Zambianos desafiam as tradições na luta contra a aids

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David Mubita desafiou a tradição para se proteger contra o HIV. Foto: Lewis Mwanangombe/IPS

Lusaka, Zâmbia, 6/3/2014 – Quando o zambiano David Mubita se submeteu a uma circuncisão, causou um escândalo em sua família, e seu avô Ndumwa esteve a ponto de desterrá-lo. Porém, o jovem de 26 anos talvez seja o mais sábio entre seus parentes. O povo lozi, no oeste de Zâmbia, valoriza muito suas tradições. Por isso, quando, no começo de 2013, Mubita decidiu fazer a circuncisão não só rompeu com um costume familiar como também envergonhou sua tribo.

Em Zâmbia, a circuncisão é praticada pelas etnias luvale e lunda, na Província do Noroeste, pelos muçulmanos e pela pequena comunidade judia. Mas não pelos lozi. “Pensei que estava brincando. Por que um homem normal faria circuncisão se não é um luvale?”, perguntou seu irmão mais velho, Lubinda.

Mubita não está arrependido. “Ouvi no rádio e o fiz por conta própria. Não me arrependo. Olhe todas as pessoas morrendo (de aids). É preciso ser valente para mudar a tradição”, afirmou. Mas seu avô o vê de outra forma. Como chefe da aldeia Kandiana, considerou a circuncisão do neto um aberto desafio à sua autoridade. “Por que se cortou?”, perguntou, furioso, quando ficou sabendo.

“Se está cansado de viver conosco, pode abandonar esta aldeia agora mesmo. Devemos ser ma-wiko por causa dele?”, acrescentou. Ma-wiko é um adjetivo pejorativo usado contra os habitantes da vizinha Angola, onde a circuncisão é quase universal. Mubita se mudou temporariamente para Lusaka até as coisas se acalmarem.

A tensão entre ele e o avô é um exemplo das dificuldades que enfrentam as autoridades da saúde no oeste de Zâmbia, onde a campanha nacional pela circuncisão voluntária não é bem recebida. O objetivo é circuncidar 2,5 milhões de homens entre 13 e 39 anos até 2020, dessa forma evitando 340 mil novas infecções com o vírus HIV, causador da aids.

Em 2012 foram feitas mais de 250 mil circuncisões, e outras 300 mil no ano seguinte. Somente em agosto de 2013, mês designado para a promoção das operações, 30 mil homens se submeteram ao procedimento. Estudos demonstram que a circuncisão pode reduzir em 60% o risco de contrair aids.

A prevalência do HIV em Zâmbia é de 13%, uma das mais altas do mundo, e é ainda maior na Província do Oeste, onde chega a 15%. A circuncisão também serve para prevenir a transmissão para as mulheres do vírus papilomavírus humano (HPV), causador do câncer de colo de útero.

David Linyama, médico no Hospital Universitário de Lusaka, principal centro de saúde do país, explicou à IPS que a circuncisão é um procedimento simples. “Não demora mais do que 20 minutos”, disse. “Não foi complicado. Aplicaram uma injeção para adormecer meu membro e em dez minutos haviam terminado tudo”, detalhou Mubita, casado e pai de um casal. Contou que sentiu dor por quatro dias e não pôde manter relações sexuais por quatro semanas, até que sarou.

“Valeu a pena porque agora estou seguro”, disse, mas ressaltou que a circuncisão não significa deixar de se preocupar em ter sexo seguro. Quando regressou a Kandiana, todos falavam de sua circuncisão. Os homens demonstravam desprezo, os jovens o olhavam assombrados e as mulheres comentavam às suas costas. A ousada decisão de Mubita foi a faísca que acendeu o fogo em Kandiana.

A polêmica ocorreu justamente quando o governo lançava uma maciça campanha de promoção da circuncisão, com jingles no rádio, peças de televisão, outdoors e uma linha telefônica de ajuda gratuita, além de um site. Dois chefes tribais fora da Província Oriental alimentaram a polêmica ao revelarem que haviam se circuncidado.

Mumena, líder da tribo não circuncidada kaonde, deixou atônito o país ao anunciar que se submetera voluntariamente à operação aos 47 anos. “Nossa região, África oriental e austral, precisa de mais circuncisão masculina, porque é epicentro de uma pandemia de HIV e aids”, afirmou. Em outubro de 2013, Chanje, chefe da tribo tumbuka na Província do Leste, também se submeteu à circuncisão, e o chefe Nondo, do povo mambwe na Província do Norte, expressou seu apoio à campanha.

Naturalmente, o chefe Mdungu, da etnia luvale, também considera que a circuncisão é benéfica. Sua tribo a pratica em meninos quando entram na puberdade em acampamentos anuais conhecidos como mukanda. A campanha ainda não tem o apoio de nenhum chefe do povo lozi, na Província do Oeste. Mas Mubita está convencido de que é questão de tempo. “Tenho certeza de que mesmo o ancião (Ndumwa), se viver muito tempo, se verá tentado a submeter-se à circuncisão”, disse, rindo. Envolverde/IPS

Lewis Mwanangombe

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