Ajudar as Mulheres Seropositivas no Uganda a Evitar as Gravidezes Não Desejadas

Amy Fallon/IPS

Amy Fallon/IPS

Esta é a terceira notícia de uma série de três partes sobre o VIH e a contracepção em África

KAMPALA, 18 de Agosto de 2014 (IPS) – Barbara Kemigisa costumava apelidar-se a si própria “militante do VIH/SIDA.” Agora prefere ser conhecida como “defensora do planeamento familiar a nível do VIH/SIDA” .

“Precisamos de reduzir as gravidezes não planeadas e a infecção do VIH no nosso país,” disse Kemigisa à IPS durante a primeira conferência nacional do Uganda sobre planeamento familiar que teve lugar a 28 de Julho. “É uma protecção dupla.”

Violada por dois tios quando ainda era criança, Kemigisa tornou-se promíscua mais tarde. Aos 22 anos descobriu que era seropositiva – e estava grávida de dois meses. A filha, Kourtney, que agora tem cinco anos, nasceu seronegativa. Mas a mãe não podia pagar o leite artificial para bebé, e quando fez seis meses, a filha tornou-se seropositiva através da amamentação.

Factos breves sobre o VIH e as Mulheres no Uganda em 2013

36.3m população
58 esperança de vida
7.2% taxa de prevalência de VIH
780.000 pessoas a viverem com o VIH
6% taxa total de fertilidade
30% utilização de contraceptivos modernos
57% de nascimentos com uma parteira qualificada

Fonte: UNICEF

Kemigisa, uma activista informada que recebe os seus medicamentos antiretrovíricos no Instituto de Doenças Infecciosas do Hospital de Mulago e que trabalha na Fundação KiBO em Kampala, nunca teve qualquer problema em obter contraceptivos.
Não pode dizer o mesmo de muitas jovens seropositivas que se reúnem frequentemente com Kemigisa.

“Os funcionários de saúde dizem-lhes ‘Vocês são seropositivas e portanto não devem ter filhos’,” contou.

Na útima década, a utilização de contraceptivos modernos por parte das mulheres aumentou lentamente, de 18 por cento para 26 por cento.

Apesar de ser baixa, esta taxa de utilização de contraceptivos provavelmente evitou 20 por cento das infecções pediátricas de VIH e 13 por cento das mortes de crianças relacionadas com a SIDA, afirma um estudo., que conclui que a expansão dos serviços de planeamento familiar pode reduzir substancialmente as infecções infantis.

Isto é crucial. A taxa de infecção por VIH de sete por cento no Uganda está a aumentar gradualmente após uma descida acentuada na década de 90, quando mais de um quarto da população estava infectada.

O Uganda representa agora o terceiro maior número anual de novas infecções de VIH no mundo, depois da África do Sul e da Nigéria, de acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas para o VIH/SIDA (ONUSIDA).

Afastar as mulheres

A contracepção é o segundo pilar que impede a transmissão do VIH da mãe para o filho (PMTCT) mas muitas vezes é descurado, embora o Uganda tenha uma das mais elevadas taxas de fertilidade do mundo, com uma média de seis filhos por cada mulher.

Segundo Dorothy Namutamba, da Comunidade Internacional das Mulheres que Vivem com o VIH/SIDA na África Oriental (ICWEA), as mulheres que tentam fazer face ao VIH também têm dificuldade em obter a “informação apropriada e correcta” sobre o planeamento familiar.

“A informação não chega às mulheres que vivem com o VIH na sua fase reprodutiva,” disse.

As mulheres podem ter de enfrentar a violência em casa por serem seropositivas e por usarem a contracepção, apenas para serem novamente maltratadas quando pedem ajuda aos trabalhadores de saúde, contou Namutamba.

“A algumas é dito ‘Oh, isto é o melhor para si’ e são ignoradas na clínica de saúde,” acrescentou Namutamba.
Nos piores casos, algumas mulheres seropositivas são submetidas a esterilização forçada.

Segundo Namutamba, isso pode acontecer quando a mulher tem uma cesariana ou vai aos serviços de planeamento familiar. “É-lhes dito que isso é o melhor para elas visto serem seropositivas.”

No Quénia, a ICWEA e outros grupos documentaram perto de cinquenta casos de esterilizações forçadas e vão divulgar ainda este ano um relatório sobre casos semelhantes no Uganda.

Devido a atitudes discriminatórias, “uma grande percentagem de mulheres fica hesitante quando tem de revelar a sua condição aos trabalhadores de saúde quando deseja recorrer aos serviços de planeamento familiar,” afirmou à IPS a Drª Deepmala Mahla, directora nacional da Marie Stoples no Uganda.

Dois serviços, uma viagem

A insuficiência da cobertura, as frequentes faltas de stocks de produtos, a oferta limitada de métodos de contracepção, e a falta de pessoal formado afectam os serviços de planeamento familiar para todas as mulheres no Uganda, explicou o Dr. Primo Madra, funcionário de programa do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) em Kampala.

Segundo o Dr. Madra, o problema principal para as mulheres que vivem com VIH é o tempo e esforço exigido.

Uma mulher seropositiva que vai à clínica receber nova dosagem de medicamentos antiretrovíricos tem de se colocar na fila de uma clínica de serviços deVIH, e mais uma vez na clínica de planeamento familiar, ambas provavelmente com longas filas de espera. Talvez tenha de fazer duas viagens.

“Na maioria das vezes a mulher dá prioridade aos medicamentos antiretrovíricos,” explicou Madra.

Em vários distritos, o governo e o UNFPA estão a abrir “estabelecimentos com balcões únicos” que oferecem serviços tanto para o VIH como para a saúde reprodutiva, e ainda a formar trabalhadores de saúde no novo sistema.

“Isto irá permitir à mulher que entra numa clínica de medicamentos antiretrovíricos ter acesso a todos os serviços de forma mais cómoda,” disse Primo à IPS.

Mas a distribuição nacional de estabelecimentos com balcões únicos está limitada pela falta de pessoal, acrescentou. “Muitos estabelecimentos de saúde têm vagas não preenchidas para trabalhadores de saúde e estão sobrecarregados devido ao número de pacientes.”

Editado por: Mercedes Sayagues

Amy Fallon

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