A SIDA é a primeira causa de morte entre os adolescentes africanos

À medida que a SIDA se tornou a causa principal de morte entre os adolescentes em África, é crucial capacitar os jovens – particularmente as raparigas – para fazerem as escolhas de saúde mais seguras e evitarem o HIV. Crédito: Mercedes Sayagues.

À medida que a SIDA se tornou a causa principal de morte entre os adolescentes em África, é crucial capacitar os jovens – particularmente as raparigas – para fazerem as escolhas de saúde mais seguras e evitarem o HIV. Crédito: Mercedes Sayagues.

LAGOS, Nigéria, 21 de Novembro de 2014 (IPS) – Há dois anos, Shola* foi expulso da casa da família em Abeokuta, no sudoeste da Nigéria, depois de ter sido diagnosticado como seropositivo aos 13 anos. Vivia com o pai, a madrasta e os seus sete filhos.

“A madrasta insistiu que Shola devia sair de casa porque provavelmente iria infectar os filhos dela,” disse Tayo Akinpelu, Director de Programa da Iniciativa de Salvamento do Futuro dos Jovens, à IPS.

RETRATO: ADOLESCENTES COM HIV NA TANZÂNIA
Na Tanzânia, é alarmante que a prevalência do HIV entre os adolescentes com idades compreendidas os 15 e 19 anos entre 2007 e 2012 não tenha diminuido.

Estima-se que 165.000 adolescentes vivem com o HIV, 97.000 dos quais são raparigas e 68.000 rapazes. Alguns nasceram com o HIV e outros contraíram-no quando eram crianças ou adolescentes.

Para melhor compreender as suas necessidades, a Comissão Tanzaniana para a SIDA efectuou um inquérito sobre os adolescentes seropositivos entre os 15-19 anos em sete regiões.

Alguns resultados:

• Quatro em dez adolescentes eram sexualmente activos, na maioria dos casos com um parceiro regular.
• Um pouco mais de metade informou que tinha usado preservativos no ultimo contacto sexual.
• Um terço informou ter sido alvo de violência sexual. Poucos tinham discutido o abuso com amigos ou familiares ou denunciado o caso às autoridades.
• Um terço estava sensibilizado quanto ao planeamento familiar e aos serviços de protecção de menores.

O estudo apela à divulgação de informação sobre a protecção de menores e os serviços de saúde sexual e reprodutiva aos adolescentes que vivem com o HIV para que estes possam fazer escolhas de vida seguras e ter acesso a tratamento e apoio.

A prevalência nacional do VIH é cinco por cento, segundo a ONUSIDA.

Akinpelu contactou com a mãe de Shola, que voltara a casar. Mas esta recusou ficar com o filho, com o argumento que o pai é que devia ser responsável pelo ele.
“Shola sentiu-se marginalizado,” disse Akinpelu. Eventualmente, os avós apareceram e ficaram com ele.

O HIV entre os jovens está a devastar as famílias na Nigéria e noutros pontos de África, onde a SIDA se tornou a causa principal de morte entre os adolescentes.

“Isto é absolutamente inaceitável,” disse Craig McClure, chefe do programa para o HIV junto do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em Nova Iorque. “Ainda por cima, as mortes relacionadas com a SIDA estão a diminuir em todas as faixas etárias excepto entre os adolescentes.”

Um relatório da UNICEF indica que o número global de mortes diminuiu 30 por cento entre 2005 e 2012, mas aumentou 50 por cento entre os adolescentes.

Receio de pedir ajuda
Segundo o Dr. Arjan de Wagt, responsável pelo programa do HIV/SIDA junto da UNICEF em Abuja, uma das razões deste chocante número de mortes entre os adolescentes é o reduzido número de jovens que recebem o tratamento antiretroviral (ART).

Dos 3.1 milhões de Nigerianos que vivem com o HIV, metade têm menos de 24 anos. Mas só dois entre dez jovens seropositivos com mais de 15 anos e um em dez dos que têm menos de 15 anos receberam os medicamentos essenciais à vida em 2013, disse Wagt à IPS.

A rejeição por parte da família e da sociedade, como aconteceu a Shola, ou o medo da rejeição, impede os adolescentes de procurarem ajuda.

“Muitos adolescentes seropositivos estão a morrer em silêncio porque têm vergonha de acederem ao tratamento,” disse à IPS Blessing Uju, conselheira da juventude sediada em Lagos.

