Últimas florestas virgens em perigo, e piorando

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O Canadá lidera a lista de países com maior desmatamento desde 2000, com 21% do total de cobertura vegetal perdida. Foto: Crustmania/CC by 2.0

 

Uxbridge, Canadá, 10/9/2014 – O mundo perde rapidamente as últimas florestas virgens. A maior parte deste fenômeno é registrada no Canadá, não no Brasil, nem na Indonésia, dois países que foram titulares nos últimos tempos devido à gravidade do desmatamento que experimentavam. Um novo estudo, realizado por meio de imagens de satélites, revela que, desde 2000, se perdeu ou se degradaram mais de 104 milhões de hectares de florestas, equivalentes a três vezes a superfície da Alemanha.

“A cada quatro segundos se perde uma área do tamanho de um campo de futebol”, afirmou Christoph Thies, da organização Greenpeace Internacional. A extensão da vegetação perdida, claramente visível nas imagens tomadas em 2000 e 2013, é “absolutamente espantosa”. Seu impacto é global porque esta desempenha papel fundamental na regulação do clima, explicou Thies à IPS. O atual grau de desmatamento coloca mais dióxido de carbono na atmosfera do que todos os automóveis, caminhões, barcos e aviões juntos, ressaltou.

Além disso, acrescentou Thies, “governos devem tomar medidas urgentes” para proteger as selvas ainda intactas, criando mais áreas protegidas e fortalecendo os direitos das populações que nelas vivem, entre outras iniciativas, como convencer as madeireiras e os fabricantes de móveis, entre outros, a se negarem a usar matéria prima de florestas virgens.

O Greenpeace é um dos muitos sócios na iniciativa Intact Forest Landscapes (Paisagens Florestais Intactas), junto com a Universidade de Maryland, o Instituto de Recursos Mundiais e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) Rússia, entre outros, que usam imagens obtidas via satélite para determinar a localização e extensão das maiores selvas intactas do mundo.

O novo estudo revela que metade da perda florestal por desmatamento e degradação aconteceu em três países: Canadá, Rússia e Brasil, que também concentram cerca de 65% das áreas florestais que restam no planeta. Apesar da atenção da mídia se concentrar no desmatamento da Amazônia e da Indonésia, o Canadá encabeça a perda florestal desde 2000, com 21% do total. Por outro lado, na Indonésia foi 4%.

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Amazônia, Brasil, em 2000. Foto: Cortesia da Global Forest Watch

O aumento maciço da exploração das areias de alcatrão e do gás de xisto, bem como o desmatamento e a construção de estradas estão entre as principais causas da perda florestal no Canadá, detalhou Peter Lee, da organização independente canadense Global Forest Watch Canada. O grande aumento nos incêndios florestais é outra razão do desmatamento. A mudança climática aqueceu rapidamente o norte do Canadá, secou a taiga e o mangue, deixando-os vulneráveis aos incêndios.

Nas areias betuminosas da província canadense de Alberta, mais de 12,5 milhões de hectares de florestas ficaram sulcados por estradas, tubulações, linhas de alta tensão e outros tipos de infraestrutura, disse Lee à IPS. Segundo as previsões, a exploração das areias de alcatrão e do gás de xisto no Canadá poderiam duplicar, ou até mesmo triplicar, na próxima década e “há pouco interesse no âmbito político federal ou provincial em conservar as florestas virgens”, acrescentou.

Nas últimas grandes florestas virgens vivem animais selvagens, aves e várias plantas, disse à imprensa Nigel Sizer, diretor global do programa de selvas do Instituto Mundial de Recursos. Animais como o tigre siberiano, o orangotango e as renas exigem vastas extensões de terreno para sobreviverem, explicou, acrescentando que “a perda dessas espécies leva a uma queda de todo o ecossistema florestal, com tal sutileza que é difícil medir”. A vegetação pode voltar a crescer, mas levará muitas décadas e nas florestas do norte mais de cem anos. E, se uma espécie se extingue ou restam pouquíssimos exemplares, levará mais tempo para o ecossistema se recuperar, caso se consiga isso.

As árvores, as plantas e todas as criaturas que formam um ecossistema saudável oferecem à humanidade uma variedade de serviços vitais, entre eles armazenar e oferecer água limpa, ar puro, absorver dióxido de carbono e produzir oxigênio, bem como ser fonte de alimentos e de madeira. Esses serviços “gratuitos”, frequentemente são insubstituíveis e, em geral, valem muito mais do que a madeira ou as pastagens para o gado, ressaltou Sizer.

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Amazônia, Brasil, em 2013. Foto: Cortesia da Global Forest Watch

As imagens via satélite e os mapas que aparecem no site da Global Forest Watch oferecem a possibilidade de ver com nossos próprios olhos como as selvas desaparecem com o passar do tempo. Os dados obtidos para o estudo podem ser encontrados em seu site por meio de várias ferramentas.

A informação mostra que 25% da maior floresta europeia, 900 quilômetros ao norte de Moscou, foi cortada pela indústria madeireira. O Paraguai, em apenas 13 anos, converteu 78% de sua superfície florestal em grandes extensões de plantação de soja. No Congo, onde fica a segunda maior selva do mundo, 17% foi perdida por desmatamento, mineração e construção de estradas. O site da organização também oferece detalhes de vastas áreas desse país africano licitadas para iniciativas madeireiras.

O desmatamento começa com a construção de estradas, frequentemente vinculadas às indústrias madeireiras e extrativistas, pontuou Thies. Em alguns países, como Brasil e Paraguai, a principal razão é a adoção da agricultura em grande escala, geralmente para cultivos de exportação. Os novos dados podem ajudar as companhias comprometidas com a sustentabilidade a determinar quais áreas evitar quando extraem produtos como madeira, óleo de palma, carne e soja.

Os esforços do mercado devem concentrar mais apoio devido à fragilidade e à governança em muitas dessas regiões, afirmou Thies, que também exortou o Forest Stwearship Council, um programa de certificação voluntária que fixa padrões para a gestão florestal, a “ter um papel mais firme” e a melhorar seus parâmetros para proteger melhor a natureza. Sem medidas urgentes para deter o desmatamento, será difícil restar uma selva grande até o final deste século, ressaltou Sizer. Envolverde/IPS

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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