Cuba e Estados Unidos: Esquadrinhando o futuro possível

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Barack Obama telefona para Raúl Castro e retoma relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba. Foto: Pete Souza/ TWH (16/12/2014)/ Fotos Públicas

 

Havana, Cuba, fevereiro/2014 – Todos os cubanos, de um lado ou de outro do estreito da Flórida, e também de Espanha, França ou Groenlândia (que lá também há um par de cubanos), sentimos que no dia 17 de dezembro, quando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a normalização das relações com Cuba, após mais de meio século de ruptura, estava se produzindo um momento histórico que, de alguma forma, incluía cada um de nós.

Os que vivem em Cuba, precisamente por viver na ilha, e aqueles na diáspora, pelas razões que, em diferentes momentos e por diversos motivos, os levaram a emigrar e reescrever suas vidas.

Uma grande maioria reagiu com júbilo e esperanças, uma porcentagem menor com sentimento de derrota e até de traição, e outra quantidade possível com poucas expectativas a respeito do que essa decisão pode provocar para o curso de suas existências.

Mas o que é indiscutível é que cada um de nós se sentiu tocado pelo anúncio que alguns meios de imprensa qualificaram como a “notícia do ano”, algo muito notável (mesmo considerando exagerado) tratando-se apenas da normalização de relações entre Estados Unidos e um pequeno território do Caribe que não decide a economia da região e, supõe-se, não influi nas grandes políticas mundiais.

Entretanto, a pequenez geográfica e econômica de Cuba há anos não corresponde à sua projeção internacional, e a chamada “notícia do ano” o foi (ou pode ter sido) por várias razões, além das sentimentais que afetam todos os cubanos.

Por seu caráter simbólico como ato de distensão e ponto final do dilatado epílogo da Guerra Fria, como reconhecimento de um erro político sustentado pelos Estados Unidos durante muito tempo, por seu peso nas relações interamericanas e por seu caráter humanista graças ao qual o primeiro passo do acordado foi uma troca de prisioneiros, algo sempre comovedor e humanitário.

E também o foi porque em um mundo cada vez mais carregado de más notícias, o fato de dois países que se enfrentam politicamente por meio século superarem diferenças e optarem pelo diálogo é algo reconfortante.

Três semanas depois, a maquinaria dessa nova relação foi posta para funcionar. À véspera da visita a Havana da secretária de Estado adjunta, Roberta Jacobson, para iniciar conversações de alto nível “face to face” com o governo de Havana, o presidente Obama anunciou a entrada em vigor de suas primeiras medidas de mudança.

Na lista se destacam as relacionadas com maior abertura de licenças para que os norte-americanos possam viajar a Cuba, aumento no valor das remessas de dinheiro para a ilha, reinício de intercâmbios financeiros e bancários, aumento das relações comerciais em diversos setores e pretensão de manter o crescimento da sociedade civil cubana por diferentes caminhos, entre eles da informação, das comunicações e o possível apoio econômico aos empreendedores.

Cuba, por sua vez, libertou prisioneiros pelos quais Washington havia demonstrado interesse.

As medidas recém-implantadas por Obama podem ter uma transcendência notável para Cuba. Primeiramente porque deixa a política de embargo como uma camisa de força que se encheu de rasgos e praticamente converte sua revogação em uma questão de tempo e, para começar, elimina muitos dos temores com que os investidores de outros países olhavam sua possível entrada na ilha.

Por seu lado, Cuba espera ser retirada da lista de nações patrocinadoras do terrorismo, na qual está incluída há anos e, de um e outro lado do estreito, os cidadãos cubanos olham com justificada incerteza o futuro da Lei de Ajuste Cubano, que garante a residência norte-americana a cada cidadão da ilha que coloque um pé em território norte-americano, não importando a via.

Mas, enquanto os acordos políticos seguem um ritmo que não deixa de surpreender, nós cubanos insistimos em perguntar como se viverá na ilha essa nova situação criada a partir de 17 de dezembro e hoje em marcha por diversas maneiras.

