García Márquez, o gênio do país da guerra sem fim

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García Márquez fotografado em 1984. Foto: F3rn4nd0, editado por Mangostar C BY-SA 3.0

Montevidéu, Uruguai, abril/2014 – A primeira vez que li Gabriel García Márquez (1927-2014) foi diante das provas de linotipo de Relato de um Náufrago que a Editorial Sudamericana se preparava para reeditar na Argentina.

Estava na gráfica da Sudamericana, no bairro portenho de San Telmo, onde me cabia corrigir tanto uma novelinha gótica quanto um clássico da literatura ou uma obra da poeta Alejandra Pizarnik, de tão variado que era o cardápio.

Eu tinha 17 anos e fiquei fascinada por esse relato breve, uma reportagem que García Márquez havia publicado em várias capítulos no jornal El Espectador de Bogotá, em 1955, e que em 1970 foi publicada em livro.

O nome completo era Relato de um náufrago que esteve dez dias à deriva em uma balsa sem comer nem beber, que foi proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas da beleza e ficou rico pela publicidade, e depois molestado pelo governo e esquecido para sempre.

Por trás da perícia pessoal do sobrevivente, na primeira pessoa, García Márquez denunciava que o naufrágio do marinheiro e de outros sete companheiros que morreram se deveu ao excessivo contrabando que transportava o destroier Caldas, da marinha colombiana.

O país estava na época sob uma ditadura militar, por isso a denúncia levou ao fechamento do jornal e ao primeiro dos vários exílios do jornalista. O último foi em 1997. García Márquez nunca voltou a viver na Colômbia.

Dali, naturalmente, saltei para Cem Anos de Solidão, a obra-mestra que a mesma Editorial Sudamericana publicou em 1967 e que iria revolucionar a literatura em espanhol e influir na imagem e na configuração cultural que o resto do mundo teria da América Latina.

Nós, latino-americanos, caímos rendidos de amor, e de espanto, pela Colômbia que García Márquez descreveu nessa e em outras grandes ficções.

A crueldade de suas guerras, a solidão de seus heróis, as patéticas piruetas de seus políticos e militares, a eternidade de seus ditadores, a execrável presença estrangeira, o abandono de seus povoados rurais, tudo tinha o realismo do sentido na própria carne e, sendo único, se parecia também ao que ocorria em tantos rincões da região.

Mas na voz de García Márquez adquiria outra dimensão, onírica, exuberante e humorística, que nos transportava como leitores e nos permitia refletir sobre nossos males até com certa alegria.

Como outros grandes escritores, García Márquez construiu um universo próprio, feito de lugares reais e inventados, de personagens inverossímeis e de linhagens e genealogias.

Seus nomes, como Macondo ou Aureliano Buendía, já fazem parte da memória coletiva da América Latina, tal como aconteceu séculos antes com Dom Quixote.

Devorei todos seus contos e novelas, desde La Hojarasca (1955) até Memórias de Minhas Putas Tristes (2004), passando pelas formidáveis e muito distintas O Outono do Patriarca (1975) e O Amor nos Tempos do Cólera (1985).

Quando corrigia as provas de Relato de um Náufrago eu ainda não sabia que seria jornalista.

Muitos anos depois, em 2007, viajei à Colômbia como tal e tive oportunidade de conhecer a terra que vislumbrara pelos livros de García Márquez, que em 1982 recebeu o prêmio Nobel de Literatura.

Pude ver que a guerra continuava, sem medo, mudando de protagonistas e de centros nevrálgicos, mas com igual rio de sangue e a mesma constante do despojo e do abandono.

Desde 2012, as autoridades da Colômbia e a principal guerrilha esquerdista do país discutem em Havana como pôr fim ao último meio século de guerra.

García Márquez, morto de câncer no dia 17, no México, não chegou a ver seu país em paz. Tomara que os colombianos não tenham que esperar outros 50 anos. Envolverde/IPS

* Diana Cariboni é editora chefe associada da IPS, chefe de redação do serviço mundial de notícias em espanhol e da América Latina, e editora do Terramérica, premiado serviço quinzenal sobre ambiente e desenvolvimento sustentável.

Diana Cariboni

Diana Cariboni es editora jefa asociada de IPS desde junio de 2010 y jefa de redacción del servicio mundial de noticias en español y de América Latina desde marzo de 2003. Desde 2007 edita el premiado servicio semanal sobre ambiente y desarrollo sostenible Tierramérica, que publican más de 20 periódicos de América Latina. Encabezó los equipos que cubrieron las negociaciones de cambio climático de Copenhague y de Cancún, en 2009 y 2010, y la cumbre Río+20, en 2012. Ha entrenado a decenas de periodistas de América Latina y enseñó periodismo en la Licenciatura de Comunicación de la Universidad ORT de Uruguay. En 2007 obtuvo con su colega Constanza Vieira la Beca AVINA de Investigación Periodística en Desarrollo Sostenible por el proyecto La riqueza inverosímil del Chocó. Se inició como periodista en 1992, trabajando para varios medios uruguayos, como los diarios El Observador y El País y las radioemisoras Sarandí y Setiembre FM. Se especializó en tecnología, ciencia y salud pública. También escribió sobre política internacional, economía y ambiente para distintas publicaciones del Instituto del Tercer Mundo. Es casada, tiene cinco hijos y una nieta. Nació en Argentina en 1962 y se mudó a Uruguay en 1984. Trabaja para IPS desde 2001. Puedes escribirle a dcariboni@ips.org o seguirla en @diana_cariboni

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