Nuclear: Ambigüidade chinesa com Coréia do Norte e Irã dá frutos

Pequim, 20/09/2005 – A política da China de apoiar países considerados foragidos pelos Estados Unidos, como a Coréia do Norte e o Irã, atingiu seu ponto crítico. A intervenção do governo chinês foi crucial para que a Coréia do Norte concordasse, nesta segunda-feira, em suspender seu programa nuclear, depois de uma semana de intensas negociações em Pequim das quais também participaram Coréia do Sul, EUA, Japão e Rússia. Mas na sua qualidade de mais antigo aliado, bem-feitor econômico e membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, a China tem uma enorme influência sobre o regime de Kim Jong II.

Desde que, em 2003, a Coréia do Norte expulsou os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Pequim resistiu às tentativas de censurar o regime no Conselho de Segurança. Essa estratégia parece estar dando frutos. Nesta segunda-feira, a Coréia do Norte reivindicou na declaração final das negociações seu direito ao uso pacífico da energia atômica, e os restantes cinco países disseram "respeitar sua posição", a ponto de não descartarem facilitar a Pyong Yang um reator nuclear de água leve. A Coréia do Norte também se comprometeu a renunciar às suas armas nucleares, desmantelar seus programas nessa área e "regressar o quanto antes ao Tratado de Não-proliferação, bem como a receber os inspetores da AIEA".

A declaração inclui a intenção da Coréia do Norte de normalizar suas relações com os Estados Unidos e o Japão, que manifestaram o mesmo sentimento. Além disso, os cinco países se comprometeram a fornecer energia á Coréia do Norte. Pequim argumentou em reiteradas ocasiões que sua amizade com Pyong Yang e Teerã lhe permitiram desempenhar um papel moderador em momentos de crise. Mas os críticos do regime chinês asseguram que essa atitude apenas defende seu próprio interesse. A possível existência de armas nucleares na Coréia do Norte poderia representar uma ameaça para a China. Mas qualquer crise no isolado regime coreano desataria uma onda de refugiados rumo ao território chinês.

No caso do Irã, a atitude permissiva da China em relação ás ambições nucleares do regime islâmico se vinculam com o interesse de Pequim no petróleo desse país. Na última década, a China se converteu no segundo importador mundial de petróleo, atrás dos Estados Unidos. Catorze por cento de suas compras procedem do Irã, e também pretende elevar suas compras de gás natural nesse país. Quando o presidente chinês, Hu Jintao, se reuniu com seu colega norte-americano, George W. Bush, na semana passada na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, não ofereceu nada de concreto para que Coréia do Norte e Irã abandonassem seus programas nucleares. Hu se limitou a prometer que exortaria o Irã a seguir o mandato da AIEA.

Pouco antes, o embaixador da China na ONU, Wang Guangya, havia manifestado sua reticência de que o enriquecimento de urânio do Irã fosse objeto de debate no Conselho de Segurança. "Não creio que seja de utilidade. O Conselho tem muitas coisas sobre a mesa. Por que deveríamos acrescentar esta?", perguntou Wang. Mas para os Estados Unidos a paciência se esgota. Há pouco mais de uma semana, a secretária de Estado, Condoleezza Rice pediu urgência á China, Índia e Rússia para que dissessem ao Irã que deve "cumprir suas obrigações internacionais" de suspender em caráter permanente a conversão e enriquecimento de urânio. No mesmo sentido se pronunciou Bush em suas conversações com Hu.

O Irã suspendeu suas atividades de enriquecimento no final do ano passado, mas as reiniciou em agosto. Na época, Teerã qualificou de inadequada a oferta de incentivos feitas pelo Ocidente para que suspendesse suas atividades. O papel da China no diálogo sobre a Coréia do Norte é mais construtivo, embora ambíguo. A fórmula adotada nas negociações de seis partes em Pequim, plena de concessões recíprocas, foi proposta pelo governo chinês depois de Pyong Yang ter manifestado com insistência sua necessidade de possuir um reator nuclear de água leve. Inicialmente, a proposta reafirma o direito da Coréia do Norte de desenvolver sua produção de energia nuclear, e inclui a promessa chinesa de fornecer-lhe um reator num futuro próximo. Mas reflete também a demanda norte-americana de que esses passos devessem ser dados uma vez que a Coréia do Norte desmantele suas armas nucleares.

Se não tivesse sido alcançado um acordo nesta segunda-feira, a carta do regime norte-coreano era extrair mais plutônio para seu programa de armas nucleares. E a dos Estados Unidos era abandonar as negociações e assumir uma postura de confronto mais direto com a Coréia do Norte. Isso teria sido uma prova de fogo para a China. Se o Conselho de Segurança tivesse estabelecido sanções econômicas contra a Coréia do Norte ou se os Estados Unidos tivessem submetido esse país a um bloqueio naval, Pequim deveria ter escolhido entre manter boas relações com Washington ou com Pyongyang. O chanceler chinês, Li Zhaoxing, se uniu no último dia 15 com outros líderes mundiais para assinar um tratado internacional que define como crime a posse de material radioativo com a finalidade de cometer atos terroristas. Por outro lado, o porta-voz do governo chinês, Qin Gang, disse que seu país "nunca ajudará outro a desenvolver armas nucleares". (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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