Camponesas da Patagônia reescrevem sua história no Chile

A partir da esquerda, Nancy Millar, Blanca Molina e Patricia Mancilla na pequena propriedade de Blanca, no povoado de Valle Simpson, região de Aysén, na Patagônia chilena. As três integram a única associação de mulheres camponesas do indômito território austral, o que as ajudou a conquistar sua autonomia econômica e a se empoderarem. Foto: Marianela Jarroud/IPS

 

Valle Simpson, Chile, 22/4/2015 – Mais de cem camponesas da Patagônia chilena se uniram para criar uma associação que lhes proporcionasse não só autonomia econômica, mas também empoderamento, em uma região marcada pelo machismo e pela desigualdade de gênero. Patrícia Mancilla, Nancy Millar e Blanca Molina conversaram com a IPS sobre suas histórias e como a terra, o artesanato e o trabalho com outras mulheres as ajudaram a superar depressões, abusos e desconfianças.

“Finalmente, conseguimos o reconhecimento para a mulher rural. A mulher camponesa aprendeu a se valorizar. Cada uma tem uma história de dor que consegue mitigar com o trabalho conjunto, o diálogo entre nós”, afirmou Mancilla, presidente da Associação de Mulheres Camponesas da Patagônia, criada em 2005. “Aprendemos a nos valorizar como mulheres e a valorizar nosso trabalho, permitindo que nossas mulheres enviem seus filhos à universidade”, acrescentou.

Mancilla vive em uma pequena propriedade familiar, na localidade de Río Paloma, a 53 quilômetros de Coyhaique, capital da região de Aysén. Sua casa não tem luz, mas, graças a um gerador elétrico, ela produz no local o que mais gosta de fazer: queijos artesanais de leite de vaca. Atualmente também explora o agroturismo familiar, mas um câncer na tireoide a obrigou a reduzir sua atividade.

Em seus três anos à frente da Associação, ela trabalhou incansavelmente para consolidar a união e as atividades coletivas de quase 120 camponesas do grupo. Mancilla e suas companheiras aguardam orgulhosas a inauguração do Centro de Gestão da Mulher Rural de Aysén, uma casa que conseguiram por meio de um projeto do governo regional, executado pelo Serviço de Habitação e Urbanização.

O centro vai servir de ponto de encontro, um lugar para compartilharem suas experiências e se capacitarem, e também como loja, para exposição e venda de seus produtos. As integrantes da Associação já realizam uma feira semanal, toda quarta-feira, onde comercializam juntas suas produções.

Blanca Molina mostra orgulhosa uma abóbora, plantada de forma orgânica em uma das quatro estufas que construiu com suas mãos em sua pequena propriedade em Valle Simpson, no sul patagônio do Chile. Foto: Marianela Jarroud/IPS

Blanca Molina mostra orgulhosa uma abóbora, plantada de forma orgânica em uma das quatro estufas que construiu com suas mãos em sua pequena propriedade em Valle Simpson, no sul patagônio do Chile. Foto: Marianela Jarroud/IPS

 

A região de Aysén é uma das menos povoadas do Chile, com 105 mil habitantes, e também a de menor densidade. Em contraste, nessa região de frio austral e vasta biodiversidade, são inúmeros os rios caudalosos, lagos e geleiras, terrenos férteis e recursos marinhos.

A Patagônia cobre 1,06 milhão de quilômetros quadrados do extremo sul americano, dos quais 75% ficam na Argentina e o restante em Aysén e na região de Magalhães, mais ao sul. Essa região natural abriga diversos ecossistemas e inúmeras espécies de flora e fauna, incluindo aves, mamíferos, répteis e anfíbios, alguns sem identificação. Também é o último refúgio do huemul, um cervo endêmico do Chile, que corre risco de extinção. Além disso, segundo especialistas em ambiente, a região possui uma das maiores reservas de água doce do planeta.

Aysén, coração da Patagônia chilena, esconde em suas esplendorosas paisagens uma das regiões mais pobres e vulneráveis do país, onde 9,97% da população vive na pobreza e 4,22% na indigência. Por isso, ativistas locais buscam consolidar a região como uma reserva de vida autossustentável.

“Queremos que o que temos seja cuidado e que se comercialize apenas o que nossa região produz”, explicou Mancilla. “Há outros lugares que são bonitos, mas nada se compara com o natural de nossa região. Ainda comemos frangos, ovos orgânicos, e toda  verdura e fruta que nasce em nossa região é orgânica, não se usa químicos”, destacou.

As artesãs, que integram a Associação Sindical de Mulheres Camponesas da Patagônia, ao sul do Chile, esperam a inauguração do centro comunitário, para poderem exibir e vender ali seus produtos. Enquanto isso, os oferecem em feiras públicas e em espaços emprestados por outras organizações de mulheres da região de Aysén. Foto: Marianela Jarroud/IPS

As artesãs, que integram a Associação Sindical de Mulheres Camponesas da Patagônia, ao sul do Chile, esperam a inauguração do centro comunitário, para poderem exibir e vender ali seus produtos. Enquanto isso, os oferecem em feiras públicas e em espaços emprestados por outras organizações de mulheres da região de Aysén. Foto: Marianela Jarroud/IPS

 

Para isso, agricultoras como Blanca Molina plantam seus produtos de forma orgânica, utilizado seus próprios dejetos. De fato, as integrantes da única associação de mulheres rurais da Patagônia chilena se destacam pelo fato de seus produtos serem todos ecologicamente sustentáveis.

