Leilão humanitário com refugiados sírios

Menina síria diante de sua barraca de campanha, em Faida 3, um assentamento informal de barracas para refugiados sírios no Vale de Beka, no Líbano. Foto: AlessioRomenz/Unicef

Menina síria diante de sua barraca de campanha, em Faida 3, um assentamento informal de barracas para refugiados sírios no Vale de Beka, no Líbano. Foto: AlessioRomenz/Unicef

Por BaherKamal, da IPS – 

Madri, Espanha, 14/1/2016 – Há alguns meses, um incomum “leilão humanitário” aconteceu nos escritórios da Comissão Europeia, em Bruxelas, após a divulgaçãoda imagem do cadáver de um menino sírio de três anos que o mar lançou nas costas turcas. O “leilão” era para decidir o número de refugiados sírios destinado a cada país da União Europeia (UE). A Alemanha ficou com o maior lote.

Mas, antes da decisão final, alguns dos países europeus menos ricos se apressaram em se mostrar reticentes. “Estamos procurando sair da crise. Temos uma porcentagem muito alta de desempregados e um enorme déficit público…”, tentavam explicar as autoridades espanholas por exemplo, com fórmulas diplomáticas.

A decisão da UE também desatou uma onda de controvérsias políticas. Alguns líderes conservadores, como o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, argumentaram contra esse “tsunami” de muçulmanos ameaçando atacar “nossa civilização cristã”. Outros, como o multimilionário norte-americano e pré-candidato presidencial republicano, Donald Trump, se apressaram em reclamar a proibição de entrada em seu país de todos os muçulmanos.

Por sua vez, os especialistas em mercado de trabalho argumentariam que o chamado processo de “seleção natural” resolveria o problema, isto é, os mercados de trabalho contratariam aqueles refugiados qualificados como mão de obra não custosa, enquanto os não qualificados acabariam sendo imigrantes ilegais sem documentos e, portanto, fáceis de serem repatriados. Mas esse argumento não foi suficiente para acalmar o pânico que vários políticos e muitos meios de informação introduziram entre cidadãos europeus.

Outro argumento esgrimido por esses especialistas é o fato de que a população europeia continua envelhecendo sem a substituição demográfica necessária, o que se traduz em mais receptores de pensões e menos contribuintes para repor o orçamento para aposentadorias. Tudo isso, naturalmente, à margem das convicções humanitárias.

Quando a UE, encabeçada pela Alemanha, decidiu oferecer ajuda econômica aos países de “acolhida” menos ricos (seis mil euros por refugiado), os mais recalcitrantes aceitaram o acordo. Assim, a Espanha, que concordou em receber entre 14 mil e 16 mil refugiados, foi animada há algumas semanas com a chegada dos primeiros 14.

Enquanto isso, os meios de comunicação difundiam dezenas de imagens dramáticas e relatos trágicos sobre as quilométricas barreiras de arame farpado e barreiras construídas por alguns Estados da Europa do Leste; a chamada “selva de Calais” na França; as centenas de refugiados presos nas fronteiras; a chegada do inverno; ou a morte diária de dezenas de seres humanos nas costas gregas.

Depois vieram a matança brutal, desumana, execrável de civis franceses, no dia 13 de novembro, por parte de terroristas jihadistas, os ataques imediatamente anteriores contra a população desarmada no Líbano, bem como os precedentes na Tunísia e, mais tarde, os da véspera de Ano Novo na cidade alemã de Colônia, para não falar do assassinato diário de inocentes no Egito, Iraque, Síria e Turquia, entre outros países.

Tudo isso criou problemas internos para vários governantes europeus, como a chanceler alemã, Angela Merkel, além de alimentar ainda mais o pânico induzido entre os cidadãos europeus. Dessa forma, as convicções humanitárias europeias foram aos poucos se desfazendo.

De repente, encontrou-se uma “solução”. A UE pediu à Turquia para manter os refugiados sírios em seu território ou em suas fronteiras, impedindo sua passagem para a Europa, em troca do pagamento de três bilhões de euros e a promessa de descongelar o bloqueado processo de negociações com Ancara para sua possível integração ao clube europeu.Em outras palavras, transformar a Turquia em um “armazém” de refugiados sírios, até que…

Entretanto, alguns fatos:

– o número total de refugiados sírios supera os 4,5 milhões (segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados – Acnur). Esse número não inclui os cerca de 7,5 milhões deslocados em seu próprio país. O total representaria mais de 50% da população síria de 23 milhões de habitantes;

– o número de refugiados sírios “leiloados” na Europa representaria apenas um quinto desses 4,5 milhões errantes em solo europeu;

