Sem harmonia entre muçulmanos e europeus

Por Rose Delaney, da IPS – 

 

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O Centro de Genebra organizou a conferência Muçulmanos na Europa: O Caminho Para a Harmonia Social, no dia 19 de setembro de 2016. Foto: Cortesia

 

Roma, Itália, 22/9/2016 – Há cerca de 20 milhões de muçulmanos na Europa ocidental e, no entanto, não é fácil conseguir uma convivência harmoniosa com os cidadãos europeus. E, para grande frustração de organizações humanitárias e ativistas que lutam contra o racismo, persistem a retórica da exclusão e os preconceitos.Desde o começo deste século, os muçulmanos de todo o mundo são alvo de forte discriminação e assédio, avivados após os atentados de 2001 em Nova York e Washington, que rapidamente propagaram sentimentos anti-islâmicos nos Estados Unidos.

O terror que infundem os muçulmanos, considerados responsáveis pelo “terrorismo brutal”, derivou na propagação do racismo religioso na Europa. Segundo Zidane Meriboute, autor do livro Muslims in Europe: The Road to Social Harmony(Muçulmanos na Europa: O Caminho Para a Harmonia Social), antes daqueles atentados havia uma preocupação relativamente menos agressiva pelas minorias na Europa. Mas, atualmente a animosidade contra a comunidade muçulmana aumenta a passos de gigante.

O fenômeno da islamofobia pode ser relacionado com o que Edward Said chama de “orientalismo”, em que os árabes e outras comunidades islâmicas foram tradicionalmente considerados pelo Ocidente como os “outros”. Em outras palavras, o que Zidane descreve como “bodes expiatórios dos males da sociedade ocidental”. Isso também remonta ao século 19, quando Arthur Gobineau se referiu à antiga “repulsão recíproca” entre muçulmanos e europeus.

Atualmente, se vê nessas doutrinas racistas e “arcaicas” ressurgir e se reinstalar em forma de racismo sustentado contra árabes e muçulmanos, o que pode se caracterizar, segundo Zidane, como um “discurso europeu contemporâneo e fóbico”.

Na França, ainda prevalece o pensamento do político e escritor do século 20, Charles Maurras, principal ideólogo da Action Française, cujo principal objetivo foi restaurar a nação francesa mediante uma forte monarquia católica. Sua retórica xenófoba arremeteu contra judeus e estrangeiros da região do Mar Mediterrâneo, entre outras minorias. Além disso, seu pensamento foi uma grande influência para os atuais movimentos de extrema direita, inclusive o partido Frente Nacional.

O crescimento dos movimentos de extrema direita na França é particularmente perigoso para a comunidade islâmica, de mais de quatro milhões de pessoas. Estas se tornam alvo desses partidos políticos e sofrem discriminações pelos vínculos que, se presume, têm com grupos extremistas devido, em parte, à manipulação de alguns meios de comunicação e ao medo que se espalha.

Os preconceitos contra os muçulmanos, acentuados por uma série de atentados terroristas, se tornaram evidentes em agosto, quando o Conselho de Estado da França pretendeu proibir o uso da burca. Embora a medida tenha sido suspensa, Zidane acredita que a mentalidade, que criou um entorno propício para esse tipo de medida extrema, revela uma profunda divisão social entre muçulmanos e ocidentais.

Segundo a pesquisa de Zidane, há mais de 1,5 milhão de muçulmanos na Itália. Mas, e apesar de ser uma sociedade principalmente secular, tanto ela como o Estado seguem muito vinculados ao catolicismo, e até agora não foi feito um reconhecimento do Islã. Além disso, há vários partidos de extrema direita, abertamente contrários a essa religião.

Tanto na França como na Itália, o racismo está instalado e o discurso fóbico dos partidos de extrema direita avivam as atitudes discriminatórias contra os muçulmanos. Na França, por exemplo, foram registradas 756 agressões racistas em 2014, além de um aumento da violência policial contra os muçulmanos nos dois países.

Mesmo na Alemanha, que Zidane descreve como um “modelo de tolerância”, há uma agitação de movimentos de extrema direita, que vão contra a maioria. A Grã-Bretanha, onde residem três milhões de muçulmanos, é o país europeu onde gozam de melhor proteção legal e policial. Porém, há um aumento da islamofobia propiciada por movimentos direitistas como o Partido Nacional Britânico.

Em toda a Europa os muçulmanos continuam sendo vítimas de preconceitos étnicos, violência e discriminação. Nesse contexto, o Centro de Genebra para o Avanço dos Direitos Humanos e do Diálogo Global organizou, no dia 19, a conferência Muçulmanos na Europa: O Caminho Para a Harmonia Social, a fim de promover a proibição legal do racismo, da xenofobia e da intolerância religiosa contra os que professam o Islã.

O Centro defende a proibição de toda incitação à violência e ao ódio religioso, bem como o reconhecimento de que a islamofobia deve ser objeto de sanções especiais no marco do direito internacional. Na abertura da conferência, o presidente do Centro, Hanif Al Qassim, destacou que era uma oportunidade para expressar a solidariedade com todas as vítimas do terrorismo cego, que atinge muçulmanos e ocidentais por igual.

Al Qassim também destacou que todas as religiões do mundo fomentam a paz e a harmonia e que é uma vergonha que se distorça sua mensagem para instigar conflitos.As comunidades muçulmanas ficam presas entre a bigorna do perigo iminente dos grupos terroristas eo martelo da crescente islamofobia, e o surgimento do populismo xenófobo em alguns países europeus.

A conferência ofereceu uma oportunidade para discutir alternativas,em busca da harmonia social na Europa e, ao mesmo tempo, do cumprimento do objetivo do Centro, de promover o diálogo inter-religioso e intercultural, concluiu Al Qassim.

Segundo o argelino Idriss Jazairy, ex-secretário-geral do Centro, “a harmonia social começa na escola”. Ensinar a meninos e meninas seus benefícios é o eixo da Ilustração europeia, destacou, citando a máxima do filósofo francês Voltaire: “não compartilho sua opinião, mas daria minha vida para defender seu direito de expressá-la”, no contexto da crescente islamofobia.

Assim, as futuras gerações praticarão a ideia de que, apesar das diferenças religiosas ou étnicas, toda pessoa tem direito de viver em um mundo globalizado, livre do atraso que o racismo e os preconceitos implicam. Envolverde/IPS

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Rose Delaney

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