A Nigéria é responsável por um terço de todas as novas infecções infantis nos 20 países mais afectados na África Subsariana. Crédito: Sam Olukoya/IPS
LAGOS, Nigéria, 4 de Agosto de 2014 (IPS) – O casamento de Tope Tayo dissolveu-se há 11 anos quando registou um resultado positivo à presença de VIH. O marido, zangado e embaraçado, retirou-lhe o único filho que tinham. Três meses mais tarde, quando o filho de um ano também apresentou um resultado positivo, o marido abandonou-o com Tayo e depois desapareceu.
População de 173 milhões
Taxa de prevalência de VIH de 3.2 %
3.4 milhões de nigerianos vivem com VIH
51.000 novas infecções infantis
220.000 novas infecções em todas as idades
190.000 mulheres grávidas seropositivas
52.500 mulheres grávidas seropositivas recebem antiretrovirais
70% das mulheres grávidas seropositivas não recebem antiretrovirais
47.300 crianças, ou 12% de todas as crianças infectadas, tomam antiretrovirais
593.000 pessoas, ou 21% de todas as pessoas infectadas, tomam antiretrovirais
210.000 mortes relacionadas com a SIDA
Diminuição de mortes reduzida entre 2005-2013
Fonte: ONUSIDA 2014
“Abandonou-nos como se tivéssemos cometido um crime embora eu lhe tivesse dito que o VIH não era crime,” contou Tayo à IPS.
Estava desempregada e o marido não pagava pensão de alimentos. “Andava pelas ruas a chorar, vivia da caridade,” recordou Tayo.
O homem que abandona a mulher e os filhos seropositivos é um traço comum na Nigéria, afirmou Rosemary Hua, coordenadora da Acção Primeiro Passo Para as Crianças, uma organização que promove os direitos das crianças.
“Os pais retiram o seu apoio porque acreditam não ser necessário investir num filho que provavelmente vai morrer jovem,” disse Hua à IPS.
A taxa de infecção por VIH de 3.2 por cento na Nigéria parece baixa em comparação com a da África Austral, mas com uma população de 173 milhões, isso traduz-se num enorme número de pessoas – 3.4 milhões de nigerianos viviam com VIH em 2013.
Destes indivíduos, 430.000 são crianças com menos de 14 anos, de acordo com o recente relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas para o VIH/SIDA (ONUSIDA). A Nigéria é responsável por um terço de todas as novas infecções de crianças que vivem nos 20 países mais afectados na África Subsariana.
O relatório indica que a Nigéria enfrenta “a tripla ameaça do elevado encargo que representa o VIH, a baixa cobertura de tratamento e nenhuma ou reduzida diminuição das novas infecções de VIH.”
Além disso, a taxa de seroprevalência nacional esconde disparidades acentuadas entre os 36 estados: em quatro, a seroprevalência varia entre os 8 e os 15 por cento.
A razão que leva as mulheres a evitar fazer os testes
Tayo e o filho têm tomado os medicamentos antiretrovirais nos últimos 11 anos. Têm sorte. Menos de 600.000 nigerianos recebem o tratamento, ou 20 por cento daqueles que dele necessitam.
A baixa cobertura do tratamento perpetua ideias erradas e o estigma, como demionstra a história de Tayo.

Distribuição geográfica das taxas de prevalência do VIH por Estados
*Fonte: Relatório nigeriano à Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas (UNGASS) em 2014
O abandono normalmente resulta em dificuldades económicas. Metade das mulheres na Nigéria está desempregada.
“O desespero sentido quando tenta cuidar de si própria e do filho pode levar uma mulher seropositiva a envolver-se em actividades sexuais para obter dinheiro, conduzindo a uma maior propagação do VIH,” afirmou Lucy Attah, activista do género que vive com o VIH. É directora executiva da Fundação Esperança para as Mulheres e Crianças, que ajuda as mulheres seropositivas, e onde a IPS encontrou Tayo.
Tayo disse à IPS que evitou efectuar o teste de VIH enquanto estava grávida. Os hospitais públicos nigerianos frequentemente fazem a despistagem de rotina do VIH nas mulheres grávidas mas o medo da discriminação no caso de se descobrir que era seropositiva levou Tayo a um hospital privado onde o teste não era exigido.
“Foi uma dos maiores erros da minha vida,” contou à IPS.
Uma das razões que leva as mulheres grávidas a rejeitarem o teste, disse Hua, é o facto de aos profissionais de saúde “faltar profissionalismo quando não mantêm os resultados dos testes de VIH confidenciais.”
“Por vezes tivemos de transferir os pacientes para outros hospitais longe do local onde vivem devido à divulgação da sua condição de portador do VIH,” relatou à IPS.
Alguns dos profissionais de saúde evitam qualquer contacto com as mulheres seropositivas porque acreditam, erroneamente, que podem contrair o vírus só com um toque, asseverou Attah.
“Superficialmente, parece haver uma grande sensibilização dos profissionais de saúde mas na realidade existe um estigma muito grande,” disse Attah.
Foi aprovada uma lei de confidencialidade e anti-discriminação nas duas câmaras, aguardando-se agora que o Presidente Goodluck Jonathan a assine.
Mas a Nigéria precisa muito mais do que leis para dar resposta a esta epidemia.
Em 2012, a ONUSIDA descreveu a resposta do país como estando “paralisada” e a necessitar de “um esforço maciço”.
De acordo com a ONUSIDA, a Nigéria é responsável por 13 por cento de todos os seropositivos e por 19 por cento de todas as mortes relacionadas com a SIDA na África Subsaariana.
Apenas o Chade se encontra numa posição inferior à da Nigéria quanto à cobertura do tratamento para as mulheres grávidas seropositivas. (ver gráfico)**:

Diferenças de tratamento visando impedir a transmissão do VIH por via materna: Percentagem de mulheres grávidas seropositivas nos 21 países prioritários do Plano Global que não recebem antiretrovirais para impedir a transmissão de mãe para filho, 2013.
Fonte: Relatório da ONUSIDA de 2014 sobre as diferenças existentes
Algumas boas notícias
Desde essa descrição negativa, o governo tomou medidas audaciosas para reduzir a transmissão materna (PMTCT) nos 12 estados mais afectados.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a cobertura PMTCT subiu 27 por cento em 2013, um aumento significativo dos 19 por cento em 2012.
Alguns estados duplicaram ou triplicaram o número de clínicas que oferecem serviços de resposta ao VIH, aumentando os locais que oferecem o PMTCT para 2.216 – ainda muito longe dos 16.400 necessários para uma cobertura adequada.
O número anual de novas infecções infantis baixou de 60.000 em 2012 para 51.000 em 2013.
Mas com duas em três mulheres grávidas a rejeitarem os cuidados pré-natais, chegar a essas mulheres através da melhoria dos serviços e de actividades de longo alcance constitui um desafio.
“Temos de ir ter com elas em vez de esperar que venham às clínicas,” disse à IPS Arjan de Wagt, responsável pelas crianças e pelo VIH junto da UNICEF na Nigéria. “Senão, as crianças vão continuar a morrer com SIDA desnecessariamente.”
Editado por: Mercedes Sayagues