– o número de refugiados sírios que efetivamente poderiam permanecer na Europa cairia para menos de 15% desses 4,5 milhões, segundo estimativas;

– os restantes, ou 85% dos 4,5 milhões de refugiados sírios, se distribuem atualmente no Oriente Médio, em países árabes pobres e/ou instáveis, como o Líbano (com mais de um milhão de refugiados, ou um quinto de sua população total), o turbulento Iraque, e a Jordânia, onde o acampamento Za’atri representa a quarta “cidade” mais povoada do país;

– a maior parte da ajuda e da assistência humanitárias procede dos deficitários recursos da Organização das Nações Unidas (ONU) ou de organizações da sociedade civil;

– os próprios europeus também foram refugiados durante e depois da Segunda Guerra Mundial, com números que superam os de refugiados sírios;

– o trabalho humanitário do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) começou no final da Segunda Guerra Mundial e, em meados dos anos 1950, milhões de crianças europeias recebiam ajuda humanitária.

O que fazer agora com estes 4,5 milhões de refugiados sírios?

Após quase cinco anos de guerra que já custou a vida de mais de 300 mil pessoas, de intensos bombardeios a cargo de Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia, da experimentação dos últimos modelos de drones (aviões não tripulados) sobre o terreno, e de tragédias humanas para mais da metade da população do país, o Conselho de Segurança da ONU de repente reagiu.

Assim, as cinco maiores potências militares do mundo (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China) adotaram, no dia 18 de dezembro, a Resolução do Conselho de Segurança 2254 (2015) estabelecendo um “mapa do caminho” para o processo de paz na Síria, e um calendário de conversações facilitadas pela ONU entre o regime de Bashar al Assad e os grupos da “oposição”.

Tudo se moveu muito rapidamente, tanto que o enviado especial das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, já fixou o dia 25 deste mês como data limite para iniciar em Genebra as negociações entre as partes. O “mapa do caminho” fala de muitas coisas, inclusive de eleições “livres” no prazo de 18 meses. Entretanto, não faz nenhuma menção explícita ao destino dos 12 milhões de refugiados em seu próprio país ou nas terras e mares do mundo, nenhum deles sabendo o que fazer ou para onde ir. Envolverde/IPS

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Leilão humanitário com refugiados sírios

Menina síria diante de sua barraca de campanha, em Faida 3, um assentamento informal de barracas para refugiados sírios no Vale de Beka, no Líbano. Foto: AlessioRomenz/Unicef

Menina síria diante de sua barraca de campanha, em Faida 3, um assentamento informal de barracas para refugiados sírios no Vale de Beka, no Líbano. Foto: AlessioRomenz/Unicef

Por BaherKamal, da IPS – 

Madri, Espanha, 14/1/2016 – Há alguns meses, um incomum “leilão humanitário” aconteceu nos escritórios da Comissão Europeia, em Bruxelas, após a divulgaçãoda imagem do cadáver de um menino sírio de três anos que o mar lançou nas costas turcas. O “leilão” era para decidir o número de refugiados sírios destinado a cada país da União Europeia (UE). A Alemanha ficou com o maior lote.

Mas, antes da decisão final, alguns dos países europeus menos ricos se apressaram em se mostrar reticentes. “Estamos procurando sair da crise. Temos uma porcentagem muito alta de desempregados e um enorme déficit público…”, tentavam explicar as autoridades espanholas por exemplo, com fórmulas diplomáticas.

A decisão da UE também desatou uma onda de controvérsias políticas. Alguns líderes conservadores, como o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, argumentaram contra esse “tsunami” de muçulmanos ameaçando atacar “nossa civilização cristã”. Outros, como o multimilionário norte-americano e pré-candidato presidencial republicano, Donald Trump, se apressaram em reclamar a proibição de entrada em seu país de todos os muçulmanos.

Por sua vez, os especialistas em mercado de trabalho argumentariam que o chamado processo de “seleção natural” resolveria o problema, isto é, os mercados de trabalho contratariam aqueles refugiados qualificados como mão de obra não custosa, enquanto os não qualificados acabariam sendo imigrantes ilegais sem documentos e, portanto, fáceis de serem repatriados. Mas esse argumento não foi suficiente para acalmar o pânico que vários políticos e muitos meios de informação introduziram entre cidadãos europeus.

Outro argumento esgrimido por esses especialistas é o fato de que a população europeia continua envelhecendo sem a substituição demográfica necessária, o que se traduz em mais receptores de pensões e menos contribuintes para repor o orçamento para aposentadorias. Tudo isso, naturalmente, à margem das convicções humanitárias.