Porque as intenções de Obama de instrumentalizar uma mudança de política, que leve ao mesmo fim (a mudança de sistema em Cuba) e seu êxito, mediam as decisões que o governo cubano vai tomando para aproveitar o útil da nova relação e eliminar perigos potenciais.

A possível chegada em massa de norte-americanos a Cuba parece que poderia ser o primeiro efeito visível com vistas a um futuro que já começou a correr.

Se hoje a ilha recebe por ano três milhões de visitantes, essa quantidade poderá duplicar com as novas regulamentações anunciadas por Obama. Por isso, todos se perguntam se o país está preparado para semelhante circunstância e as respostas não são muito animadoras.

Depois de ter entrado em um longo período de crise com o desaparecimento da União Soviética e de suas generosas subvenções e com o recrudescimento do embargo norte-americano com as leis Torricelli e Helms-Burton (que inclusive alcançaram efeito extraterritorial), Cuba hoje é um país com sérios problemas de infraestrutura nas comunicações, no sistema viário, nos transportes e de moradia, entre outros setores.

A carência de recursos para fazer os necessários investimentos afeta também a compra de produtos que os supostos visitantes demandarão e gerará dificuldades ao consumo interno, já por si só bem encarecido e, em ocasiões, pouco abastecido.

Talvez os primeiros beneficiados com essa chegada de norte-americanos à costa cubana sejam os pequenos empresários da ilha que oferecem serviço de hospedagem e alojamento (e as outras milhares de pessoas que giram em sua órbita).

Atualmente, em uma cidade como Havana, não há quartos suficientes nos hotéis (propriedade do Estado ou de capital ou administração mista com empresas estrangeiras) e muito menos uma qualidade nos serviços gastronômicos estatais que os faça competitivos.

Assim, uma parte notável do dinheiro que circular passará por mãos dos empresários privados, um setor que mesmo tendo de pagar altos impostos ao Estado e elevadíssimos preços para compra de insumos no mercado varejista (ainda não existe o reclamado mercado atacadista que os beneficie), obterá importantes ganhos no cenário que hoje se desenha no horizonte próximo.

E esse fenômeno contribuirá para aumentar ainda mais o cada vez menos homogêneo tecido social da nação caribenha.

Outra grande expectativa nacional tem a ver com a possibilidade de os cubanos poderem viajar aos Estados Unidos pois, mesmo com a abertura maior nos anos recentes, para muitos cidadãos da ilha continua sendo um duro obstáculo a vencer o de obter o visto que lhes permita viajar para o país do norte. E, entre eles, há os que pretendem se radicar ali sob a Lei de Ajuste Cubano, agora com a possibilidade de não perder seus direitos civis na ilha, sob a proteção das leis migratórias aprovadas há dois anos pelo governo de Raúl Castro, que eliminaram a onerosa figura migratória da “saída definitiva do país”.

E, em um terreno menos concreto, mas não menos presente, cai o tema dos discursos e da retórica. Meio século de hostilidade em muitos territórios, incluída naturalmente a verbal, deve começar a ceder à luz das novas circunstâncias.

O “inimigo imperialista” e o “perigo comunista” estão sentados à mesma mesa, buscando soluções negociadas, e a linguagem deve se adequar a essa nova realidade para se conseguir a necessária compreensão e os esperados acordos políticos.

Por agora, os cubanos que vivem na ilha já sentem um notável primeiro beneficio dos acordos anunciados: sentimos como diminui a tensão política na qual vivemos por muitos anos e desde já podemos sentir que é possível refazer nossa relação com um vizinho extremamente poderoso e muito próximo, e, se não de um modo amistoso, ao menos nos relacionarmos de uma forma cordial, civilizada.

Por isso muitos – entre os quais me incluo – sentimos desde 17 de dezembro algo semelhante ao despertar de um pesadelo do qual quase nenhum de nós acreditava poder escapar. E com os olhos abertos, agora esquadrinhamos o futuro, tentando dar-lhe siluetas mais precisas. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua novela mais recente, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual.

Leonardo Padura

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