Linha telefônica de ajuda a refugiados

As crianças suportam o peso do conflito armado no Iraque. Foto: Departamento da Grã-Bretanha para o Desenvolvimento Internacional/CC-BY-2.0

As crianças suportam o peso do conflito armado no Iraque. Foto: Departamento da Grã-Bretanha para o Desenvolvimento Internacional/CC-BY-2.0

Por Kanya D’Almeida, da IPS – 

Nações Unidas, 27/8/2015 – Agências da Organização das Nações Unidas (ONU) lançaram, no dia 25, uma linha telefônica de ajuda aos mais de três milhões de refugiados no Iraque, para fornecer informação sobre serviços humanitários de emergência, como distribuição de alimentos, saúde e moradia.

O Iraque vive uma crise “sem precedentes” desde janeiro de 2014, com mais de 3,1 milhões de pessoas refugiadas devido à violência e aos enfrentamentos vinculados ao avanço territorial do grupo extremista Estado Islâmico e às operações de contra-insurgência do governo, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Os refugiados estão dispersos em mais de três mil locais por todo o país, e vários milhares de pessoas se encontram em zonas remotas de difícil acesso para os trabalhadores humanitários, afirma um comunicado divulgado no dia 24 deste mês pelo Acnur, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha). No total, 8,2 milhões de iraquianos, quase 25% da população de 33 milhões precisam de assistência humanitária.

Em conversa telefônica com a IPS desde a cidade iraquiana de Erbil, Kareem Elbayar, diretor de programa do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops), encarregado da linha telefônica de ajuda, explicou que o novo serviço busca oferecer informação que salve vidas nas operações de socorro realizadas pelas agências da ONU e por organizações humanitárias.

Ainda em fase-piloto, qualquer telefone celular iraquiano pode se comunicar com o centro de informação, cuja sede fica em Erbil, pelo número 6999. “Temos sete pessoas que trabalham em um dia normal de expediente, das 8h30 às 17h30, de domingo a quinta-feira. Falam árabe, inglês e as variedades sorani e badini do curdo”, afirmou Elbayar.

O número de chamadas que o centro de informação pode administrar em determinado momento depende da rede telefônica de cada usuário individual. Por exemplo, a Korek, principal empresa de telefonia móvel no norte do Iraque, colocou à disposição 20 linhas para essa finalidade. “Isso significa que 20 pessoas podem ligar ao mesmo tempo, mas a pessoa número 21 receberá sinal de ocupado”, explicou Elbayar. Mas outras companhias de telefonia podem oferecer apenas um punhado de linhas ao mesmo tempo.

De acordo com estatísticas de um informe de 2014 realizado pela rede de Comunicação com Comunidades Afetadas pelos Desastres (CDAC), Elbayar destacou que a penetração da telefonia móvel no país devastado pela guerra supera os 90%, o que significa que “quase todos os refugiados têm acesso a um telefone celular”.

Uma recomendação feita por esse informe lançou a ideia de uma linha de ajuda centralizada, possível graças às contribuições financeiras do Acnur, PMA e Ocha. Elbayar informou que o financiamento da fase-piloto, que chegou a US$ 750 mil, permitiu que o Unops aumentasse o pessoal e adquirisse equipamentos, de forma a garantir um ano de funcionamento básico.

O centro foi construído com “capacidade de expansão” e tem capacidade para abrigar 250 operadores por turno, mas será necessário um financiamento adicional para ampliar a iniciativa, detalhou Elbayar. A linha direta é apenas o primeiro passo, a parte mais difícil é divulgar a notícia de sua existência, acrescentou.

As agências de ajuda colocaram folhetos e cartazes nos acampamentos de refugiados, mas 90% destes vivem fora dos mesmos em comunidades que fazem o possível para proteger e manter essa população civil afetada pela guerra, segundo o último Plano de Resposta Humanitária para o Iraque, realizado pelo Ocha.

“Tanto o governo federal iraquiano como o governo regional do Curdistão ofereceram-se para fazer uma campanha por mensagens de texto para os proprietários de telefone celular em certas áreas, por isso esperamos enviar uma mensagem a todos os celulares no Iraque com informação sobre o centro de chamadas”, pontuou Elbayar.

O Plano de Resposta Humanitária para 2015 estima que cerca de 6,7 milhões de pessoas não têm acesso a serviços de saúde, e que 4,1 milhões dos 7,1 milhões de pessoas que atualmente não contam com serviços de água, saneamento e higiene, sofrem uma “necessidade extrema”.

As crianças são as mais afetadas, muitas delas feridas, maltratadas, traumatizadas ou perto de morrer de fome. Quase três milhões de crianças e adolescentes afetados pelo conflito não frequentam uma escola. Dos refugiados, 50% necessitam de abrigo com urgência e 700 mil sobrevivem em barracas de campanha improvisadas ou construções abandonadas.

Em junho, o Ocha informou que “grande parte do cinturão cerealista iraquiano está sob controle direto dos grupos armados. A infraestrutura foi destruída e a produção de cultivos diminuiu sensivelmente”. Assim, cerca de 4,4 milhões de pessoas precisam de ajuda alimentar de emergência. Muitas estão desnutridas e dezenas de milhares pulam pelo menos uma refeição por dia, enquanto outras passam o dia inteiro sem comer.

Resta saber se a linha de ajuda conseguirá mitigar no longo prazo a difícil situação dos refugiados, enquanto as agências humanitárias lidam com grande déficit de financiamento e a quantidade de pessoas necessitadas não dá sinais de diminuir. Envolverde/IPS

Kanya D'Almeida

Kanya D'Almeida is a Sri Lankan journalist, currently based in Washington D.C. Kanya joined IPS as a United Nations correspondent in October 2010, where she covered the Millennium Development Goals with a strong focus on gender and ecological justice in Asia, Africa and the Middle East and the problems of neocolonial development in the global South. As IPS's Washington, D.C. correspondent, she monitors the global impacts of the Bretton Woods institutions, United States economic and foreign policy in the global South, the actions of transnational corporations and both national and international ecological crises. Kanya earned her B.A. from Hampshire College in Amherst, Massachusetts, where she completed a double major in political science and fiction writing, and produced a book of essays and short stories on women and war in Sri Lanka. She is currently a member of Scientific Soul Sessions, in Harlem, New York.

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