Violência do Boko Haram se expande para Camarões

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Imagem de um vídeo divulgado segunda-feira 12 de maio pelo grupo extremista Boko Haram, mostrando adolescentes supostamente sequestrados em 14 de abril, na cidade de Chibok, no nordeste da Nigéria. Dos cerca de 300 jovens, 53 conseguiram escapar. Crédito: Al Jazeera

 

Iaundé, Camarões, 14/5/2014 – O grupo extremista islámico da Nigeria Boko Haram começou a operar em Camarões, afirmaram altos funcionários de Defesa desse país da África central conhecido por sua relativa estabilidade. “Agora mesmo, o Boko Haram está infiltrado entre nós. O exército decidiu reforçar o sistema de inteligência para enfrentar eficazmente essa ameaça, que parece estar obtendo apoio local”, declarou à IPS o coronel Didier Badjeck, porta-voz do Ministério da Defesa de Camarões.

O governador da região do Extremo Norte, Agustin Awa Fonka, afirmou à IPS que a precisão com a qual o grupo atacou um posto militar na província, no dia 5 deste mês, dá credibilidade ao fato de a ação ter ocorrido com a ajuda de informantes locais.

Camarões compartilha sua fronteira noroeste com a Nigéria, que se estende até o reduto do Boko Haram, no norte nigeriano de maioria muçulmana. Esse grupo armado – com vínculos com a rede Al Qaeda no Magreb islâmico e com seu aliado na Somália, a Al Shabaab – atraiu a atenção mundial sobre suas atividades após o sequestro, no dia 14 de abril, de mais de 200 adolescentes, em uma escola pública de orientação católica na região de Borno, em sua área de influência, que ainda mantém como reféns.

Em março o governo de Camarões estabeleceu uma série de postos militares ao longo da fronteira em resposta ao grupo islâmico, cujo nome significa “a educação ocidental é um pecado” no dialeto hausa. Mas, na madrugada do dia 5, mais de 30 supostos insurgentes do Boko Haram atacaram o posto militar de Kousseri na região do Extremo Norte e libertaram um de seus membros que estava detido no lugar. Na ação mataram um policial e um civil que estava sob custódia, e feriram várias pessoas.

Em todos os atentados do Boko Haram, “especialmente contra o posto militar, houve várias detonações. O ataque não teria sido possível sem informantes locais, e acreditamos que identificaremos esses cúmplices”, destacou o governador Awa Fonka, admitindo que o ataque contra o exército aumentou o medo da população local. “As forças da lei e da ordem existem para proteger a população. Quando são atacadas se desestabiliza todo o mundo”, acrescentou.

Os agressores são terroristas “sem rosto” que só podem agir com ajuda de informantes locais. O governador acrescentou que “serão implantadas medidas para localizar os atacantes, ou ao menos prender seus cúmplices”.

Os ataques na Nigéria provocaram o deslocamento de refugiados para a relativa segurança de Camarões. No dia 6 deste mês, o Boko Haram atacou um mercado na cidade fronteiriça nigeriana de Gambourou e matou mais de 200 pessoas, entre elas quatro camaroneses. Cerca de três mil nigerianos, muitos deles feridos pela violência extremista, cruzaram a fronteira para a cidade camaronesa de Fotokol.

“As forças da lei e da ordem não podem passar a fronteira por conta própria. Precisam da população para denunciar as pessoas de origem duvidosa que se encontram nas vizinhanças. Temos que nos unir, porque uma nação unida contra seu inimigo é invencível”, disse Fonka. Mas a cooperação da população permanece em dúvida.

“As pessoas suspeitam umas das outras. Não se pode confiar nem mesmo em seu vizinho porque não sabem com quem se senta para jantar”, disse Alamine Ousman, morador de Kousseri, na região do Extremo Norte. “Sabemos que os membros do Boko Haram estão aqui entre nós, se movem como qualquer outra pessoa, e nem mesmo se consegue notar que pertencem ao grupo extremista”, afirmou à IPS.

Muitos na região temem por suas vidas e se negam a dar informação sobre o Boko Haram. Hawe Aishatu, que escapou dos ataques na região do Extremo Norte e fugiu para Iaundé, lançou um olhar furtivo antes de falar em voz baixa: “falar sobre essa gente pode significar a morte. São fundamentalmente malvados”, assegurou  à IPS.

O recente ataque contra o posto militar de Kousseri obrigou El Jadji Numbao e sua família a fugirem do povoado. Se os insurgentes têm o descaramento de atacar os militares, então as pessoas como ele não estão seguras. É aterrador”, disse à IPS, após descer de um trem na estação de Iaundé.

“É difícil viver em um lugar onde inclusive o sussurro das folhas das árvores tira o sono da gente, e onde se sabe que você e seus filhos podem ser assassinados sem aviso”, afirmou Numbao. “Abandonei tudo. Meus negócios, meu gado… tudo. Mas estou contente por meus sete filhos e três esposas estarem salvos”, acrescentou esse homem que se mudou para a capital com sua família.

Adouraman Halirou, professor universitário e especialista em temas fronteiriços, disse as IPS temer que Camarões, que se orgulha de ser uma fonte de paz em um continente problemático, pode estar entrando no caos. O especialista exortou o governo a empregar todos seus recursos humanos e técnicos para deter a ameaça.

“Os conflitos, as crises e as tensões que sofre a região, especialmente a Nigéria, não deixam de ter repercussões em nosso país”, disse à IPS o ministro das Comunicações, Issa Tchiroma Bakary. “Camarões é alvo de ataques cometidos desde os países vizinhos, e dos cidadãos desses países”, acrescentou.

Camarões também instalou postos militares em sua fronteira oriental com a República Centro-Africana já que também sofreu ataques nessa zona. Na região Leste, 18 residentes locais fueron sequestrados no dia 2 de maio por insurgentes da nação vizinha. Envolverde/IPS

Ngala Killian Chimtom

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