Rússia usa o gás natural como arma contra a Ucrânia

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A interrupção da exportação do gás russo para a Ucrânia poderia ter consequências em muitos países europeus. Foto: Thierry Ehrmann/cc by 2.0

 

Nações Unidas, 12/5/2014 – É primavera na Ucrânia, época em que o país se abastece de energia para o inverno, mas a Rússia poderia adiantar o frio se utilizar suas exportações de gás natural como arma para influir no novo governo ucraniano. “A Ucrânia é extremamente dependente do gás natural”, apontou Edward Chow, pesquisador do Programa de Energia e Segurança Nacional do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), uma organização independente com sede nos Estados Unidos.

Segundo o CSIS, 40% do consumo de energia da Ucrânia corresponde ao gás natural e 60% do fornecimento procede da Rússia. Com um sistema que foi desenhado durante a antiga União Soviética (1922-1991), a Ucrânia armazena as reservas de gás natural da Rússia e depois o distribui ao resto da Europa. “Apesar da necessidade da Ucrânia de contar com gás natural não ser muito alta na época de verão, se não se abastecer neste período provocará uma crise no fornecimento durante o inverno. Não temos de esperar até dezembro para descobrir isso”, afirmou Chow à IPS.

Durante numerosas disputas por dívidas e tarifas na última década, a Rússia suspendeu o fornecimento do gás natural que passa pela Ucrânia. Os cortes mais recentes ocorreram durante três dias em janeiro de 2006 e durante 20 dias de janeiro de 2009, em pleno inverno boreal.

“Até hoje a Ucrânia não pagou sua dívida pelo gás russo. A conta de abril venceu e o pagamento não foi feito. A dívida pendente da Ucrânia aumentou para US$ 3,508 bilhões”, confirmou à IPS no dia 8 um porta-voz da Gazprom, a empresa controlada pelo Estado russo que é a maior produtora de gás natural no mundo. A Gazprom advertiu que, a menos que a empresa de gás ucraniana Naftogaz salde sua dívida, a Rússia exigirá o pagamento adiantado por seu fornecimento.

“As pessoas praticamente estavam congelando em 2009 em algumas partes da Europa que dependem, em grande parte, da Rússia para a importação de gás”, explicou Chow, para quem esta crise poderá durar muito mais tempo. “Em função de sua política, a Rússia fixa os preços de maneira arbitrária, mas com critério”, disse Jan Svejnar, diretor do Centro de Governança Econômica Mundial, da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. “Com um governo indesejado na Ucrânia, os preços são altos. Com um governo pró-russo, são aplicados importantes descontos”, pontuou à IPS.

Em dezembro do ano passado, o presidente russo, Vladimir Putin, ofereceu a compra de bônus ucranianos ao ex-presidente Viktor Yanukovich, que proporcionou os fundos para pagar o gás russo. Quando um governo interino sucedeu Yanukovich no poder, em 22 de fevereiro, Putin retirou seu apoio, cancelou a compra dos bônus e elevou o preço do gás em 80%. A Naftogaz não faz os pagamentos exigidos pela Gazprom desde janeiro.

O resto da Europa, que depende da Rússia para receber um terço de seu fornecimento de gás, seria afetado por uma interrupção do abastecimento à Ucrânia. O impacto tem mais força nos países do sudeste europeu, que não possuem fontes alternativas. Uma quantidade limitada de gás natural chega à Europa ocidental por gasodutos que não passam pela Ucrânia, como o recentemente construído Nord Stream, que transporta o gás da Rússia até a Alemanha através do Mar Báltico.

Mesmo assim, fontes especialistas disseram que a Europa ocidental não poderia enviar um fornecimento de energia para o leste. A Gazprom proíbe a revenda ou o retransporte do gás natural russo. “A empresa russa tem uma série de acordos em vigência com as principais companhias de serviços públicos da Europa ocidental”, explicou Kent Moors, presidente-executivo da consultoria norte-american Global Energy Symposium. “Assim, há alguns interesses criados na Europa ocidental que não gostariam de ver sanções repercutindo nesse comércio” com a Rússia, acrescentou.

Segundo o CSIS, se as empresas europeias de serviços públicos que não têm compromissos contratuais com a Rússia trasladarem o gás natural da Europa para a Ucrânia, no máximo abasteceriam apenas um terço das necessidades desse país para o próximo inverno. “A questão não é de pressão, mas de vontade política e quem está disposto a usá-la e quem não está”, explicou Chow, que tem mais de 30 anos de experiência na indústria do petróleo, durante os quais trabalhou na Europa e na União Soviética.

Kent acredita que os países que dependem quase completamente do petróleo russo, tais como os Estados bálticos e a Polônia, seriam mais propensos a adotar uma linha dura contra a Rússia “devido à experiência histórica”. Os países menos vulneráveis devido à sua maior diversidade energética, como França, Itália e Alemanha, são mais inclinados a serem mais permissivos com a Rússia. “É mais uma questão de vontade política do que de capacidade de pressão econômica”, opinou à IPS.

Chow disse que, enquanto a Europa depender da Rússia em 30% para seu fornecimento de gás, Moscou depende em 80% dos países europeus para seu mercado de exportação de gás. “Então, quem é mais dependente de quem?”, perguntou. Assim, a seu ver, a Rússia não cortará o fornecimento para a Ucrânia no longo prazo, nem sua própria ganância lucra com isso.

Kent, com doutorado em ciências políticas, afirmou que o objetivo deve ser conseguir que a Ucrânia sobreviva ao próximo inverno. “Porque, se não conseguir energia suficiente, o país cai. A ciência política fala há anos dos Estados falidos. Aqui está um. Não será capaz de funcionar. E é provável que haja elementos na Rússia esperando que isso aconteça. Então poderão dizer ‘olha, não é nossa culpa, Kiev caiu por sua própria incapacidade de funcionamento’”, ressaltou.

Os embaixadores da Ucrânia e da Rússia junto às Nações Unidas se negaram a fazer comentários à IPS sobre o assunto. Envolverde/IPS

Micah Luxen

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