Damasco, 19/09/2005 – Cresce entre a população da Síria o temor de ver o país transformado em alvo de sanções internacionais, no momento em que aumentam as acusações dos Estados Unidos pela ajuda fronteiriça à insurgência iraquiana e avança uma investigação sobre suposto vínculo de Damasco com o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri. O presidente norte-americano, George W. Bush, deixou mais claro do que nunca, na semana passada, em diferentes oportunidades, que vê a Síria como uma importante fonte de instabilidade do Iraque. Ao mesmo tempo, não escondeu sua convicção de que Damasco esteve envolvida no crime contra Hariri, em fevereiro.
O atentado que pôs fim à vida do ex-primeiro-ministro desatou uma onda de indignação popular contra a Síria e o governo libanês pró-sírio, que posteriormente cedeu às pressões e caiu. As manifestações puseram fim a 29 anos de forte presença militar síria no Líbano. Uma equipe de investigadores da Organização das Nações Unidas que conduz o processo pelo crime prevê interrogar as autoridades sírias nesta semana. Detlev Mehlis, que preside esta equipe, manteve uma primeira rodada de conversações em Damasco para ajustar os detalhes dos interrogatórios. Mehlis admitiu que houve alguns "problemas" com a cooperação da Síria na investigação.
Os habitantes da Síria estão especialmente apreensivos com os efeitos que possa ter uma investigação da ONU. Muitos falam de um "cenário à moda do Iraque" e que o país pode ser castigado com sanções internacionais. Temem não poder ter acesso a bens estrangeiros e ver limitado seu direito de viajar a outros países. "Todos sabem que (as eventuais sanções) estarão voltadas para os peixes gordos, mas serão as pessoas comuns as afetadas", disse á IPS Marwan Kabalan, do Centro de Estudos Estratégicos da Universidade de Damasco. Por sua vez, o analista norte-americano Joshua Landis, radicado em Damasco, afirmou que as reformas democráticas em andamento na Síria podem ser prejudicadas por esta investigação, já que as autoridades estarão ocupadas em se defender diante dos funcionários das Nações Unidas.
Washington agravou estes temores na última semana. Seu embaixador no Iraque, Zalmay Khalilzad, acusou os sírios de colaborarem com a insurgência iraquiana. Mas o verdadeiro perigo pode vir da investigação de Mehlis, que segue a pista dos principais dirigentes libaneses pró-sírios. Os quatro principais chefes dos serviços de segurança do Líbano durante a ocupação síria foram acusados no mês passado de cumplicidade no assassinato de Hariri. Muitos em Damasco acreditam que estes militares não poderiam ter agido sem colaboração por parte da Síria.
O jornal AlThawara, controlado pelo Estado, repetiu a afirmação do governo de que os inimigos da Síria se aproveitariam da investigação da ONU para prejudicar o país. O diário disse temer "que a missão Mehlis se politize para conseguir objetivos que ameacem a segurança da região e seu futuro" e se referiu, em especial, à influência de Israel. Por sua vez, o jornal libanês AsSafir informou que "os Estados Unidos e a França acertaram em aumentar a pressão contra a Síria". Os temores da população aumentaram quando o presidente, Bashar Assad, cancelou seu plano de participar da Cúpula Mundial 2005 na sede da ONU. O mandatário explicou que preferia permanecer em Damasco para acompanhar de perto as investigações sobre o assassinato de Hariri, mas tomou a decisão em meio a rumores de que seria menosprezado por vários líderes mundiais em Nova York.
Landis disse que vários funcionários do governo se espantaram diante da decisão de Assad. Temem que a investigação possa "prender" os líderes sírios como ocorreu ao deposto presidente iraquiano Saddam Hussein. O presidente libanês, Emile Lahoud, pró-sírio, participou da cúpula da ONU apesar de ter sido duramente criticado. O chefe da sua segurança pessoal, Mustafá Hamdan, é uma das quatro pessoas acusadas de vínculos com o homicídio. "A Síria vai cooperar em tudo com o comitê de investigação internacional e oferecerá todas as facilidades possíveis. A Síria está muito interessada em mostrar a verdade sobre o assassinato de Hariri", afirmou a agência nacional de notícias Sana.
Porém, um diplomata ocidental disse que o governo sírio talvez ainda não se tenha dado conta da importância de cooperar em tudo com a investigação das Nações Unidas. Por sua vez, um analista político pró-sírio disse que "uma nova guarda" está governando o país e seus integrantes "não entendem nada" de política externa. Além disso, alertou que "arruinarão a cooperação com a equipe da ONU". Este diplomata destacou que o governo da Síria poderia "escapar das garras de Mehlis" fazendo mais para evitar que se ajude os rebeldes iraquianos através da fronteira e expulsando as facções militantes palestinas de Damasco. Porém fez "muito pouco, e muito tarde" e agora "colhe o que semeou", acrescentou. (IPS/Envolverde)

