Nações Unidas, 19/09/2005 – "Travamos uma guerra contra a pobreza… e a pobreza ganhou". Com esta frase um diplomata africano resumiu o resultado da Cúpula Mundial 2005, encerrada sexta-feira na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York. "Parece que os líderes mundiais fizeram seu melhor esforço para que a pobreza vença", concordou Hellen Tombo, da campanha Chamado Mundial para a Ação contra a Pobreza (GCAP), que reúne numerosas organizações humanitárias e de desenvolvimento. "Esta semana houve mais poses do que avanços", disse Tombo à IPS.
Entretanto, esta suposta derrota não detém os milhões de ativistas que participam do GCAP, que continuarão reclamando ações contra a pobreza apesar da desilusão causada pelos 170 chefes de Estado e de governo presentes em Nova York. "Poremos ainda mais energia para garantir Justiça aos pobres do mundo quando a conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio se reunir em dezembro", em Hong Kong, afirmou a ativista. "Continuaremos lutando com a faixa branca, símbolo de nossa contínua luta por Justiça", acrescentou.
Os ministros de Comércio examinarão, em dezembro, a redução ou eliminação de tarifas alfandegárias e outras barreiras às exportações do Sul em desenvolvimento. Os Estados Unidos e os 25 membros da União Européia (UE) são reticentes em reduzir as tarifas alfandegárias, especificamente dos produtos agrícolas procedentes do mundo pobre, e também são contra eliminar os altos subsídios que pagam aos seus próprios produtores. A Cúpula Mundial 2005 se reuniu, na semana passada, na Assembléia Geral da ONU, com o objetivo original de analisar o avanço no cumprimento das oito Metas de Desenvolvimento do Milênio.
Este programa, estabelecido em 2000 por 189 chefes de Estado e de governo, também reunidos em Nova York, inclui como primeiros dois pontos reduzir à metade a proporção da população pobre e faminta do mundo até 2015. Entre outras metas, figuram educação primária universal, igualdade de gênero, redução da mortalidade infantil em dois terços e a materna em três quartos, combater a expansão do HIV/aids, a malária e outras doenças. Além disso, os líderes mundiais se comprometeram a garantir a sustentabilidade ambiental e gerar uma sociedade global para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul.
Saradha Iyer, da Rede do Terceiro Mundo, afirmou que o documento final aprovado pela cúpula foi "projetado com inteligência", mas também com "uma linguagem diluída" que foi "acordada ou imposta à maioria dos Estados-membros" da ONU. "Diluir" o documento final evitou um fracasso de proporções históricas, segundo Iyer, que, de todo modo, considerou que "a ONU dá sinais de ter se degenerado na maior feira de palavras – não de atos – do mundo". Os presidentes e primeiros-ministros que participaram do encontro "estão isolados do impacto devastador da pobreza mundial", acrescentou. "Parecem imunes aos efeitos das mobilizações de massa e campanhas mundiais para elevar a voz dos pobres, dos vulneráveis, dos marginalizados. Uma vez mais, apesar dos melhores planos e das melhores intenções, os líderes fracassaram na tentativa de levar esperanças a milhares de milhões de pessoas que mais necessitam delas", ressaltou.
Um dos objetivos da Cúpula Mundial era estabelecer medidas concretas para facilitar o êxito das Metas do Milênio. Porém, a reunião não produziu nenhuma proposta nova, nem mesmo um novo compromisso das nações ricas de alcançar uma assistência oficial para o desenvolvimento equivalente a 0,7% do produto interno bruto para os países pobres. O GCAP publicou, na edição de sexta-feira do jornal The New York Times, um anúncio de página inteira dizendo que "existe uma crescente preocupação de que os líderes mundiais não mantenham sua promessa de erradicar a pobreza antes de 2015".
No anúncio, o GCAP recorda que 1,2 bilhão de pessoas vivem na pobreza, que cem milhões de crianças estão fora da escola, das quais 60 milhões são meninas, que uma criança morre a cada três segundos vítima de doenças que podem ser prevenidas, que uma mãe morre a cada minuto ao dar à luz e que 13 milhões de menores são órfãos por causa da aids. Além disso, segundo o GCAP, os países ricos dão hoje às nações pobres a metade da ajuda que era entregue em 1960. "Devemos determinar e fornecer o financiamento adicional necessário para garantir o sucesso dos objetivos e das metas de desenvolvimento, incluídos as do Milênio, dentro do cronograma estabelecido", disse, diante de seus colegas na Cúpula, o primeiro-ministro da Jamaica, P. J. Patterson.
Em nome do Grupo dos 77, que, com 132 membros, é a expressão do Sul pobre na comunidade internacional, Patterson recordou que as transferências financeiras líquidas do mundo pobre para o rico somam, em média, US$ 230 bilhões ao ano. "Estas transferências negativas persistem, apesar dos compromissos dos países industrializados de aumentar a assistência oficial ao desenvolvimento, reduzir a dívida (externa) e os juros, abrir seus mercados aos produtos do mundo em desenvolvimento e incentivar o investimento privado" no Sul, acrescentou. Enquanto os recursos do mundo em desenvolvimento fluem em direção ao industrializado sem impedimentos, as iniciativas e programas dos países ricos em favor dos pobres são insignificantes, bloqueadas em negociações ou cercadas por rígidas condições, afirmou Patterson.
"Fracassamos no cumprimento das metas que nos impusemos. A pobreza e as doenças infecciosas continuam desenfreadas. A tensão da guerra e o terrorismo distorcem o panorama da segurança internacional. A proliferação de armas de todo tipo origina temor e ameaça a paz dentro dos países", advertiu o primeiro-ministro. "A cúpula deveria ter enviado uma mensagem de esperança aos milhões que ainda vivem na miséria", acrescentou. Infelizmente, os líderes mundiais não emitiram tal mensagem", afirmou Tombo. Nem mesmo estabeleceram uma data "para cumprir a meta de 0,7%" do PIB dos países ricos como contribuição oficial ao desenvolvimento, acrescentou. "Os pequenos êxitos que vimos esta semana em matéria de gênero, aids e segurança humana devem ser atribuídos aos milhões de pessoas que não renunciaram em expor a verdade", ressaltou a ativista. (IPS/Envolverde)

