Mudança climática na própria carne

A COP 21, organizada e presidida pela França, se moveu rapidamente sob pressão do governo anfitrião, com o objetivo de acordar um tratado climático universal, o chamado Acordo de Paris. Foto: Diego Arguedas Ortiz/IPS

A COP 21, organizada e presidida pela França, se moveu rapidamente sob pressão do governo anfitrião, com o objetivo de acordar um tratado climático universal, o chamado Acordo de Paris. Foto: Diego Arguedas Ortiz/IPS

Por Sohara Mehroze Shachi, Domoina Ratovozanany, Dizzane Billy, da IPS – 

Paris, França, 16/12/2015 – O vínculo entre mulheres e mudança climática é um assunto transversal que merece maior reconhecimento, pois é onipresente e afeta diferentes setores, desde a saúde e a agricultura, até o saneamento e a educação. Nos países em desenvolvimento, as mulheres são testemunhas da ligação entre aquecimento global e questões de gênero na própria carne. Frequentemente sua sobrevivência depende muito da terra e dos recursos hídricos, o que as deixa em situação vulnerável.

A mudança climática não é apenas um assunto ambiental, mas de justiça social, igualdade e direitos humanos, todos assuntos vinculados com questões de gênero. A perspectiva feminina deveria ser integrada totalmente ao Acordo de Paris, surgido da COP 21, especialmente o empoderamento das mulheres, além de prever uma resposta e outras questões de gênero, como a vulnerabilidade das mulheres rurais.

A 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC) aconteceu entre 30 de novembro e 12 deste mês na capital francesa. Nas etapas de preparação do rascunho, as questões de gênero foram tratadas como um elemento acessório que poderia ser retirado, e quase todas as partes as ignoraram e se equivocaram.

Ásia, Caribe e África são três das regiões mais vulneráveis à variabilidade climática e, embora sejam responsáveis por uma pequena parte do aquecimento global, as mulheres sofrem a pior parte de suas severas consequências.Milhões de pessoas na Ásia são extremamente vulneráveis ao fenômeno, especialmente as mulheres, devido aos papéis tradicionais de gênero. Em muitas áreas rurais sua mobilidade é bastante limitada, pois não se vê com bons olhos que trabalhem fora de casa.

Enquanto os homens das regiões afetadas pela variabilidade climática costumem emigrar para cidades ou outras regiões menos vulneráveis em busca de trabalho, as mulheres ficam para cuidar da casa e dos filhos comuns. Essa reclusão se traduz em dependência econômica e falta de acesso à informação, como alertas, o que contribui para sua enorme vulnerabilidade.

Nesse continente, as mulheres costumam cuidar de atividades mais sensíveis ao clima, como coletar água e preparar a refeição, o que eleva sua vulnerabilidade. Pesquisas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) concluíram que mulheres e meninas são as encarregadas de ir buscar água, e para isso têm que percorrer longas distâncias.

Com a crescente frequência e intensidade das inundações, é comum as mulheres terem que atravessar terrenos alagados em busca de água para beber e preparar os alimentos, o que as expõe a riscos, desde se afogar, passando por mordidas de cobras, até doenças da pele.

Na outra metade do mundo, as mulheres sofrem situações semelhantes. No Caribe, muitas famílias são principalmente matriarcais, e são elas as que mais necessidades têm de medidas de adaptação e mitigação em relação ao aquecimento global.

Também são responsáveis pelas tarefas de cuidar das pessoas da família e sofrem o impacto da insegurança alimentar e escassez de água. As mulheres rurais são particularmente vulneráveis, em especial as pequenas produtoras, as agricultoras marginalizadas e as trabalhadoras rurais.

Independente de a escassez de água e alimentos ser causada pelo aumento do número e da intensidade dos furacões ou da seca, as possibilidades de levar adiante uma vida decente não são altas nem melhoram. Compreender essa situação é importante para o bom desenho e a execução de estratégias de adaptação.

“A agricultura necessita de maior visibilidade nas negociações”, opinou a presidente da Rede de Produtoras Rurais da Jamaica, Mildred Crawford. “As mulheres têm um papel na cadeia alimentar e são necessários fundos para ajudar os pequenos agricultores a mitigar a mudança climática e se adaptar. Os grupos de mulheres já estão organizados, por isso os incentivos podem servir para controlar o desperdício de carvão em suas comunidades”, acrescentou.O Caribe atravessa sua pior seca dos últimos cinco anos.

Segundo Mary Robinson, ex-primeira-ministra da Irlanda, que também foi alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o rascunho do Acordo de Paris deveria ter se concentrado em questões de gênero para garantir às mulheres o acesso a fundos parao clima, tecnologias renováveis e capacidade de adaptação.

Na verdade, as campanhas climáticas não devem se concentrar apenas na redução de emissões, no comércio de carbono e na transferência de tecnologia, mas devem procurar ir mais longe. Além disso, também devem considerar que a maior parte dos agricultores nos países em desenvolvimento é de mulheres, e a adaptação as envolve especialmente. Os assuntos de gênero são transversais, não são usados por conveniência.

As mulheres dos países em desenvolvimento devem estar empoderadas para desempenhar papéis mais significativos na luta contra a mudança climática, pois têm muito a perder.

Kalyani Raj integrante responsável da Conferência de Mulheres Toda Índia, argumentou que é crucial dar voz à população feminina mais vulnerável e incluí-la no planejamento de políticas. “Muitas mulheres desenvolveram enfoques de adaptação em escala muito pequena, conhecimentos tradicionais e soluções das comunidades indígenas que não se amplificam. As políticas devem se concentrar em ampliar isso, em lugar de propor medidas uniformes para adaptação à mudança climática”, acrescentou.

Na África, o impacto da mudança climática sobre as questões de gênero se relaciona principalmente com a agricultura, a segurança alimentar e os desastres naturais. Segundo o Informe Econômico de 2011 do Banco de Desenvolvimento Africano (BDA), as mulheres representam 40% ou mais dos trabalhadores do setor agrícola em 46 dos 53 países do continente. Esse setor da economia é considerado vulnerável em geral, porque não inclui empregos formais com contratos e renda seguros.

“Os pobres são especialmente vulneráveis aos efeitos da mudança climática, e a maioria dos 1,5 bilhão de pessoas que vivem com um dólar ou menos por dia é de mulheres”, segundo o Fundo de População das Nações Unidas. Além disso, em um estudo com 141 países, se concluiu que, entre 1981 e 2002, o indicativo de gênero nas pessoas falecidas em desastres naturais esteve diretamente vinculado aos direitos econômicos e sociais das mulheres. Nesses casos, nas sociedades que são menos equitativas, morrem mais mulheres do que homens.

A reclamação das mulheres rurais é uma realidade que devemos enfrentar. Mas devemos reconhecer que não são apenas vítimas, mas poderosos agentes de mudança. A população feminina deve estar incluída nos processos de decisão, para que contribuam com sua experiência e seus conhecimentos únicos, pois toda intervenção vinculada à mudança climática que exclua sua perspectiva, bem como qualquer política que omita as questões de gênero, está destinada ao fracasso. Envolverde/IPS

Sohara Mehroze Shachi

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