Índia entra em época de mudanças com governo nacionalista

4 Índia entra em época de mudanças com governo nacionalista

Narendra Modi, o novo primeiro-ministro da Índia. Foto: Narendramodiofficial/CC-BY-SA-2.0

 

Nova York, Estados Unidos, 26/5/2014 – As eleições parlamentares da Índia entregaram o poder ao partido nacionalista hindu Bharajiya Janata (Partido do Povo Hindu, ou BJP) e infringiram grande derrota ao Partido do Congresso. Agora, todos os olhares se voltam para Narendra Modi, o novo primeiro-ministro a partir de hoje. O líder do BJP, que governará esse país com mais de 1,2 bilhão de habitantes, é de origem humilde e foi vendedor de chá.

Isso o situa em um mundo diferente ao da dinastia Nehru, que governou o país por meio do Partido do Congresso durante a quase totalidade dos 66 anos de vida independente da Índia. Rahul Gandhi, bisneto de Jawaharlal Nehru, se mostrou um candidato chato e de escassa competência para o carismático e eloquente Modi, que venceu nas eleições cujos resultados foram divulgados no dia 16, depois de um processo de votação que começou em 7 de abril e terminou no dia 12 deste mês.

Pareceria que há dois Narendra Modi. O primeiro é o eterno acólito da RSS (Rashtriya Swayam Sevak Sangh, ou Sociedade Nacional de Voluntários), um movimento ultranacionalista hindu conhecido por seus exercícios marciais, seus uniformes e a crença na qualidade especial, de fato, na superioridade da civilização hindu. O movimento está comprometido com o princípio hindutva (qualidade de hindu), para o qual os termos “indiano” e “hindu”, são intercambiáveis.

Modi se alimentou da RSS todos esses anos, o que explica a ansiedade dos indianos laicos e dos que não são hindus, especialmente os 170 milhões de muçulmanos que vivem no território indiano.

Também existe o Modi administrador competente – do Estado de Gujarat, que governou como ministro-chefe entre 2001 e 2014 – e gestor favorável às empresas privadas, que produz resultados positivos, domina o jargão dos negócios e valoriza o investimento estrangeiro. Definitivamente, Modi é considerado o autor intelectual do “milagre de Gujarat”, um dos Estados mais industrializados da Índia e cujos indicadores econômicos melhoraram consideravelmente durante seu governo.

Modi deu ênfase a esses atributos durante a campanha eleitoral como tática para conquistar aquele que os especialistas chamam de “eleitor médio”. No caminho, esquivou-se com astúcia dos fantasmas dos distúrbios ocorridos em 2002, que mataram mil habitantes de Gujarat, em sua maioria muçulmanos, e deixaram sem teto cerca de cem mil pessoas.

“Permitam-me assumir o timão e farei pelo país o que fiz por Gujarat”, essa foi, basicamente, sua mensagem eleitoral. E os eleitores, desencantados com o Partido do Congresso, lhe deram o comando. Agora a pergunta é se veremos o Modi ideólogo ou o pragmático. Creio que prevalecerá este último, embora seja inevitável que o primeiro faça notar sua presença, pois Modi atuará periodicamente para as bases do BJP e porque seu discurso não busca apenas causar efeito, mas reflete suas crenças profundamente arraigadas.

Desde a vitória esmagadora do BJP houve muita especulação nos Estados Unidos sobre que tipo de política externa Modi aplicará. Não se deve esperar uma correção drástica de rumo. Modi manterá os fortes vínculos da Índia com a Rússia. Existe uma longa história de cooperação entre Nova Délhi e Moscou, que remonta aos primeiros anos da Guerra Fria. Enquanto o comércio e o investimento com os russos são muito menos importantes agora para a Índia, Moscou continua sendo o principal fornecedor de armas para Nova Délhi. O primeiro-ministro eleito não tem nenhum motivo para fazer ondas nesse sentido.

Com relação à China, tanto o Partido do Congresso quanto o BJP creem há muito tempo que o país mais povoado do mundo é o principal adversário estratégico da Índia. Esse cenário não vai mudar. Porém, as coisas se complicaram nas duas últimas décadas. Agora a China é o principal sócio comercial da Índia, por isso a relação já não se esgota na segurança e nos conflitos. O alinhamento com a Rússia, que se manteve durante a Guerra Fria como forma de manter Pequim na raia, já não será uma estratégia tão eficaz. A China superou a Rússia em quase todas as medidas do poder.

