Clérigos islâmicos de Camarões educam contra o radical Boko Haram

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O xeque Oumarou Malam Djibring, integrante do Conselho de Imãs de Camarões, pediu aos muçulmanos do país que estejam alertas diante do grupo extremista Boko Haram e denunciem todas as pessoas de aspecto suspeito. Foto: Ngala Killian Chimtom/IPS

 

Iaundé, Camarões, 1/8/2014 – Motari Hamissou se dava bem com seus alunos na escola pública de Sabga, uma localidade de Bamenda, a capital da região camaronesa do Noroeste. Antes, Hamissou também vivia em harmonia com seus vizinhos. Ninguém se incomodava com sua barba longa e espessa, nem com o véu de sua mulher, Aisha Hamissou, nem com a religião que ambos professam.

Segundo o censo geral de população de 2010, os muçulmanos constituem 24% dos 21 milhões de habitantes deste país da África central e em sua maioria vivem em três das dez regiões nas quais se divide o território camaronês: Extremo Norte, Norte e Adamawa, todas na fronteira com a Nigéria.

O limite nordeste de Camarões se estende ao longo da fronteira oriental do território nigeriano, até o norte predominantemente muçulmano da Nigéria, que é um reduto do grupo islâmico radical Boko Haram, cujo nome significa “a educação ocidental é pecado”, em língua hausa, e que busca estabelecer um Estado islâmico na Nigéria mediante a violência armada.

O grupo, vinculado à rede extremista Al Qaeda no Magreb islâmico e ao seu aliado na Somália, Al Shabaab, chamou a atenção mundial quando, no dia 14 de abril, sequestrou mais de 200 moças de uma escola pública de orientação católica em Borno, um dos 36 Estados da Nigéria, que são mantidas cativas, com exceção de umas poucas que conseguiram escapar.

Mais de 12 mil pessoas morreram em razão dos enfrentamentos desde que o Boko Haram pegou em armas em 2009 para lutar por um Estado muçulmano na Nigéria, segundo dados do presidente nigeriano, Goodluck Jonathan. Nos últimos tempos aumentaram os ataques da organização no vizinho Camarões. Sua incursão mais recente foi no dia 27 de julho, com o sequestro da mulher do vice-primeiro-ministro camaronês, Amadou Ali, na cidade de Kolofata, no norte.

Os ataques e sequestros que o Boko Haram comete periodicamente na região do Noroeste de Camarões acabaram com a paz e a concórdia que o professor Hamissou desfrutava com seus alunos e vizinhos. Os próprios estudantes o chamam de Boko Haram. Eles “veem as barbas que usamos e os véus de nossas mulheres e já nos vinculam à seita”, contou Hamissou à IPS. “Sou um professor. Ensino educação ocidental. Como posso ensinar educação ocidental e ao mesmo tempo dizer que ela está proibida? Isso é incompreensível”, afirmou.

Arlette Dainadi, estudante de 12 anos que frequenta a escola primária onde Hamissou dá aulas, disse à IPS que alguns de seus companheiros chegaram a tirar seu véu enquanto gritavam “Boko Haram!”. Os adultos também são insultados, segundo Aisha Hamissou. “Não posso me deslocar nem interagir livremente com outros sem que me digam coisas. As pessoas me chamam de Boko Haram”, contou a mulher do professor, quase chorando.

Em um esforço concentrado para se distanciar do Boko Haram, organizações e dirigentes muçulmanos deste país, como a Associação de Estudantes Muçulmanos e o Conselho de Imãs de Camarões, organizam painéis, conferências e manifestações públicas para sensibilizar a população sobre sua posição contrária à seita extremista.

O xeque Oumarou Malam Djibring, membro do Conselho de Imãs de Camarões, assegurou à IPS que a campanha do Boko Haram contra a educação ocidental, bem como as atrocidades que comete contra inocentes, nada tem a ver com o islamismo. “O Islã é uma religião de paz e tolerância. Afastar-se dos preceitos vai contra o islamismo”, afirmou.

Os integrantes do Conselho e dirigentes muçulmanos adotaram a expressão idiomática “Halal Boko”, que em hausa significa que a educação é permitida segundo estabelecido no Corão. O professor e líder religioso islâmico, xeque Abu Oumar Bin Ali, destacou à IPS que os eruditos muçulmanos foram destacados incentivadores do ensino.

O matemático, astrônomo e geógrafo persa do século 8, Muhammad ibn Musa al-Jwarizmi, conhecido como Al Juarismi, “foi um destacado estudioso muçulmano que fundou o ramo matemático da álgebra. Assim, é uma estupidez que alguém vincule os muçulmanos com o ódio pela educação ocidental”, ressaltou Ali.

Ahmadou Moustapha, um governante muçulmano tradicional da região do Extremo Norte, contou à IPS que o Boko Haram recruta jovens muçulmanos na zona. “Chegam e levam nossos jovens pela força. E acredito que os intoxicam com suas crenças de ódio”, afirmou.

Para o professor Souaibou Issa, da Universidde de Ngaoundéré, na região de Adamawa, o grupo é perigoso porque “nunca se sabe quais são seus vínculos, nem o que buscam exatamente, e não se sabe quem são seus protagonistas. O que existe é uma suspeita generalizada, e os Estados lutam contra inimigos invisíveis.

O xeque Mallam Djibring pediu aos muçulmanos do país que estejam alertas e denunciem todas as pessoas de aspecto suspeito. Envolverde/IPS

Ngala Killian Chimtom

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