Somalianos em Uganda ainda não querem, ou não podem, voltar para casa

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Estima-se que no assentamento de Kisenyi, em Kampala, vive grande parte dos quase 12 mil imigrantes somalianos que residem em Uganda. Foto: Amy Fallon/IPS

 

Kampala, Uganda, 3/4/2013 – Alguns homens vestidos com kamis, as longas túnicas brancas tradicionais, sobem alguns degraus e entram na Somcity Travel, pequena agência de viagens no assentamento de Kisenyi, na capital de Uganda. A empresa familiar se orgulha de “voar para todo o mundo”, mas seu grande destino é a Somália. “Em um dia podemos ter até cinco clientes e quatro costumam ser somalianos”, contou Mohammad Abdullahi, de 25 anos e gerente da agência.

A Somcity Travel fica em frente à loja de cosméticos Al Baraka e da Cadaysay, dedicada à transferência de dinheiro por telefone celular, que também vende junto com seus acessórios. “Alguns deles voltam à Somália para férias. Mas sempre regressam. O negócio está no auge. Estamos reservando muitas passagens”, disse Abdullahi à IPS. Kisenyi, apelidada de Pequena Mogadísicio, é o centro da comunidade somaliana nesse país da África oriental desde a década de 1990, acrescentou.

A abertura de inúmeras empresas começou em 2002. Atualmente, as ruas de Kisenyi estão repletas de agências de viagens, hotéis, restaurantes, postos de serviço, supermercados e outros negócios, todos com proprietários somalianos. E também há uma mesquita. “Somos muito duros na hora de negociar, às vezes até podemos desafiar os indianos”, disse à IPS o diplomata Abdul Kadir Farah Guled, da embaixada da Somália em Kampala, que está em Uganda desde 1974. “Temos mau gênio, às vezes não nos damos bem por conflitos tribais, mas nos apoiamos uns aos outros”, acrescentou.

É difícil ter acesso a estatísticas oficiais, mas Guled calcula que até 12 mil somalianos viveriam dispersos por Uganda, que cerca de 85% da população de Kisenyi é de somalianos e que grande parte deles é de refugiados ou ugandeses de origem somaliana. Acredita-se que no assentamento vivem aproximadamente quatro mil refugiados somalianos. A área é um lugar de transição para muitos, um degrau para uma vida melhor.

“Os somalianos são respeitados pelos ugandeses e o governo também os apoia”, afirmou Abdullahi. O presidente de Uganda, Yoweri Museveni, o observa de um retrato emoldurado e pendurado em seu escritório. Na mesma parede há uma carta da Brussels Airlines que diz: “África, toda para você”. Abdullahi vivia em Mogadíscio, mas em 2007 fugiu da Somália com parentes e amigos. Tinha apenas 17 anos. “Vim para cá em busca de educação e uma vida diferente da que tinha lá, onde há uma guerra civil”, detalhou.

Insurgentes da rede terrorista Al Shabaab foram expulsos de Mogadíscio em 2011, mas ainda controlam muitas áreas rurais da Somália. Quando Abdullahi chegou a Uganda, onde seu tio Ahmed se instalara em 2003, não falava inglês. Na Somália, a língua oficial é o árabe. Mas atualmente ele fala inglês fluentemente e trabalha seis horas diárias na Somcity Travel, onde ganha US$ 200 por mês. “Na Somália está melhor, mas ainda há alguns problemas, como bombardeios contra moradias. É um problema sair para caminhar à noite”, afirmou.

Para a maioria dos somalianos que chegam pela primeira vez a Uganda, a barreira do idioma é um grande problema, ressaltou Shukri Islow, de 28 anos, fundadora da organização não governamental Somali Youth Action For Change. Ela criou a organização para ajudar os jovens somalianos em Uganda e reduzir a brecha entre as duas comunidades.

“Quando se conhece o idioma, se tem um senso de pertencimento”, pontuou Islow, que nasceu na Somália e saiu do país quando tinha oito anos. Ela viveu na Suécia, no Egito e na Arábia Saudita antes de se instalar em Uganda, em 2009. “Damos a eles essa inspiração, motivação e empoderamento, para que sintam que podem fazer, que nunca é tarde demais”, contou.

Atualmente, Islow, que em novembro se formou em relações internacionais e diplomacia pela Universidade Cavendish, de Uganda, é o rosto da comunidade de jovens somalianos neste país. Ela também assessora os soldados ugandeses da Missão da União Africana na Somália (Amisom) estacionados em seu país, sobre o quanto a Somália é diferente e o que esperar ao chegar lá.

Uganda foi o primeiro país a enviar tropas para a Somália no contexto da Amisom, em 2007. Uma força de 22 mil efetivos da União Africana opera ali sob mandato da Organização das Nações Unidas (ONU). Uganda lidera a força, com 6.223 soldados, mas no começo de março disse que enviaria até 410 militares extras para garantir instalações da ONU.

A última vez que Islow esteve na Somália foi em 2002, quando a situação era “muito, muito melhor”. Ela destacou à IPS que “hoje não se sabe quem vai te matar a qualquer momento, e tampouco o motivo. Atacam por seu estilo de vida ou por sua ideologia”. Ela está consciente de que corre perigo se viajar ao seu país. “Tenho muito risco de ser atacada pela Al Shabaab se for à Somália porque estou nas redes sociais e há fotografias minhas com soldados ugandeses” na internet, afirmou.

Ela tem familiares que ainda vivem na Somália e gostaria, algum dia, de poder voltar para casa de modo permanente. Mas, no momento, continuará vivendo em outra parte, e espera continuar seus estudos em Melbourne, na Austrália. Abdullahi espera fazer o mesmo. Ele tem um tio na Austrália e se matriculou em um curso de administração que começará em julho em uma faculdade de Sydney. “Quero prosseguir minha educação e ao mesmo tempo trabalhar e ter uma vida melhor, casar e ter filhos”, afirmou.

Em janeiro, a embaixada da Somália em Uganda realizou seu primeiro compromisso na história com a diáspora somaliana em Kampala para debater sobre o processo de paz e estabilização em curso naquele país. Os funcionários esperam que os jovens educados, como Abdullahi e Islow, voltem para ajudar a reconstruir o país.

A diáspora já contribuiu muito com a Somália. Um informe de 2011 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) estima que os somalianos que vivem no exterior somam entre um milhão e 1,5 milhão de pessoas. Segundo esse relatório, calcula-se que os somalianos da diáspora fazem remessas num total de US$ 1,3 bilhão a US$ 2 bilhões anualmente, o que ajuda muito os que ficaram para trás.

Em julho de 2013, a Air Uganda iniciou voos diretos do Aeroporto Internacional de Entebe para Mogadíscio. Abdullahi não voltou nunca à Somália. E se o fizer, como muitos de seus clientes, possivelmente a passagem será de ida e volta. “Me adaptei a esta vida no estrangeiro, e algumas coisas não são favoráveis na Somália, por isso viver lá não seria bom”, enfatizou. Envolverde/IPS

Amy Fallon

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