Queda no preço do petróleo beneficia ilhas do Pacífico

O transporte nas ilhas do Pacífico, incluído o dos navios cargueiros, depende em grande parte dos combustíveis fósseis. Foto: Catherine Wilson/IPS

O transporte nas ilhas do Pacífico, incluído o dos navios cargueiros, depende em grande parte dos combustíveis fósseis. Foto: Catherine Wilson/IPS

Por Catherine Wilson, da IPS

Canberra, Austrália, 8/5/2015 – A recente e drástica queda dos preços mundiais do petróleo, de US$ 115, em junho de 2014, para US$ 66, ao final de abril, para o barril do tipo Brent, começa a beneficiar as ilhas do Pacífico, que agora pagam menos pelo combustível e pela energia que consomem.

Embora o preço mundial do barril (159 litros) tenha subido para US$ 68 nos primeiros dias dessemês, os especialistas seguem prognosticando ganhos fiscais para a região porque a tendência geral reduz os custos operacionais e a prestação de serviços estatais.

A realidade “sugere que os custos reduzidos de combustível têm impacto positivo em todos os mercados insulares do Pacífico, ao menos mediante os preços menores cobrados, mas o impacto nos mercados secundários, como alimentação e transporte, pode demorar mais para se concretizar”, disse Alan Bartmanovich, assessor da Secretaria da Comunidade do Pacífico em Fiji. Isso se deve à complexidade das cadeias de fornecimento e a outros fatores, como regulamentação dos preços do combustível dentro dos países, acrescentou.

O excesso da oferta mundial de petróleo, devido ao aumento da produção dos Estados Unidos e à redução do consumo devido ao crescimento reduzido de Europa e Ásia, foram as principais causas da tendência à baixa dos preços. A decisão da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), que fornece 40% da oferta mundial de petróleo, de manter seu nível de produção reduziu a possibilidade de uma alta dos preços no curto prazo.

Na região insular do Pacífico vivem 10 milhões de pessoas em 22 países e territórios que somam milhares de ilhas repartidas ao longo de 180 milhões de quilômetros quadrados de oceano. Segundo o Banco Mundial, mais de 20% da população da região não têm como pagar suas necessidades básicas, enquanto entre 30% e 50%, apenas, possuem emprego em Fiji, Micronésia, Kiribati, Ilhas Marshall, Nauru, Samoa, Tonga e Tuvalu.

O baixo preço do petróleo é de vital importância para melhorar a vida e o desenvolvimento de milhões de pessoas, já que a grande maioria vive em zonas rurais com pouco acesso aos serviços básicos e aos mercados de trabalho internacionais.

Muitos países se preparam para a transição a energias renováveis, mas a região ainda depende dos combustíveis fósseis, sobretudo para a energia e o transporte. A importação de combustível equivale a 10% do produto interno bruto e regional, e nas Ilhas Cook, Guam, Nauru, Niue e Tuvalu ainda se usa diesel para gerar energia.

As comunidades rurais nas Ilhas Salomão utilizam combustíveis fósseis para suas canoas motorizadas. Foto: Catherine Wilson/IPS

As comunidades rurais nas Ilhas Salomão utilizam combustíveis fósseis para suas canoas motorizadas. Foto: Catherine Wilson/IPS

O transporte do petróleo às pequenas ilhas do Pacífico, dispersas em grandes distâncias marítimas, implica complexas e caras cadeias de fornecimento. Dentro dos próprios países o transporte às zonas afastadas pode encarecer o preço final para o consumidor de 20% a 40%.

“Há apenas um mês o povo de Fiji começou a desfrutar dos benefícios reais da baixa do preço do petróleo, em particular nas bombas de gasolina, mas também para as necessidades básicas, como o querosene”, explicou Maureen Penjueli, coordenadora da organização independente Rede do Pacífico sobre Globalização. Desde 2014, o preço do diesel, usado nos geradores de energia, caiu de US$ 1,17 para US$ 0,82 o litro, em abril, em Fiji. Nesse período, o custo do querosene baixou de US$ 1,09 para US$ 0,62 por litro. “A maioria das pessoas depende do querosene como fonte de energia para cozinhar”, disse Penjueli.

A tendência é bem-vinda depois que os crescentes preços do petróleo em 2002-2008 e a crise financeira mundial exacerbaram a pressão fiscal, o que custou a muitos países da região cerca de 10% de sua renda nacional bruta. O aumento da inflação e dos déficits comerciais reduziu a capacidade dos governos para combater a pobreza e oferecer programas de desenvolvimento e serviços públicos.

A população sofreu altas em alimentos, eletricidade e transporte. Entre 2009 e 2010, os preços de alguns alimentos básicos subiram entre 50% e 100% em pelo menos seis países insulares do Pacífico. Segundo Penjueli, a redução do preço do combustível ainda não alterou o preço dos alimentos.

O Banco Mundial afirma que uma queda de 10% no preço mundial do petróleo provavelmente impulsione um crescimento econômico de 0,1% a 0,5% nos países importadores de petróleo.

Apesar de os preços baixarem entre 30% e 40% em 2014-2015, as previsões atuais de crescimento para a região seguem reduzidas. A previsão é de que o crescimento do PIB nas Ilhas Salomão, Fiji e Vanuatu este ano se mantenha em 3,5%, 2,5% e 3,2%, respectivamente. Os preços mundiais do petróleo continuarão baixos durante este ano e aumentarão marginalmente em 2016, segundo as previsões.

Dibyendu Maitim, professor da Escola de Economia da Universidade do Pacífico Sul, em Fiji, destacou a importância de os governos responderem às mudanças do preço. “Como e em qual medida poderão obter benefícios a partir da drástica queda no preço do petróleo depende da rapidez com que ajustarem sua meta de inflação e canalizarem o gasto público para a infraestrutura e outros programas de desenvolvimento”, afirmou.

Algumas das prioridades são investir mais em educação superior e capacitação e “incentivar o setor privado a participar com mais investimento. Isto teria um efeito de expansão no longo prazo, com aumento no emprego”, disse Maiti à IPS.

Além do mercado do petróleo, a redução da vulnerabilidade das ilhas do Pacífico diante das crises econômicas, junto com a redução da carga financeira que implica a importação de combustíveis fósseis, exige que os países se convertam à energia renovável gerada localmente.

Em 2012 o pequeno território polinésio de Tokelau liderou o caminho ao se converter em 100% a um sistema de energia renovável solar que fornece energia aos seus 1.411 habitantes. Foi uma medida fundamental para o desenvolvimento sustentável, já que o PIB de Tokelau chega a US$ 1,5 milhão, enquanto sua conta anual de importação de combustível atingia US$ 754 mil. Envolverde/IPS

Catherine Wilson

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