Sul do Sudão Assolado Pela Guerra Com Dificuldade para Conter a SIDA

À medida que a SIDA se tornou a causa principal de morte entre os adolescentes em África, é crucial capacitar os jovens – particularmente as raparigas – para fazerem as escolhas de saúde mais seguras e evitarem o HIV. Crédito: Mercedes Sayagues.

À medida que a SIDA se tornou a causa principal de morte entre os adolescentes em África, é crucial capacitar os jovens – particularmente as raparigas – para fazerem as escolhas de saúde mais seguras e evitarem o HIV. Crédito: Mercedes Sayagues.

JUBA, 14 de Novembro de 2014 (IPS) – Vestida com um traje kitenge africano estampado com flores e um cachecol azul na cabeça, Sabur Samson, de 27 anos, está sentada com ar pensativo no centro de HIV no Hospital Civil Maridi, no Estado de Equatoria Ocidental, no sul do Sudão.
Hoje pagou 20 libras do Sul do Sudão (cerca de seis dólares) por uma viagem de bodaboda (táxi motocicleta) até à baixa mas terá de poupar na comida nos próximos dias.

Relance rápido pelo Sul do Sudão
Depois de quatro décadas de guerra intermitente, o Sul do Sudão conquistou a independência do norte do Sudão em Julho de 2011. Mas a estabilidade não durou muito.
A violência enraizada na luta pelo poder político e étnico teve início em Dezembro de 2013, desfazendo os sonhos de paz para o país mais jovem do mundo (pop 11.3m).

Depois da independência, o Sul do Sudão melhorou os serviços para a população que vive com o HIV, calculada em 150.000 pessoas. O novo conflito anulou estas conquistas, tendo perturbado não só os serviços de saúde mas a água e o saneamento, estradas e pontes, segurança alimentar e redes comunitárias.

As Nações Unidas estimam que 1.9 milhões de pessoas ficaram desalojadas recentemente. Algumas fugiram para países vizinhos, enquanto 1.4 milhões se amontoam em 130 campos no Sul do Sudão. Destes, 70 são tão remotos que são inacessíveis às agências humanitárias, segundo um estudo da Aliança HIV/SIDA.

O Sul do Sudão tem recursos humanos, capacidade técnica e organizacional limitadas para responder ao HIV, de acordo com o estudo.

Os elementos impulsionadores da epidemia do HIV no Sul do Sudão incluem a idade precoce na altura das primeiras relações sexuais, um baixo nível de conhecimento acerca do HIV e uso de preservativos, violação e violência sexual baseada no género, a elevada taxa de doenças sexualmente transmissíveis e o estigma.

A maior prevalência do HIV regista-se nos três estados da Grande Equatoria do sul, na fronteira com o Uganda e a República Democrática do Congo. Na Equatoria Ocidental, onde vivem Samson e Mongo, a seroprevalência é de sete por cento, mais do dobro do nível nacional.

Ela irá passar fome mas poucos a irão ajudar na aldeia, apesar de ser cega e mãe solteira com dois filhos.
“Muitas pessoas têm receio de se aproximar porque têm medo de contrair o HIV,” disse à IPS.
Sentado ao seu lado, Khamis Mongo, de 32 anos, vive com o HIV há cinco anos e sofreu uma rejeição similar. “Algumas pessoas não querem comer do mesmo prato do que eu,” disse.
Mongo e Samson encontram-se entre as cerca de 1.000 pessoas seropositivas que recebem tratamento no centro, 250 das quais têm acesso à terapia antiretroviral (ART). Têm sorte: no Sul do Sudão só uma em 10 pessoas que precisam de ART tem acesso à ela.
A clínica examina pacientes que vêm de zonas a 100 quilómetros de distância.

“Muitos pacientes morrem porque não têm recursos para pagar o transporte para virem buscar os seus medicamentos aqui,” disse Suzie Luka, funcionária clínica, à IPS.
Uma viagem de ida de 80 quilómetros em bodaoda de Ibba a Maridi custa 150 libras do Sul do Sudão (47 dólares).

Os desafios em Maridi são um microcosmo daqueles que o mais novo país do mundo, o Sul do Sudão, enfrenta para conter a epidemia de HIV.
Após a independência em 2011 do Norte doSudão, e emergindo da mais longa guerra civil em África, que durou mais de 21 anos, com as mais baixas estatísticas de desenvolvimento humano no mundo, o Sul do Sudão mergulhou mais uma vez em combates em Dezembro de 2013.

