Para onde vão os fundos para o ebola?

 Dois trabalhadores da saúde colocam os pés em um recipiente de água com hipoclorito de sódio, à saída de uma barraca de campanha em isolamento durante uma simulação de atendimento a pacientes com ebola, no hospital de Biankouman, na Costa do Marfim, em agosto de 2014. Foto: Marc-André Boisvert/IPS


Dois trabalhadores da saúde colocam os pés em um recipiente de água com hipoclorito de sódio, à saída de uma barraca de campanha em isolamento durante uma simulação de atendimento a pacientes com ebola, no hospital de Biankouman, na Costa do Marfim, em agosto de 2014. Foto: Marc-André Boisvert/IPS

Por Thalif Deen, da IPS – 

Nações Unidas, 3/2/2016 – Quando a epidemia de ebola de 2014 começou na Guiné, Libéria e Serra Leoa, a comunidade internacional respondeu com promessas de mais de US$ 5,8 bilhões para combater a enfermidade que matou mais de 11.300 pessoas nesses países da África ocidental. Mas, seis meses depois da Conferência Internacional sobre a Recuperação do Ebola, organizada pela Organização das Nações Unidas, aproximadamente US$ 1,9 bilhão dos fundos prometidos ainda não foram entregues e existe “escassa informação” disponível sobre os US$ 3,9 bilhões restantes, segundo um estudo da Oxfam Internacional.

Os fundos de recuperação prometidos “são quase impossíveis de se rastrear”, de acordo com essa organização humanitária com sede na Grã-Bretanha.“Essa falta de transparência não se deve a uma única causa. É um desafio sistêmico que é responsabilidade coletiva de todos – doadores, governos e organizações executantes – melhorar”, apontou à IPS David Saldivar, da Oxfam Estados Unidos, ao ser perguntado se a falta de transparência se deve à corrupção.

A Oxfam considera que se deveria dar mais fundos diretamente aos governos e às organizações locais, que entendem melhor o contexto e as necessidades do lugar e são mais responsáveis diante das comunidades que atendem. “É importante que os países que fizeram um trabalho tão excelente com a recente crise do ebola recebam os fundos que lhes foram prometidos”, destacou à IPS o porta-voz da ONU, Farhan Haq.

O foco de ebola não foi apenas um revés para as economias dos países afetados, mas também devastou os sistemas de saúde, por si só já inadequados, e arruinou os meios de vida de muitas pessoas, afirmou a Oxfam.Entretanto, a epidemia de ebola ainda não terminou. A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou, no final de janeiro, que 150 pessoas foram expostas ao risco da doença em Serra Leoa.

“Esse não é o fim do ebola na África ocidental nem no mundo”, segundo a Oxfam. “Demorou quase dois anos, mais de 11.300 mortes, numerosos recursos, assistência técnica e milhares de milhões de dólares de todo o mundo para lidar com a epidemia na África ocidental, concretamente na Libéria, Serra Leoa e Guiné”, pontuou Saldivar.

A Oxfam pediu aos chefes de Estado e de governo africanos – que se reuniram na Etiópia para a cúpula da União Africana (UA) entre 21 e 31 de janeiro – que dediquem sua atenção ao direito à saúde. Segundo Saldivar, “a lentidão na identificação e resposta dos serviços de saúde pública diante dos recentes casos em Serra Leoa e Libéria demonstram claramente que ainda não são capazes de responder com eficácia ao ebola e a outras doenças altamente contagiosas”.

Em abril de 2001, os governantes da UA se comprometeram a fixar uma meta para destinar pelo menos 15% de seu orçamento anual para melhorar o setor da saúde. Em 2013, bem antes do foco de ebola, apenas seis Estados membros da UA haviam cumprido esse compromisso. A média para a África ocidental foi de 8% e em Serra Leoa chegou a apenas 6,22%, informou a Oxfam.

“Apesar de a Oxfam e outras organizações responderem mediante a mobilização de voluntários comunitários, isso não basta. Se vamos ter sucesso, as comunidades devem ser parte do processo e do planejamento, desde o princípio”, indicou Aboubacry Tall, diretor regional da Oxfam para a África ocidental.

“Depois do recente foco de ebola na Libéria, fiquei horrorizado ao ver os mesmos padrões de desconfiança pairando no ar. Os boatos eram inúmeros, alguns não acreditavam que fosse ebola e outros acreditavam que tinha sido reintroduzido propositalmente. Esse tipo de boato é muito perigoso”, alertou Tall.

Para evitar que a mesma tragédia se repita, a Oxfam exortou os governos de Guiné, Libéria e Serra Leoa a facultar às comunidades locais assumirem um papel de liderança em sua própria atenção sanitária, garantindo que a população participe plenamente das decisões sobre a destinação dos recursos e sua utilização.A experiência da Oxfam durante a resposta ao ebola demonstrou que a liderança comunitária e a confiança nos sistemas de saúde locais são absolutamente vitais e devem ser consideradas como uma necessidade médica, acrescentou.

Perguntado sobre se a redução nos fundos se deve à recessão econômica mundial e à queda dos preços do petróleo, Saldivar respondeu que o sistema humanitário mundial deve lidar com um número sem precedentes de crises simultâneas, o que faz com que seja ainda mais importante que os países que estão se recuperando de problemas como o foco de ebola tenham as ferramentas e o apoio que necessitam, incluída a informação para planejar e administrar a recuperação.

Para Saldivar, “o maior problema é com o acompanhamento dos fundos de recuperação e a falta de um sistema único para a apresentação de relatórios com informação clara e atualizada de todos os doadores”. Os doadores reportam a informação de diferentes maneiras, por isso os atores locais têm dificuldade para rastrear os fundos.

Mais de US$ 1 bilhão em fundos prometidos pelos principais doadores estão à disposição dos países na medida em que os governos determinem suas necessidades de recuperação mais graves.“É razoável que, a apenas seis meses da conferência da ONU, não se tenha gasto todos os fundos prometidos. Mas a questão mais importante é que os atores locais merecem ter informação atualizada sobre a situação para que possam vigiar e ter voz sobre como são gastos os recursos”, ressaltou Saldivar. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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