Mais importante é que o velho cisma sino-soviético é coisa do passado. Moscou e Pequim estão unidas, desde o começo da década de 1990, pelo que cada um chama de “associação estratégica”. Assim, deixaram de lado sua disputa territorial, Moscou é o principal fornecedor de armas de Pequim e a energia da Rússia flui para a China. Isso ficou demonstrado pelo gigantesco acordo de fornecimento de gás por 30 anos ao preço de US$ 400 bilhões que no dia 23 foi assinado pelo presidente russo, Vladimir Putin, e por seu colega chinês, Xi Jinping.

Se a isso se soma a relativa debilidade econômica e militar da Índia diante da China, então se conclui que Modi não buscará disputas com Pequim, apesar de ser um nacionalista que no passado criticou os governantes indianos por não enfrentarem esse país. Modi sabe que a Índia pode fechar a brecha de poder com a China se conseguir, e mantiver, altas taxas de crescimento econômico. Afinal, isso fez de Pequim uma potência mundial.

Isso significa acertar o que afeta a economia indiana, como a corrupção, a burocracia e a péssima infraestrutura, por exemplo – o que levará tempo, mas é de se esperar que Modi sacuda as prateleiras nessa frente. Mas há outro motivo que fará da economia sua prioridade. Modi sabe que é o principal interesse dos indianos e em grande parte a razão pela qual foi eleito. Os gestores econômicos da Índia falharam com os pobres. Como populista que é e homem que surgiu de circunstâncias humildes, Modi quer tirar da pobreza os mais desfavorecidos.

O Paquistão será outra preocupação de sua política externa, mas é provável que se enganem os que pensam que adotará uma linha muito mais dura em relação a Islamabad. Já surpreendeu a todos quando convidou o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, para sua posse e, sem dúvida, entende que os enfrentamentos intermitentes com seu vizinho desviarão sua atenção da economia.

A guerra com o Paquistão também é mais arriscada devido ao perigo de causar uma escalada no conflito nuclear. O elemento imprevisível pode ser um atentado terrorista na Índia originado no Paquistão. Modi se encontrará sob tremenda pressão para agir decididamente, sobretudo porque sua mensagem de “não se metam com a Índia” é essencial em seu atrativo.

Com Modi, a Índia seguirá fortalecendo seus laços com Israel. O BJP, em geral, e Modi, em particular, admiram esse país e acreditam que a tradicional política pró-Palestina de Nova Délhi granjeou escassa boa vontade no mundo árabe que, na hora da verdade, apoia o Paquistão. Modi visitou Israel em duas ocasiões, onde expressou sua admiração por seus êxitos econômicos e tecnológicos. Ambos terão mais cooperação em questões econômicas e no intercâmbio de informação de inteligência sobre terrorismo.

Israel não pode suplantar a Rússia como fonte de armas, mas é provável que Nova Délhi, um grande importador de armas israelenses, adquira mais de Israel no futuro, especialmente aviões não tripulados. Falar de uma aliança entre Índia e Estados Unidos como forma de equilibrar a China é um exagero. Nova Délhi e Washington renovaram gradualmente sua cooperação em defesa nos últimos anos. Isso continuará, mas nenhum dos dois governos vai querer se comprometer em uma aliança.

Modi tem interesse em reforçar seus laços de segurança com o Japão. O Partido do Congresso estabeleceu as bases para isso, e o BJP se aproveitará disso. O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, foi o convidado de honra da Índia na comemoração do seu Dia da República, em janeiro, que comemora a entrada em vigor da primeira Constituição indiana, em 1950.

Modi também convidou Abe par sua posse. A Índia é a única potência asiática que não se preocupa com o compromisso de Abe de mudar a política de defesa minimalista do Japão. Nova Délhi quer um sócio forte no flanco oriental da China e vê o Japão, com seu poderio econômico e tecnológico, adequado para esse papel. Tanto Tóquio quanto Nova Délhi veem a China como seu maior problema de segurança. Do mesmo modo, a Índia fortalecerá seus laços com o Vietnã, outro país profundamente preocupado com as reclamações e intenções territoriais de Pequim, como demonstraram em meados de maio os enfrentamentos entre eles no mar do sul da China.

Definitivamente, é provável que os que esperam grandes mudanças com Modi à frente da política externa se decepcionem. Embora o primeiro-ministro acredite que a Índia está destinada a ser uma potência mundial, também entende que essa meta não será alcançada a menos que Nova Délhi resolva seus problemas econômicos. Se Modi fizer grandes mudanças, estarão na frente interna. Envolverde/IPS

* Rajan Menon é professor de ciências políticas na Escola de Powell, do City College e City University de Nova York, e também pesquisador do Centro do Sul da Ásia do Conselho Atlântico. Entre suas publicações estão Soviet Power and the Third World (O Poder Soviético e o Terceiro Mundo, 1986) e The End of Alliances (O Fim das Alianças, 2007).

Correspondentes da IPS

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