ONU lança ambicioso plano humanitário em Gaza

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Famílias palestinas se refugiam em uma escola da ONU na cidade de Gaza, após abandonarem suas casas no norte da Faixa de Gaza, em julho. Foto: Shareef Sarhan/Arquivos da UNRWA

 

Ramalá, Gaza, 19/9/2014 – A Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados (UNRWA) começou um ambicioso plano de recuperação de Gaza após a devastadora guerra de 50 dias entre o movimento armado Hamas e Israel, que destruiu uma parte considerável do território costeiro. Entretanto, para que o plano prospere, falta uma quantidade enorme de financiamento internacional, bem como um cessar-fogo de longo prazo que permita o levantamento do bloqueio que Israel e Egito impuseram a Gaza conjuntamente.

“Estamos trabalhando em um plano de 24 meses dirigido a 70% da população de Gaza, que são refugiados, mas isso só será possível se o bloqueio for levantado e permitida a entrada de materiais de construção e outros suprimentos”, explicou à IPS Chris Gunness, porta-voz da UNRWA.

Calcula-se que a Faixa de Gaza abrigue uma população aproximada de 1,8 milhão de pessoas, em um território de 360 quilômetros quadrados, o que a converte em uma das regiões de maior densidade demográfica do mundo, com 5.046 habitantes por quilômetro quadrado.

“Novamente se pede aos contribuintes que financiem a reconstrução de Gaza, e nesse ponto não há garantias de segurança, porque um cessar-fogo permanente é essencial se não quisermos voltar ao ciclo repetitivo de destruição e reconstrução”, pontuou Gunness.

A guerra de Gaza, de 8 de julho a 26 de agosto, denominada pelos israelenses de Operação Margem Protetora, se converteu na campanha militar mais severa contra a região desde a ocupação israelense dos territórios palestinos, em 1967. “A devastação causada desta vez não tem precedentes na história recente. Partes de Gaza parecem uma atingidas por terremoto, com 29 quilômetros de infraestrutura danificada”, afirmou Gunness.

A guerra também causou a morte de 2.130 palestinos e deixou mais de 11 mil feridos. A destruição foi total em mais de 18 mil moradias, e os danos obrigaram ao fechamento de quatro hospitais e cinco clínicas de saúde. Sofreram danos consideráveis, 17 dos 32 hospitais de Gaza e 45 de suas 97 clínicas de saúde. Calcula-se que a reconstrução custará mais de US$ 7 bilhões.

Segundo a UNRWA, 22 escolas ficaram totalmente destruídas e 118 foram danificadas durante os bombardeios israelenses, bem como muitos centros de educação superior. Cerca de 110 mil pessoas permanecem em abrigos de emergência da ONU ou com famílias de acolhida, acrescentou a agência. Só a reconstrução dos abrigos custará mais de US$ 380 milhões.

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Menino palestino observa os restos de um edifício destruído por um bombardeio no campo de refugiados de Bureij Central, na Faixa de Gaza, em julho. Foto: Shareef Sarhan/Arquivos da UNRWA

A Federação Palestina de Indústrias assegura que 419 empresas e oficinas foram danificadas e 129 ficaram totalmente destruídas. “Temos um plano de dois anos que cuida de todo o espectro de necessidades dos palestinos. Atualmente contamos com 300 engenheiros em Gaza para avaliar as necessidades de reconstrução”, afirmou Gunness à IPS.

A estratégia da UNRWA se divide nas etapas de socorro, recuperação parcial e recuperação plena. “O período de socorro, que continuará pelos próximos quatro meses, implica uma intervenção humanitária urgente, que inclui proporcionar abrigo, alimento e atender as necessidades médicas dos refugiados de Gaza”, disse o porta-voz.

“O período de recuperação parcial continuará durante o próximo ano e cuidará das necessidades fundamentais da população, como a reparação de danos na infraestrutura ambiental, restauração das instalações da UNRWA e ajuda complementar para o fornecimento dos meios de subsistência”, detalhou Gunnesss.

“O período de recuperação plena durará dois anos e estará centrado no impacto do conflito, mediante um programa de meios de subsistência sustentáveis que incentive a autossuficiência e complete a transição dos abrigos de emergência e de estadias prolongadas da UNRWA para sua função original e sua plena capacidade operacional”, acrescentou o porta-voz.

Uma parte do programa da UNRWA terá a ver com a proteção, o gênero e a incapacidade. O aumento do número de famílias dirigidas por mulheres e com homens incapacitados repercute nos padrões de desemprego. “As mulheres são as principais doadoras de cuidados, que estão estreitamente vinculados ao lar e ao trauma psicológico que as crianças apresentam. Por outro lado, já houve sinais de uma violência maior de gênero”, destacou Gunness.

Segundo o porta-voz, “queremos nos concentrar na sensibilização sobre a violência doméstica, a forma de abordar a violência no lar e a construção de relações saudáveis e equitativas com nosso programa de empoderamento de gênero”. A UNRWA também cuidará da distribuição de alimentos para atender os requisitos mínimos calóricos com alimentação básica, como pão, carne enlatada ou atum, produtos lácteos e verduras frescas. Além disso, entregará kits de higiene e tanques de água para 42 mil famílias.

Também serão realizados reparos de emergência nos abrigos, já que nessa ocasião o número de moradias danificadas ou destruídas foi 70% maior do que nas hostilidades com Israel de 2008-2009. A agência também distribui ajuda de emergência e dinheiro às famílias dos refugiados. “Devido ao enorme dano causados aos hospitais e centros de saúde, a UNRWA estabeleceu 22 pontos que prestarão serviços básicos de saúde aos doentes e feridos, e foram enviadas equipes de saúde para realizar os devidos controles”, destacou Gunness.

O impacto psicológico da guerra é outro fator que preocupa a UNRWA. “Não há uma pessoa em Gaza que não tenha sido afetada pela guerra. Em consulta com o Programa de Saúde Comunitária da agência, contratamos assessores adicionais e coordenadores juvenis que oferecerão uma ampla gama de serviços”, acrescentou o porta-voz.

“Se Gaza vai se recuperar e seus habitantes têm alguma esperança para o futuro, é vital que a comunidade internacional intervenha para ajudar aqueles civis que continuam pagando o preço mais alto”, concluiu Gunness. Envolverde/IPS

Mel Frykberg

Mel Frykberg began her journalism career reporting on unrest in black townships, including Soweto, in South Africa during the apartheid era. She later worked as a journalist in Sydney, Australia. Mel has worked as a journalist in the Middle East for over a decade. She has reported for a number of major international publications from Gaza, Jerusalem, Beirut, Cairo, and Amman where she has lived. Mel also edited local magazines and newspapers in the region and is a frequent commentator on the Israeli/Palestinian conflict on National Public Radio in the United States. Frykberg studied journalism in the U.K.

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