Quando a UE, encabeçada pela Alemanha, decidiu oferecer ajuda econômica aos países de “acolhida” menos ricos (seis mil euros por refugiado), os mais recalcitrantes aceitaram o acordo. Assim, a Espanha, que concordou em receber entre 14 mil e 16 mil refugiados, foi animada há algumas semanas com a chegada dos primeiros 14.

Enquanto isso, os meios de comunicação difundiam dezenas de imagens dramáticas e relatos trágicos sobre as quilométricas barreiras de arame farpado e barreiras construídas por alguns Estados da Europa do Leste; a chamada “selva de Calais” na França; as centenas de refugiados presos nas fronteiras; a chegada do inverno; ou a morte diária de dezenas de seres humanos nas costas gregas.

Depois vieram a matança brutal, desumana, execrável de civis franceses, no dia 13 de novembro, por parte de terroristas jihadistas, os ataques imediatamente anteriores contra a população desarmada no Líbano, bem como os precedentes na Tunísia e, mais tarde, os da véspera de Ano Novo na cidade alemã de Colônia, para não falar do assassinato diário de inocentes no Egito, Iraque, Síria e Turquia, entre outros países.

Tudo isso criou problemas internos para vários governantes europeus, como a chanceler alemã, Angela Merkel, além de alimentar ainda mais o pânico induzido entre os cidadãos europeus. Dessa forma, as convicções humanitárias europeias foram aos poucos se desfazendo.

De repente, encontrou-se uma “solução”. A UE pediu à Turquia para manter os refugiados sírios em seu território ou em suas fronteiras, impedindo sua passagem para a Europa, em troca do pagamento de três bilhões de euros e a promessa de descongelar o bloqueado processo de negociações com Ancara para sua possível integração ao clube europeu.Em outras palavras, transformar a Turquia em um “armazém” de refugiados sírios, até que…

Entretanto, alguns fatos:

– o número total de refugiados sírios supera os 4,5 milhões (segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados – Acnur). Esse número não inclui os cerca de 7,5 milhões deslocados em seu próprio país. O total representaria mais de 50% da população síria de 23 milhões de habitantes;

– o número de refugiados sírios “leiloados” na Europa representaria apenas um quinto desses 4,5 milhões errantes em solo europeu;

– o número de refugiados sírios que efetivamente poderiam permanecer na Europa cairia para menos de 15% desses 4,5 milhões, segundo estimativas;

– os restantes, ou 85% dos 4,5 milhões de refugiados sírios, se distribuem atualmente no Oriente Médio, em países árabes pobres e/ou instáveis, como o Líbano (com mais de um milhão de refugiados, ou um quinto de sua população total), o turbulento Iraque, e a Jordânia, onde o acampamento Za’atri representa a quarta “cidade” mais povoada do país;

– a maior parte da ajuda e da assistência humanitárias procede dos deficitários recursos da Organização das Nações Unidas (ONU) ou de organizações da sociedade civil;

– os próprios europeus também foram refugiados durante e depois da Segunda Guerra Mundial, com números que superam os de refugiados sírios;

– o trabalho humanitário do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) começou no final da Segunda Guerra Mundial e, em meados dos anos 1950, milhões de crianças europeias recebiam ajuda humanitária.

O que fazer agora com estes 4,5 milhões de refugiados sírios?

Após quase cinco anos de guerra que já custou a vida de mais de 300 mil pessoas, de intensos bombardeios a cargo de Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia, da experimentação dos últimos modelos de drones (aviões não tripulados) sobre o terreno, e de tragédias humanas para mais da metade da população do país, o Conselho de Segurança da ONU de repente reagiu.

Assim, as cinco maiores potências militares do mundo (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China) adotaram, no dia 18 de dezembro, a Resolução do Conselho de Segurança 2254 (2015) estabelecendo um “mapa do caminho” para o processo de paz na Síria, e um calendário de conversações facilitadas pela ONU entre o regime de Bashar al Assad e os grupos da “oposição”.

Tudo se moveu muito rapidamente, tanto que o enviado especial das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, já fixou o dia 25 deste mês como data limite para iniciar em Genebra as negociações entre as partes. O “mapa do caminho” fala de muitas coisas, inclusive de eleições “livres” no prazo de 18 meses. Entretanto, não faz nenhuma menção explícita ao destino dos 12 milhões de refugiados em seu próprio país ou nas terras e mares do mundo, nenhum deles sabendo o que fazer ou para onde ir. Envolverde/IPS

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