Alemanha: Uma escolha entre Europa e Estados Unidos

Miami, 18/09/2005 – Neste domingo, se as pesquisas estiverem certas, Angela Merkel poderá se converter na primeira chanceler (primeira-ministra) de toda a história da Alemanha. Nascida na antiga República Democrática alemã, filha de um pastor luterano de Hamburgo que optou por exercer seu ministério em meio ao regime comunista, Merkel ,de pertencer às juventudes do partido único, passou a comandar os democrata-cristãos do CDU, aliados do CSU bávaro na Alemanha unificada. Sobre essa catapulta emblemática do trauma europeu, pode receber a responsabilidade de preencher a maltratada liderança da União Européia.

Aos 51 anos, com um ar de enfermeira, expressão de não ter feito mal a ninguém e um sorriso entre irônico e travesso, fria no tratamento, as últimas experiências demonstram sua falta de carisma. Mas o estereótipo clássico atribuído a uma mulher quando entra na política já a rotulou como "dama de ferro". Merkel deverá demonstrar essa condição se conseguir a necessária maioria absoluta no Bundestag, ou pelo menos uma maioria relativa em coalizão com outros partidos afins. Esta eleição antecipada é crucial para o futuro da Alemanha. Também será decisiva para a União Européia e a condução das tortuosas relações com os Estados Unidos.

A vacilação dos social-democratas alemães do SPD liderados pelo atual chanceler, Gerhard Schroeder, após a derrota nas recentes eleições regionais, tornou escasseou o ambiente político de uma Europa em transição. A Alemanha encontra-se entre a necessidade de liberalizar o mercado de trabalho e as pressões de um eleitorado que resiste a abandonar as notáveis contribuições do estado de bem-estar. Ainda é o motor insubstituível da economia européia, deve estar à frente da UE no mundo, em sintonia com os Estados Unidos. Mas Merkel deve saber que o futuro da Alemanha está intimamente ligado à evolução da União Européia. A meio caminho entre uma federação e um Estado sui generis, uma criação franco-germana é o único sócio confiável de Washington junto a um punhado de países industrializados. É a única alternativa para a inescrutável estratégia e possibilidades sólidas da China, para a tentação dos populismos desmedidos e do fundamentalismo islâmico.

Para que Merkel assuma o cargo, provavelmente deverá ceder uma fatia aos liberais. Inclusive, não se descarta – sempre – naturalmente que a CDU seja o partido mais votado, uma "grande coalizão" forjada com o SPD, tal como ocorreu pela última vez de 66 a 69. Menos provável, mas não impossível à vista da imponente capacidade de comunicação de Schroeder, é que o SPD consiga cadeiras suficientes para que, unidas às obtidas pelos Verdes, forme uma maioria suficiente como em 2002. Fica descartada uma espécie de ampla "frente popular", uma inédita coalizão com o Partido da Esquerda, formação neófita plasmada pelos comunistas reciclados do PDS e os social-democratas dissidentes liderados por Oskar Lafontaine. O SPD não compactuará (pelo menos com Schroeder no timão) com nenhum que reclame o flanco à esquerda.

Portanto, para a estabilidade da UE, qualquer das duas variantes tradicionais lideradas, respectivamente, por social-democratas ou democrata-cristãos são válidas. Para os interesses dos Estados Unidos, aparentemente seria mais vantajoso o triunfo de Merkel, por uma razão fundamental: os democrata-cristãos vangloriam-se de um atlantismo mais decidido do que os socialistas. Com Chirac em vias de aposentadoria, as vozes críticas da Velha Europa ficariam reduzidas a Rodríguez Zapatero, em pleno caminho de recomposição das relações com Washington, mais as sempre eternas reticências belgas e certas tendências de neutralidade dos nórdicos.

Porém, a alegria mal contida diante desse rosáceo panorama pode se tornar tão fútil quanto a mal dissimulada satisfação gerada pelo "Não" da Constituição Européia. No fundo, uma Europa dividida e liderada por alguns setores vocacionalmente partidários de apoio aos Estados Unidos não é exatamente o que mais convence Washington, em urgente necessidade de apoio diante das pressões do presente (Iraque e Katrina, entre outros). Observe-se a significativa e polêmica oposição de Merkel à entrada da Turquia na UE. Reflete os mesmos sentimentos de numerosos setores que votaram negativamente contra uma União Européia mais federalizante por um instinto de reflexo diante da imigração descontrolada. Para Washington, uma Turquia ancorada na UE é uma garantia para fechar as gretas na precária estrutura do Oriente Médio.

Portanto, os sentimentos nacionalistas viscerais dos setores conservadores e populistas da Europa não são exatamente o que mais convence Bush. Daí o fato de Merkel, e sobretudo o núcleo liberal que provavelmente capture, como em ocasiões no passado, as relações exteriores, ser mais prudente do que se unir aos errôneos sinais atuais. Além de o sentimento crítico norte-americano em numerosos setores da nova sociedade alemã ser uma atitude que os próprios dirigentes democrata-cristãos não sabem bem como contra-atacar. A resposta, portanto, deve esperar o resultado das urnas, no domingo. (IPS/Envolverde)

(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

Correspondentes da IPS

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