Obama em Cuba, os motivos da visita

Obama pede durante assembleia na ONU, que Congresso ponha fim ao embargo contra Cuba. Foto: Loey Felipe/ ONU

Obama pede durante assembleia na ONU, que Congresso ponha fim ao embargo contra Cuba. Foto: Loey Felipe/ ONU

Por Joaquín Roy*

Miami, Estados Unidos, 11/3/2016 – A esta altura do processo iniciado em dezembro de 2014, com o surpreendente anúncio da abertura das relações entre Estados Unidos e Cuba, já quase nada deve merecer o adjetivo de notícia espetacular.

O detalhe que a decisão entre Washington e Havana converteu em notícia, segundo o costume tradicional (um homem morder um cachorro), é que o plano de sentara para falar implicava que Cuba deixava de exigir a condição prévia do levantamento do embargo. Por parte dos Estados Unidos, aceitava-se também que Cuba não tomava nenhuma decisão de modificar especialmente seu próprio sistema político.

Desde então, cada uma das partes cumpriu um roteiro básico que algum dia levaria a uma abertura total. Só o que devemos perguntar é o que ganha o presidente norte-americano, Barack Obama, com sua visita a Cuba nos dias 21 e 22 deste mês, uma decisão não isenta de riscos, e quais podem ser as motivações para acelerar o calendário.

A chave está tanto no próximo calendário cubano, como no norte-americano.

No contexto cubano, o desenvolvimento da conjuntura latino-americana, tanto no plano político quanto no econômico, não recomenda prolongar a inércia e esperar que o ambiente melhore enquanto se esgota o prazo para Raúl Castro permanecer no governo (embora isso não signifique mudança de regime).

Estão ocorrendo algumas mudanças substanciais em alguns cenários da América Latina que terão um efeito inevitável em Havana.

Destaca-se a instabilidade da Venezuela, unida à mudança de governo na Argentina, que pode desencadear uma modificação das alianças de Cuba. Embora seja cedo para vislumbrar uma notável reconfiguração das alianças, não se descarta uma progressiva queda do populismo inclinado à esquerda e um regresso da preponderância da moderação e do neoliberalismo.

Portanto, equilibrar a consistência da implantação de Cuba na América Latina com uma boa relação com Washington é uma prioridade. Obama vem ao resgate.

O presidente norte-americano tem a vantagem de que a antes arriscada aposta por Cuba não afeta seu presente ou futuro político. Já não é candidato à Presidência.

Além disso, o tema de Cuba já não tem o peso que teve há anos no contexto eleitoral do Estado da Flórida, cujo impacto no cômputo dos votos já não dependeria da questão cubana. A influência dos setores que se opõem à normalização e ao final do embargo foi corroída com o passar do tempo e pelas circunstâncias.

No resto do território norte-americano,Cuba não existe como “problema”. Esse aspecto está ficando evidente na campanha das primárias dos candidatos republicanos e democratas, em que nem mesmo os que têm uma origem cubana (Ted Cruz e Marco Rubio) podem explorar essa vantagem, antes valiosa.

E mais: a reclamação pelo fim dos obstáculos de comércio se esgrime como benéfico para as economias de numerosos Estados com produtos que Cuba necessita e deseja adquirir.

Regressando ao cenário cubano-latino-americano, a modificação das tensões político-sociais resulta em benefício da diminuição das pressões em outras regiões do planeta.

Com o desaparecimento de Cuba como uma fonte de infiltração em diversos cenários (África, Caribe, América do Sul), Havana inclusive presume colaborar em processos de intermediação em conflitos domésticos (Colômbia). Colabora em funções de controle do narcotráfico (embora se suspeite que exista implicação individual). Garante a segurança das vias de acesso ao Canal do Panamá e deve encaixar a teimosia norte-americana em se manter em Guantânamo.

O único desafio e risco consequente de Cuba para os Estados Unidos é sua própria instabilidade, devido a uma deterioração da economia que afete o tecido político e provoque enfrentamentos internos, que (no momento) somente suas próprias forças armadas e agências de segurança podem minimamente garantir.

As agências de segurança de Washington e do Pentágono (Departamento de Defesa) sabem que os Estados Unidos já estão suficientemente ocupados em prestar maior atenção a cenários mais explosivos em outras zonas do planeta (Oriente Médio, Ásia). Portanto, para a Casa Branca, seja quem for seu ocupante, é prioritário desfrutar de uma certa estabilidade ao sul de Cayo Hueso. O presidente cubano Raúl Castro toma nota.

Nesta lógica se encaixa uma série de operações que estão minando a vigência do embargo. Destaque para o aumento espetacular de viagens para Cuba, tanto de norte-americanos que pertencem às categorias autorizadas (estudantes, organizações religiosas, ajudas diversas) como de milhares de cubanos de origem que curiosamente têm o privilégio de visitas familiares.

Também deve serconsiderado o impacto das chegadas com vistos, para além do mínimo anual de 20 mil que Clinton aceitou para frear os balseiros, em 1994. Além disso, a estas chegadas agora se une o sistemático gota a gota de imigrantes que entram em território norte-americano através de terceiros países, utilizando o corredor centro-americano.

Todo este complexo panorama se insere no cenário da viagem de Obama a Cuba, e que o próprio governo tem muito presente. Será parte da herança da transição, qualquer que seja seu perfil. Envolverde/IPS

*Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).

Joaquín Roy

Joaquin Roy is "Jean Monnet" professor and Director of the European Union Centre of the University of Miami.

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