A violência separatista, apenas um dos problemas da Ucrânia

22 A violência separatista, apenas um dos problemas da Ucrânia

Flores em Kiev, no começo deste ano, em lembrança dos mortos nos protestos de Maidan. Os que lutaram pela mudança na Ucrânia esperam que o novo presidente não os desaponte. Foto: Natalia Kravchuk

 

Kiev, Ucrânia, 2/6/2014 – O presidente eleito da Ucrânia, Petro Poroshenko, se prepara para assumir o cargo no dia 7, enquanto a população espera que não esqueça que a violência separatista é apenas mais um dos inúmeros problemas que deve ser resolvido nesse país da Europa oriental. Poroshenko, um multimilionário que fez fortuna com a venda de chocolates, obteve estrondosa vitória no dia 25 de maio, com mais de 57% dos votos, nas primeiras eleições presidenciais após os protestos que derrubaram seu antecessor, Viktor Yanukovich, em fevereiro.

O novo mandatário assume com a Ucrânia em crise. Parte de seu território, a Crimeia, foi anexada pela Rússia, os separatistas pegaram em armas no leste do país, a economia está à beira do colapso e numerosos ativistas e manifestantes que encabeçaram o movimento Maidan – que preparou o caminho para o novo governo – sentem raiva e estão confusos por muitas coisas que aconteceram depois dos protestos.

Apesar de a maioria dos ucranianos concordar que a primeira prioridade do presidente é a unificação do país e o fim do conflito no leste, afirmam que Poroshenko não deve ignorar os demais obstáculos que a Ucrânia enfrenta. “Conseguir alguma estabilidade no país é importante, mas uma vez que a tenha conseguido, como cidadão ucraniano espero que meu país se desenvolva como uma sociedade livre que proporcione oportunidades às pessoas trabalhadoras e honestas”, disse à IPS o professor Yuri Shevtsov, de 32 anos, de Kiev.

Antes dos protestos de Maidan – nome da praça de Kiev onde os manifestantes se reuniam – muitos ucranianos sentiam que a corrupção afetava sistematicamente instituições como a Presidência, o parlamento, a função pública, o poder judiciário e a polícia. O nepotismo e o favoritismo eram vistos como algo comum.

O histórico de direitos humanos do país era inquestionável, já que a brutalidade policial e a perseguição das minorias eram comuns. As organizações da sociedade civil, embora não sofram o tipo de intimidação e perseguição que sofrem as da Rússia ou Bielorússia, se queixam de obstrução de seu trabalho e de falta de cooperação por parte das autoridades.

A economia desmorona gradualmente desde a crise financeira e o nível de vida continua caindo. E os líderes do país enriquecem e consolidam seu poder. Em sua origem, o movimento de protesto Maidan foi uma reação à negativa de Yanukovich em assinar o Acordo de Associação com a União Europeia, um primeiro passo para a integração europeia. Mas logo se converteu em protesto maior contra o regime e seus erros. Os manifestantes exigiram o fim da corrupção e medidas que melhorassem a economia em crise.

Os analistas veem a vitória surpreendentemente sólida de Poroshenko como um reflexo da demanda de mudança dos ucranianos, bem como sua esperança em um governo que se ocupe dos problemas do país, além do apoio para o candidato individual. Mas também dizem que os ucranianos devem entender que o novo presidente por si só não poderá realizar as mudanças que o país necessita.

“Entre as reformas urgentes que devem ser realizadas há coisas como aceitar um acordo com o Fundo Monetário Internacional para evitar a quebra, melhoria do clima de negócios para atrair investidores, reformas e descentralização eleitorais, redução da burocracia e fazer com que os subsídios estatais sejam transparentes e justificados”, detalhou à IPS o pesquisador Balazs Jarabik, da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, de Washington.

“Mas têm de ser reformas graduais e não radicais que possam alimentar os conflitos em lugar de construir a sociedade. Tem de haver muita comunicação, educação e explicações para o ucraniano médio. Porém, o mais importante é entender que nem Poroshenko nem a União Europeia farão o trabalho por eles. A participação dos ucranianos nas reformas é crucial”, acrescentou.

Algumas organizações não governamentais já começaram a trabalhar com o governo interino para ajudar na redação de leis relacionadas com as reformas e asseguram que está havendo importantes progressos. Poroshenko deixou claro que quer garantir que a Ucrânia assine o Acordo de Associação com a UE, rejeitado por seu antecessor.

Entretanto, muitos ucranianos estão impacientes por ver alguma melhora visível em suas vidas. “As pessoas estão fartas da incerteza e da tensão e, sem dúvida, necessitamos de um pouco de estabilidade na economia. É necessário cuidar com urgência da corrupção, para citar apenas uma coisa”, pontuou Shevtsov. Porém, os economistas não esperam que os habitantes, muitos dos quais vivem com um salário médio de apenas 200 euros mensais, experimentem melhoras econômicas num futuro próximo.

“A Ucrânia enfrentará alguns problemas econômicos graves nos próximos meses e existe a possibilidade de a recessão continuar”, afirmou Vasyl Yurchyshyn, analista econômico do centro de estudos Razumkov Centrethink, desta capital. “Não estou seguro de uma melhora no nível de vida de ninguém no futuro próximo. Ao mesmo tempo creio que o governo aplicará reformas que ampliarão as oportunidades de crescimento e desenvolvimento. Mas, passará mais um ano, ou menos, antes de os ucranianos médios sentirem a diferença”, acrescentou.

A violência nos distritos orientais provavelmente freie o progresso das reformas. Embora para a maioria da população a unificação do país e o fim do conflito com os separatistas sejam as principais prioridades de Poroshenko, analisas dizem que se concentrar apenas nesses dois problemas poderia prejudicar as perspectivas da Ucrânia. “Quanto mais os ucranianos tiverem que se concentrar na Rússia, menos tempo e energia terão para construir a nova Ucrânia. A principal questão é se a maioria da população vai querer construir ou lutar”, disse Jarabik.

No entanto, muitos acreditam que a reconstrução só poderá começar quando se abordar os separatistas – ou os que os apoiam em Moscou – e se alcance a paz ao Estado unificado. “É necessário começar a falar com a Rússia oficialmente; isso traria um pouco de esperança aos ucranianos de que nosso novo líder começou acertar as coisas”, afirmou Nadezhda Valssovskaya, um contador de 31 anos de Kiev. Envolverde/IPS

Pavol Stracansky

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