“Há quem diga que essa terra não é boa para plantar, mas sei que é fértil. Sempre estou inovando, plantando coisas para ver se dão. Graças a Deus nesta terra tudo dá. Já comprovei e posso mostrar”, defendeu Molina, apontando seus cultivos. Ela construiu com suas mãos quatro estufas que ocupam boa parte de seu terreno em Valle Simpson, a 20 quilômetros de Coyhaique.

Molina mostra um a um os frutos de seu esforço: abóboras, alcachofras (Cynara cardunculus), pepinos (Cucumis sativus), repolhos ou couves (Brassica oleracea) e até mesmo curcubitas (Curbubita ficifolia), produto pouco habitual para uma região tão fria. Ela assegurou que a terra a enche de vida, ainda mais agora, que sofre de depressão por causa da morte de seus dois filhos, uma tragédia sobre a qual prefere não falar. “Foi a terra que a jogou para cima”, afirmou Mancilla, ao seu lado, sorrindo.

O certo é que essas três mulheres, todas casadas e com filhos de diferentes idades, mudam o semblante quando adentram a terra, em meio aos montes patagônios e da plantação sustentável, da qual emanam aromas inigualáveis.

Elas se conhecem há mais de uma década, quando, junto a outro pequeno grupo de mulheres, criaram a Associação, com o apoio do Programa de Formação e Capacitação para Mulheres Camponesas, impulsionado por um convênio governamental entre o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e a Fundação para a Promoção e o Desenvolvimento da Mulher.

Este programa, criado em 1992, tem por objetivo apoiar mulheres camponesas e/ou pequenas produtoras de famílias rurais, para contribuir com o aumento de suas rendas mediante a consolidação de iniciativas econômico-produtivas associadas ao mundo rural. Até agora, 20 mil delas foram beneficiadas.

Molina afirmou que, com a ajuda do programa, “agora a mulher tem mais direitos e outra renda para ajudar a alimentar a família”. Nancy Millar, que vive em Ñirehuao, a 80 quilômetros de Coyhaique, é artesã em lã, couro e madeira, e reforçou essa ideia: “A mulher camponesa aprendeu a se empoderar, a conhecer seus direitos”.

As três concordaram que Aysén é uma região onde o machismo historicamente tem sido muito forte. “Até o dia de hoje existe, mas o estamos controlando”, pontuou Mancilla. A maior resistência à sua Associação, na verdade, encontraram dentro de suas famílias. “A grande maioria nos dizia ‘já vai sair de casa’, e quando voltávamos nos diziam ‘aonde foi? Andou fazendo bobagens?”, recordou.

Apesar de no começo se mostrarem reticentes, atualmente os maridos sentem orgulho delas, porque veem os frutos. “Agora nos acompanham”, comentam as três mulheres, “sobretudo quando assamos uma novilha”, disseram rindo.

Os desafios dessas mulheres se centram agora em “ter um hectare próprio, da organização, para ali receberem suas capacitações”, e comprar uma caminhonete, “para podermos nos deslocar com facilidade para as feiras locais e para quando as mulheres precisam de apoio em seus traslados, especialmente as de muita idade”, constatou Mancilla.

Mas há um desafio maior: que os direitos de água passem a ser próprios e que não dependam de uma companhia para ter acesso aos recursos hídricos necessários. No Chile vigora um Código de Águas, que foi redigido pela ditadura militar do general Augusto Pinochet (1973-1990) e que transformou o recurso em propriedade privada, dando ao Estado a faculdade de conceder direitos de aproveitamento à empresas, de forma gratuita e de maneira perpétua. Além disso, permite a compra, venda ou arrendamento desses direitos sem levar em consideração prioridades de uso.

“Por que devemos pagar direitos de água se a gente nasceu e se criou no campo e sempre teve acesso à água?”, questionou Mancilla. “Por que tem de haver mais impostos para o pequeno camponês?”, acrescentou. Contudo, essas mulheres garantem que cada uma coloca tudo de si na criação de seus produtos. “Tudo o que fazemos é com carinho; se uma elabora um queijo o faz com o maior cuidado, quer que saia bem porque disso depende sua renda. Os tecidos de Nancy, as verduras de Blanca, tudo fazemos com paixão”, concluiu.

Autonomia forçada

Apesar do machismo histórico, as mulheres da Patagônia tiveram que assumir desde sempre a produção e a gestão dos alimentos e dos recursos naturais, com trabalhos em produção pecuária, hortícola, frutícola, lenha, turismo rural e artesanato, entre outros, além do cuidado de suas famílias e do lar.

“As mulheres da Patagônia tiveram que parir sem hospitais, tiveram que criar os filhos quando esse território era inóspito, além de fazer a organização social dessas comunidades que começaram a criar”, contou à IPS a dirigente social Claudia Torres.

“Os homens trabalhavam com os animais ou a madeira e partiam duas vezes ao ano por quatro meses. Então, a mulher se acostumou a se organizar e a não depender do homem se não voltasse”, acrescentou Torres.

Apesar do papel protagonista, “quando chegavam os funcionários do governo para falar com os camponeses, sempre se dirigiam aos homens”, enfatizou Mancilla. “Não entendiam que por trás deles havia mulheres fundamentais para o êxito da produção”, resssaltou. Envolverde/IPS

* Esta reportagem é parte de uma série concebida em colaboração com Ecosocialista Horizons.

Marianela Jarroud

Marianela Jarroud es una periodista chilena que colabora con IPS desde febrero de 2012. Graduada en periodismo en la Universidad de Arte y Ciencias Sociales, tiene un diploma en relaciones internacionales y globalización de la Universidad Alberto Hurtado. Ha trabajado en varios medios nacionales e internacionales, como la cadena de televisión latinoamericana TeleSur.

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