Rio de Janeiro, Brasil, 21/06/2012 – Cúpulas gigantes como a Rio+20 podem facilmente degenerar em papo-furado e cenário para discursos inúteis.
Em Uganda e no Quênia, uma pessoa tem estado profundamente envolvida com essa questão – um engenheiro de sistemas brasileiro, que migrou para a África oriental há 15 anos, apenas para perceber que o que ele tinha aprendido em casa era inútil do outro lado do mundo. "Eu logo percebi que teria de adaptar o meu conhecimento para as condições locais, se eu quisesse ser útil ali, e o que as pessoas precisavam não era uma logística eficiente, mas energia renovável", disse ao TerraViva Izael Pereira da Silva, vice-chanceler para assuntos acadêmicos da Universidade de Strathmore em Nairóbi, no Quênia.
Além de suas responsabilidades acadêmicas, Pereira da Silva é um agente de desenvolvimento criativo, que fez a introdução e expansão de fontes de energia renováveis na África oriental, o trabalho de sua vida. Agora, ele voltou ao seu país natal para participar da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, e mostrar que a África não precisa ser o continente "escuro". "Quando você voa sobre a África à noite, você não vê pontos de luz", contou.
"Há alguns pontos brilhantes, na África do Sul. Mas na maior parte, o continente está às escuras. Isto pode ser alterado facilmente, com a geração de enormes quantidades de energia elétrica utilizando apenas fontes de energia renováveis, com emissões de carbono zero ou muito baixas", destacou Pereira da Silva. Ele explicou que o Rio Congo sozinho tem a capacidade de gerar cerca de 150 mil gigawatts, usando várias pequenas centrais hidrelétricas, evitando assim as represas gigantes altamente ineficientes da terrível era Mobutu Sese-Seko. Tal capacidade seria suficiente para fornecer eletricidade para todo o continente.
"No entanto, os países africanos devem interligar e atualizar suas redes nacionais, para diversificar suas fontes de energia, usando a energia hidrelétrica, sol, vento e bioenergia", opinou o engenheiro. "Dessa forma, o continente não seria dependente de uma fonte, para eliminar o risco de falhas em grande escala", apontou. O engenheiro brasileiro disse que, "em 15 anos na África, eu quase nunca vi um dia inteiro sem sol. O continente deve usar essa fonte – a tecnologia de energia solar está madura, tanto na forma solar-térmica como fotovoltaica".
Pereira da Silva mencionou o projeto Desertec, que visa a instalar grandes usinas térmicas a energia solar nos países do Magrebe e do norte da África, para atender todas as demandas de energia elétrica regionais, e ainda exportar uma parte substancial para a Europa. "Essas plantas também podem ser instaladas em toda a África. Parques de turbinas de vento também", observou. Entretanto, antes de sonhar com um futuro brilhante para todo o continente africano, o brasileiro começou em pequena escala.
"As pessoas em Uganda e no Quênia usam lampiões de querosene e parafina para iluminar suas casas, quando poderiam usar lâmpadas movidas a energia solar", sugeriu o engenheiro. Esses lampiões são de fato insalubres, ineficientes e extremamente caros. Segundo a Organização Mundial de Saúde, ocorrem mais de 300 mil mortes a cada ano por causa de queimaduras causadas por esses lampiões. Milhões morrem de câncer e outras doenças causadas pela fumaça emitida pelos lampiões. Além disso, as pessoas pobres gastam cerca de US$ 17 bilhões em querosene e parafina a cada ano para iluminar suas casas com lampiões.
Para substituir os lampiões, nós distribuímos para algumas comunidades em Uganda pequenos painéis solares, de dois watts de capacidade. Eles são o suficiente para iluminar uma casa por cinco horas, e ainda têm capacidade suficiente para carregar um telefone celular", explicou Pereira da Silva. Sem esses painéis solares, os usuários teriam de se deslocar até a próxima vila, conectar seus telefones celulares na rede elétrica local, e esperar horas até que os dispositivos fossem recarregados.
Pereira da Silva também ajudou a conceber fornos solares, para cozinhar. "Nós também distribuímos 500 mil lâmpadas econômicas, para poupar eletricidade e reduzir as falhas da rede. As lâmpadas custaram US$ 1,6 milhão e permitiram uma economia de 30 gigawatts. Em 28 horas, o investimento foi pago pela economia de energia", declarou. Para que esses projetos sejam bem-sucedidos, é necessário envolver as autoridades governamentais, o setor privado e entidades de pesquisa, tais como faculdades de engenharia, e as comunidades locais. "O tripé formado por Estado, empresas e universidades ajuda a iluminar a vida das pessoas comuns", ressaltou. Envolverde/IPS
* Publicado originalmente no site TerraViva. (IPS)


