinas contra a doença entrem no Waziristão, e que o exército não é capaz de enfrentá-los. “Não podemos vacinar nenhuma das 300 mil crianças que pretendíamos imunizar porque o Talibã exerce total controle ali”, enfatizou. Envolverde/IPS

Ashfaq Yusufzai

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