A taxa de prevalência nacional de HIV é inferior a três por cento e aumenta constatemente, de acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV/SIDA (ONUSIDA).
Isto traduz-se em 150.000 pessoas a viver com o HIV num país cujo tecido social e infra-estruturae físicas foram destruídas por guerras sucessivas.

“Corpos ambulantes”
Evelyn Letio, da Rede de Pessoas do Sul do Sudão a Viver com HIV, descreveu o fraco acesso, qualidade e continuidade dos serviços de saúde, sustentados pela negação da doença e pela elevada estigmatização e discriminação, particularmente contra as mulheres.

“Os líderes comunitários aceitam apressadamente o divórcio se a mulher for seropositiva e obrigam-na a abandonar a casa do marido,” afirmou Letio. “Se o homem for seropositivo, não autorizam a mulher a deixar a casa para ela tome conta dele.

Apesar dos desmentidos dos funcionários governamentais, grassa a discriminação no funcionalismo público, acrescentou: “As pessoas que revelaram ser seropositivas são despedidas e apelidadas de ‘corpos ambulantes’”.

Os recursos financeiros, infra-estruturais e humanos inadequados limitam os esforços para expandir os serviços de tratamento de HIV. O plano nacional para o HIV apresenta um défice de financiamento de 80 por cento.

Mongo e Sanson disseram à IPS que a clínica de Maridi muitas vezes fica sem medicamentos e têm de regressar alguns dias mais tarde. Outras vezes, os funcionários não são pagos durante vários meses e recusam-se a trabalhar.

“O tratamento é complicado,” reconhece Habib Daffalla Awongo, director-geral da coordenação de programas junto da Comissão para a SIDA do Sul do Sudão.
Segundo a ONUSIDA, só 22 centros disponibilizaram o tratamento anti-retroviral antes do novo surto de violência.

Em Dezembro do ano passado, os centros de tratamento anti-retroviral em Bor, Malakal e Bentium, as capitais dos estados mais afectados pelos combates, tiveram de encerrar. Descohece-se o paradeiro de 1.140 pacientes. O mais provável é que tenham interrompido o tratamento anti-retroviral, colocando a vida em perigo.

Factos Rápidos Sobre a SIDA no Sul do Sudão

• 150.000 pessoas vivem com o HIV
• 20.000 crianças com menos de 15 anos vivem com o HIV
• 12.500 mortes relacionadas com a SIDA em 2013
• 15.400 novas infecções em 2013
• 72.000 pessoas precisam de ART
• 1 em 10 pessoas que precisam de ART tem acesso a ele
• 1 em 10 mulheres grávidas seropositivas tem acesso a PMTCT
• 27 por cento das pessoas com mais de 15 anos sabem ler e escrever
• 1.9m de pessoas deslocadas internamente em 2014

Guerra e SIDA
De acordo com as Nações Unidas, quarenta mil pessoas que vivem com o HIV foram directamente afectadas pela recente violência. Os novos combates inverteram o progresso feito pelos serviços de tratamento do HIV desde a independência.

“Perdemos muitos seropositivos durante o conflito, alguns morreram nos combates e outros deslocaram-se para áreas onde não há confrontos,” disse Awango.
Segundo os cálculos das Nações Unidas, este recente conflito já causou a deslocação de 1.9 milhões de pessoas.

Em Juba, a capital, apareceram campos com longas filas de tendas brancas para fornecer abrigo a 31.000 deslocados.
Entre eles está Taban Khamis*, que escapou aos combates que tiveram lugar na importante cidade petrolífera de Bentiu, a 1.000 quilómetros de Juba. Interrompeu o tratamento anti-retroviral e tem receio que a sua saúde piore mas não vai à clínica de tratamento de HIV no campo com receio do estigma.

“O campo está a abarrotar e não há privacidade,” disse à IPS. “Toda a gente ficará a saber que tenho HIV.”
Segundo um estudo da Aliança HIV/SIDA, a seroprevalência e as infecções sexualmente transmissíveis “aumentaram dramaticamente nos campos”.
Awongo tem consciência deste problema. “Encorajamos as pessoas a saírem dos campos para os locais de facilitação onde podem ter acesso aos serviços mas isso não está a fazer diferença,” disse.

*Nome alterado para proteger a sua privacidade
Editado por: Mercedes Sayagues

Charlton Doki

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