“A vergonha ainda é maior para as raparigas. Na Nigéria, quando se é seropositiva, a impressão geral é que se trata de uma trabalhadora de sexo remunerada,” afirmou.

Sally* não contou aos pais e irmãos que tinha sido diagnosticada como seropositiva quatro anos antes, quando tinha 19 anos.
“A nível da família há muito estigma,” disse à IPS.

Embora consciente do perigo de não tomar a medicação com regularidade, Sally muitas vezes não a toma para evitar que a vejam com medicamentos em casa.

“Como jovem preciso de alguém em que possa confiar. Se a pessoa não for forte, pode acabar por pôr termo à vida,” afirmou.

Os adolescentes precisam da família para os ajudar a continuar a tomar o tratamento antiretroviral, disse Akinpelo.

Os avós de Shola cozinhavam a primeira refeição do dia à tarde, até que Akinpelu os informou que as pílulas podiam causar náuseas no estômago vazio e que Shola precisava de uma refeição forte mais cedo

Uju explicou que o cansaço com o tratamento afecta bastante os adolescentes. “Alguns dizem que preferem morrer a continuarem a tomar os medicamentos,” disse.

Elevado número de mortes
Dos 2.1 milhões de adolescentes que viviam com o HIV em todo o mundo em 2012, mais de 80 por cento estão na África Subsariana, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV/SIDA (ONUSIDA).

O Malawi, com 93.000 adolescentes seropositivos, regista 6.900 mortes de adolescentes anualmente em resultado da SIDA.

O número de mortes está ligado ao diagnóstico tardio e ao facto de o tratamento antiretroviral começar demasiado tarde, explicou Judith Sherman, da UNICEF, em Lilongwe.

A política do Malawi é que todas as crianças observadas nas instalações de saúde devem ser convidadas a fazer o teste do HIV. “Infelizmente este não é um procedimento rotineiro,” disse.

FACTOS RÁPIDOS
MORTES CAUSADAS PELA SIDA ENTRE OS ADOLESCENTES EM 2013

• África do Sul 11.,000
• Tanzânia 10.000
• Etiópia 7.900
• Quénia 7.800
• Zimbabwe 6.500
• Uganda 6.300
• Malawi 5.600
• Zâmbia 4.400
• Moçambique 3.900
• Ruanda 1.200
• Lesoto 1.200

A adesão dos jovens ao tratamento antiretroviral é mais baixa do que entre os adultos, disse Sherman, “por diversas razões, como cansaço em relação ao tratamento, depressão, receio da estigmatização, rejeição e relações familiares instáveis.
Os cerca de 165.000 adolescentes seropositivos na Tanzânia enfrentam desafios semelhantes aos dos seus pares na Nigéria e no Malawi (ver barra lateral).
Allison Jenkins, responsável pelo programa para o HIV/SIDA junto da UNICEF na Tanzânia, disse que uma das maneiras eficazes de ajudar os adolescentes são os clubes.
“Os clubes para jovens aumentam a adesão ao tratamento, particularmente entre os membros que participam com regularidade,” disse à IPS.

O HIV entre as adolescentes
É preocupante o facto de a prevalência do HIV entre os adolescentes ser muito marcada pelo género, com as adolescentes a apresntarem taxas de infecção que a ONUSIDA intitula de “inaceitavelmente elevadas.”

As adolescentes com 15-19 anos em Moçambique têm uma prevalência de sete por cento, o dobro dos rapazes com a mesma idade. No Botswana regista-se um cenário semelhante.

Lucy Attah, que pertence à organização Mulheres e Crianças a Viver com HIV e SIDA sediada em Lagos, culpa a pobreza.

“As raparigas trocam o sexo por dinheiro para se sustentarem,” disse. “A pressão para arranjar dinheiro é maior nas cidades onde as adolescentes competem entre si para obter os melhores telemóveis e as melhores roupas.”

As adolescentes tornam-se sexualmente activas, experimentam as drogas e o álcool, acreditam que são invulneráveis e sentem a pressão económica e social de se tornarem adultas. O HIV e a falta de serviços de saúde sensíveis aos jovens agudizam o problema, segundo o relatório da UNICEF.

“Temos de fazer mais e melhor, e concentrar a nossa atenção na África Subsariana e nas adolescentes, sobre quem recai o fardo mais pesado,” disse McClure.

*os nomes foram alterados para proteger a privacidade das pessoas
Editado por Mercedes Sayagues

Sam Olukoya

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