População russa sem medo das sanções do Ocidente

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Moscou, Rússia, 21/3/2014 – Enquanto as potências ocidentais ameaçam impor à Rússia as sanções mais duras desde o fim da Guerra Fria, boa parte das pessoas comuns deste país diz que não tem medo das restrições econômicas que possam ser adotadas pelos Estados Unidos ou pela União Europeia (UE). Desde que a Rússia invadiu a península ucraniana da Crimeia, no final de fevereiro, governantes do mundo ocidental ameaçam Moscou com sanções econômicas.

Isto fez cair as cotações na bolsa de valores russa e acelerou a fuga de capitais que havia começado no início deste ano. Mas parece haver uma sólida confiança entre os cidadãos comuns de que a Rússia é suficientemente forte para suportar qualquer ataque econômico. Por outro lado, os técnicos alertam que a já debilitada economia pode sofrer danos severos se sanções duras forem aplicadas.

O resultado do referendo realizado na república autônoma ucraniana da Crimeia, no dia 16, coloca a península em rumo à plena incorporação à Rússia no prazo de meses. Mas é considerado ilegal por boa parte da comunidade internacional e agora dá lugar a um primeiro pacote de sanções. No momento, a penalização da UE se dirige em congelar os ativos que estão em seu território e proibir as viagens de 21 cidadãos russos e da Crimeia, supostamente vinculados aos distúrbios na península.

Essas sanções estarão em vigor durante seis meses, informou no dia 17 a ministra de Assuntos Exteriores da Itália, Federica Mogherini, após uma reunião com seus colegas do bloco em Bruxelas. Entretanto, explicou que não afetarão representantes de governo nem jornalistas. Por sua vez, Washington adotou as sanções mais fortes contra Moscou desde a Guerra Fria. O presidente Barack Obama anunciou, também no dia 17, o congelamento dos ativos nos Estados Unidos de sete funcionários russos, incluindo altos conselheiros de Vladimir Putin.

Tanto os Estados Unidos quanto a UE ameaçam com mais medidas se a Rússia não agir para desmontar a crise. O governo russo respondeu preparando uma série de contramedidas. O chanceler Serguei Riabkov anunciou ontem que Moscou responderia de uma forma que não deixará Washington “indiferente”.

Enquanto isso, o clima nas ruas da Rússia é desafiador, apesar das advertências dos economistas sobre o dano que sanções mais duras e generalizadas poderiam causar. Essa confiança é impulsionada pela informação divulgada pela imprensa russa, boa parte dela controlada pelo Kremlin. Desde a invasão da Crimeia a mídia local apresenta as potências ocidentais em complô com um governo ucraniano “ilegal” para oprimir a maioria da população da península, que é de origem russa.

A imprensa também contribuiu para impor a ideia de que a Crimeia é parte integral do território russo, apesar de entregue à Ucrânia em 1954 pelo então líder soviético Nikita Kruschev. Assim, as tropas russas representam uma força de libertação enviada para proteger seus conacionais em uma terra injustamente arrebatada. Há também uma exibição do poderio militar russo. No dia 16, o jornalista e diretor da rede estatal de televisão RT, Dimitri Kiselev, disse em seu programa que a Rússia é o único país do mundo capaz de reduzir os Estados Unidos a “cinzas radioativas”.

Em uma pesquisa divulgada esta semana pela consultoria de opinião pública Levada, dois terços dos entrevistados consideram a Rússia uma superpotência mundial, marcando um aumento de 16% em relação a uma pesquisa semelhante feita em 2011. Vários jornais publicam matérias afirmando que as sanções somente conseguiriam fazer com que esse país se aproxime mais da China e de outras nações da Ásia, substituindo com eles o comércio que perder com o Ocidente.

Maria Yemelianenko, de 29 anos e empregada em um supermercado de Moscou, resumiu essa opinião generalizada. “A Rússia é um país enorme e as sanções não poderão nos afetar como a outros países. Temos muitos recursos próprios”, afirmou à IPS. “Estou cerca de que o presidente Putin sabe o que faz, e de que o povo da Rússia não passará fome”, acrescentou.

Entretanto, nem todos estão convencidos de que não haverá consequências para a economia russa se o Ocidente adotar sanções mais amplas. Alexei Kudrin, membro do Conselho Econômico do presidente russo, disse ao site de notícias yandex.ru que o crescimento econômico poderia ser prejudicado e que tanto os investimentos estrangeiros como os locais poderiam ser afetados.

Dmitry Seleznev, economista de 52 anos que trabalha em uma grande empresa de produção agrícola de São Petersburgo, disse à IPS que a economia russa sentirá os efeitos de sanções mais amplas. “Os investimentos cairão, a economia poderá perder sua capacidade de superar a paralisação atual e as exportações também diminuirão”, afirmou.

Algumas consequências econômicas da crise da Crimeia já são visíveis. As ações russas estão em forte queda desde o começo do ano, mas as baixas se aprofundaram antes do referendo. Sociedades internacionais de investimento alertaram, na semana passada, que muitos empresários estrangeiros estavam retirando seu dinheiro da Rússia em velocidade recorde devido à crise na Crimeia. Entre janeiro e o último fim de semana, a Rússia perdeu investimentos no valor de US$ 45 bilhões.

Os prognósticos sobre o crescimento do produto interno bruto também são baixos, e alguns analistas do mercado de valores alertam para danos no longo prazo na capacidade da Rússia de atrair investimentos. Outros analistas dizem que, apesar de as sanções serem limitadas, poderá haver mais no futuro que afetem diretamente a vida cotidiana da população.

Ian Bond, diretor de política externa no Centro para a Reforma Europeia, com sede em Londres, disse à IPS que “a UE poderia ser obrigada a aplicar sanções maiores, por exemplo, para deixar os bancos russos fora dos mercados financeiros europeus. E os Estados Unidos podem tornar realmente difícil a vida da Rússia, ao negar acesso ao seu sistema de transações em dólares”.

“Essa restrição teve um impacto importante na economia iraniana, por exemplo, e a população russa a sentirá”, opinou Bond. Em uma circunstância com essa, o apoio popular ao presidente Putin, que agora é importante, pode começar a diminuir, acrescentou. “Se a popularidade de Putin será afetada, dependerá de quanto será efetiva sua operação de propaganda. Até agora parece estar funcionando bem, aumentando desde a ocupação da Crimeia, com muita gente engolindo o conto de fadas de que o novo governo ucraniano está cheio de fascistas e antissemitas”, afirmou.

Um gerente de valores de um fundo de capitais russos, que pediu para não ser identificado, assinalou que a economia estará em problemas se houver um conflito armado. “Então o país enfrentará enormes dificuldades econômicas”, afirmou. Isso é algo que ninguém quer. Apesar de seu apoio à anexação da Crimeia e ao papel forte de Moscou, as últimas pesquisas mostram que a maioria é contra qualquer participação em um conflito militar na Ucrânia

“O referendo da Crimeia foi feito pacificamente, e as pessoas provavelmente acabarão entendendo-o; essa foi a vontade do povo”, disse Sergei Mishkhin, estudante de 20 anos de Moscou. “Quero que a Rússia tenha relações amistosas com todos os países. Só esperamos a paz”, acrescentou. Envolverde/IPS

Pavol Stracansky

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