Mudança climática prejudica agricultores

A falta de chuvas deixa o solo seco e impróprio para a agricultura. Foto: Mauricio Ramos/IPS

A falta de chuvas deixa o solo seco e impróprio para a agricultura. Foto: Mauricio Ramos/IPS

Por Lyndal Rowlands, da IPS – 

Nações Unidas, 21/10/2016 – Os agricultores já sofrem as consequências da mudança climática, mas também podem ajudar a combatê-la, destaca um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). “Todos os produtores devem adaptar-se à mudança climática e contribuir para mitigar as emissões contaminantes liberadas pela agricultura”, disse à IPS Rob Vos, diretor de Economia do Desenvolvimento Agrícola da FAO.

“A boa notícia é que muitas técnicas empregadas na adaptação (ao aquecimento global) também contribuem para reduzir emissões e vice-versa”, acrescentou Vos. O informe Estado da Alimentação e da Agricultura 2016 concentra-se na relação entre mudança climática, agricultura e segurança alimentar. O setor agrícola, incluindo silvicultura, pesca e produção pecuária, responde pela liberação de um quinto das emissões de gases contaminantes na atmosfera.

Uma das consequências mais graves do fenômeno é o desmatamento, que inclui as terras usadas para cobrir a crescente demanda por carne e seus derivados. A agricultura contribui para a mudança climática, mas os 500 milhões de pequenos agricultores, que costumam produzir apenas alimento suficiente para suas famílias, estão entre as pessoas mais afetadas pelo aquecimento global.

O clima, e principalmente as chuvas, está cada vez “menos previsível. Isso afeta gravemente os produtores, que não sabem o que esperar”, destacou Vos. Por exemplo, em algumas partes da América Latina e da África oriental, em duas semanas caíram as chuvas que caem durante um ano inteiro, “então no resto do ano não haverá nada”, afirmou o especialista. Além disso, as crescentes tempestades levaram à propagação de pestes e doenças, recordou.

Mas os agricultores não são os únicos produtores de alimentos muito afetados pela mudança climática. O aumento da temperatura oceânica faz com que os peixes de zonas tropicais se desloquem por longas distâncias, o que reduz as reservas, afetando particularmente os pescadores dos países em desenvolvimento. Segundo Vos, “aparecem peixes tropicais em aguas do norte, inclusive na Islândia”.

Reduzir a pressão sobre os recursos naturais dos quais dependem numerosos produtores de alimentos também implica enfrentar o consumo e o desperdício, indicou Vos. “Isso pode ajudar a reduzir a pressão sobre os recursos naturais, porque não serão consumidos pelos humanos”, prosseguiu, lembrando que “as soluções devem ser buscadas não só para os agricultores, devemos olhar todo o sistema de produção de alimentos em geral”.

O estudo da FAO também se concentra nas mudanças da dieta, como a maior demanda por proteínas de carne, que aumentam a pressão sobre o ambiente. “O reequilíbrio dos regimes alimentares com o objetivo de reduzir os alimentos de origem animal significaria uma notável contribuição nessa direção, com prováveis benefícios conjuntos para a saúde humana”, diz o documento.

A assessora para mudança climática da Oxfam Estados Unidos, AditiSen, destacou à IPS que o novo informe da FAO detalha também a forma como os países podem implantar seus compromissos para reduzir as emissões contaminantes associadas à agricultura no contexto do Acordo de Paris, que logo estará em vigor.

“Não se dá muita atenção a como implantar os compromissos climáticos vinculados à agricultura, e é muito bom ver que ficou destacado e refletido no informe”, apontou Sen. “Da mesma forma como falamos da transição para energias limpas, creio que precisamos começar a falar da transição que a agricultura necessita”, acrescentou.

De acordo com Sen, algumas áreas da atividade agrícola requerem uma atenção particular na hora de fazer frente à mudança climática. “Em geral, se observarmos o sistema de alimentação em seu todo e de onde procedem as emissões, a maior responsabilidade em matéria de mitigação fica com os grandes atores do agronegócio e da agroindústria, mais do que com os pequenos agricultores”, ressaltou.

Cultivos como soja e palma são alguns dos maiores contribuintes de emissões de gases-estufa procedentes da agricultura e principalmente liberadas pela agroindústria. Por sua vez, a produção pecuária em grande escala também acelera a mudança climática, e não só pelas emissões de gás metano liberado pelos animais, mas também pela limpeza de terras para produzir os alimentos que eles consomem, explicou Sen.

Uma exceção notável é o arroz, alimento básico para milhares de milhões de pessoas e produzido principalmente por pequenos produtores. “O arroz é, de fato, um desses produtos básicos que deixam uma enorme pegada de gases-estufa e que também é um alimento básico produzido por pequenos produtores”, detalhou Sen.

O uso excessivo de fertilizantes químicos nos arrozais contribui para esse problema, diz o informe da FAO. Porém, são necessários mais dados para compreender melhor as diferentes emissões de gases-estufa produzidos pelos pequenos agricultores em relação à agroindústria, ressaltou Sen. Envolverde/IPS

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Lyndal Rowlands

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