Teerã, 21/09/2005 – Enquanto na Organização das Nações Unidas são analisadas possíveis sanções ao Irã por seu programa nuclear, o conservador presidente Mahmojud Ahmdinejad, se consolida como herói nacional e símbolo de resistência ao Ocidente. Os aplausos no Irã ao "engenheiro", como Ahmdinejad é conhecido, se redobraram no sábado, quando reivindicou na Assembléia Geral da ONU o "inalienável direito" de seu país ao desenvolvimento nuclear com fins pacíficos. O presidente iraniano fez essa declaração poucas horas depois de encerrada a Cúpula Mundial 2005, na sede das Nações Unidas em Nova York. Seu pronunciamento teve conseqüências imediatas.
Os três países que negociam com o Irã em nome da União Européia – Alemanha, França e Grã-Bretanha – solicitaram à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que apresente o caso ao Conselho de Segurança da ONU ainda esta semana. O grupo negociador europeu, conhecido pela sigla UE-3, mantém uma posição conciliatória diante da intransigência dos Estados Unidos, mas parecer ter perdido a paciência. Seu último passo poderia levar a sanções contra Teerã. De todo modo, uma gigantesca manifestação recebeu Ahmdinejad no aeroporto da capital iraniana como um herói. Muitos concordaram que a recepção lhes fez recordar das honras prestadas há 60 anos a outro estadista muito popular.
O então primeiro-ministro Mohammed Mossadegh havia regressado a Teerã depois de defender com êxito em um tribunal de Haia os direitos de seu país sobre o petróleo, enfrentando importantes companhias britânicas. Na segunda-feira, Ahmdinejad afirmou na televisão estatal do Irã que seu governo não está preocupado com um eventual relatório da AIEA ao Conselho de Segurança. "Eles fazem o que têm de fazer e nós fazemos o que temos de fazer. Nossa posição permanecerá inalterada. O povo iraniano defenderá seus direitos e não lhe acontecerá nada", afirmou. Mas na terça-feira o negociador iraniano, Ali Larijani, disse à imprensa em Teerã que se a AIEA decidir pela intervenção do Conselho de Segurança, será negado o acesso dos inspetores da agência nas instalações nucleares.
Hassan Daqiqi, um engenheiro aposentado, disse à IPS que "Ahmdinejad não está fazendo nada de especial, apenas o que qualquer patriota iraniano faria". Por sua vez, um ancião de Teerã disse: "Não pergunte meu nome. Sou apenas um dos tantos milhões de iranianos, muçulmanos, seculares ou nacionalistas de diversos setores sociais. O presidente Ahmdinejad levantou nosso espírito e estamos orgulhosos dele". O fervor popular se estenderá seguramente até domingo, quando se comemora o aniversário de Mohammed Al Mahdi, o 12º imã (máximo líder religioso xiita) que, segundo a tradição deste ramo da fé muçulmana, regressará como libertador para salvar o mundo e instaurar uma sociedade islâmica justa.
O regime islâmico iraniano é consciente de que se avizinham tempos difíceis, mas parece haver consenso entre a população, incluindo reformistas e seculares, de que vale a pena pagar o preço de defender o direito de desenvolver energia nuclear para fins pacíficos. O UE-3 havia advertido o Irã de que promoveria sanções no Conselho de Segurança se Teerã não revertesse sua decisão de reabrir as instalações de enriquecimento de urânio, cuja atividade esteve interrompida por oito meses. Apesar desta advertência, e enquanto as autoridades da AIEA ainda discutiam que medidas tomar, o Irã rompeu os lacres que essa agência da ONU havia colocado em 2004, quando Teerã aceito suspender seu programa nuclear.
O urânio enriquecido pode ser usado para fins pacíficos, como na geração de eletricidade, mas também serve para fabricar bombas nucleares. O Irã nega ter a intenção de fabricar armas e insiste em que suas atividades estão de acordo com os termos do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Mas os Estados Unidos e alguns países europeus suspeitam das intenções de Teerã. Em um esforço para resolver o conflito através do diálogo, o Irã suspendeu seu programa de enriquecimento de urânio e abriu suas instalações para inspeção da AIEA em novembro de 2003. Desde então, negocia com o UE-3.
Teerã retirou os lacres da central depois que a agência instalou seu sistema de inspeção, que inclui câmeras de vigilância e outros dispositivos que, apesar de tudo, "não implica a aprovação do reinício do enriquecimento e conversão de urânio", segundo explicou a agência. Em entrevista coletiva, o chanceler Hamid Reza Asefi recomendou ao UE-3 e à AIEA a não serem intransigentes. "Os europeus e a AIEA devem ver o caso do Irã com lógica e evitar uma linguagem ameaçadora e de pressão, pois isso não dará frutos", afirmou. "Nosso conselho à agência é que revise o caso iraniano de uma forma lógica e realista, para evitar que a situação se complique ainda mais", acrescentou.
Asefi também aprofundou o tom desafiador do Irã ao declarar que seu governo não irá vacilar em enriquecer urânio. Na segunda-feira, a imprensa do país aplaudiu a atitude do chanceler e procurou minimizar as ameaças ocidentais. "Apresentar o caso iraniano no Conselho de Segurança não significa que haverá um ataque militar contra o Irã", disse o jornal Aftabyazd. Entretanto, Teerã busca apoio de países asiáticos e africanos, mas especialmente da China e da Rússia, que junto com Estados Unidos, França e Grã-Bretanha são membros permanentes do Conselho de Segurança, com poder de veto sobre as decisões desse organismo.
"A disputa sobre o caso nuclear iraniano poderia se estender até a próxima sessão da Assembléia Geral, em 2006, já que os Estados Unidos não conseguiram ganhar o apoio indiano contra Teerã", afirmou, por sua vez, o jornal Sharq, em seu editorial. A Índia e outros países nucleares não-ocidentais, como Rússia e China, duvidam da conveniência de o Conselho de Segurança analisar o caso iraniano. As 35 nações que integram a AIEA discutem a portas fechadas, em Viena, o pedido do UE-3, e uma decisão poderia demorar, pelo menos, uma semana. Por outro lado, as celebrações religiosas do próximo fim de semana poderão servir para Ahmdinejad mobilizar o apoio popular que necessitará para um enfrentamento com o Ocidente, e em especial com os Estados Unidos. (IPS/Envolverde)

