União Européia: Direita dividida entre o Islã e a ampliação

Lisboa, 27/09/2005 – Quatro dias não foram suficientes para a direita da União Européia chegar a um acordo, dividida sobre a futura dimensão da comunidade e, mais ainda, a respeito de suas relações com o mundo muçulmano. Para o moderado conservador britânico Chris Patten, ex-comissário europeu de Relações Exteriores (2000-2004) e ex-governador de Hong Kong, "o grande desafio é reconciliar o Oriente com o Ocidente", opinião desconsiderada pelo ex-primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar (1994-2004), que respondeu: "Não necessito reconciliar-me com ninguém".

"Creio no Ocidente, nossa civilização é melhor do que as outras e estou disposto a defendê-la", afirmou Aznar durante reunião em Lisboa do Partido Popular Europeu (PPE), realizada entre quinta-feira e sábado e prolongada informalmente até domingo, e na qual o ex-primeiro-ministro assumiu sem pudores as posturas mais radicais da direita européia. "Creio em uma Europa atlântica", de maneira que o futuro da UE deve se orientar nesse caminho. "Outra Europa não é possível nem desejável" e deve-se impor limites geográficos. "A única causa do terrorismo islâmico é o ódio e seu remédio não é a reconciliação". Será necessário "dar ao clube europeu uma orientação atlantista e recuperar seus valores clássicos e cristãos", foram algumas das frases mais polêmicas de Aznar, do Partido Popular Espanhol.

Mais comedido, para reduzir os efeitos do que poderia ser considerado um ataque direto de Aznar às aspirações turcas de ingressar na UE, o presidente do grupo parlamentar do PPE, Hans-Gert Poettering, reconheceu a existência de "opiniões diferentes" sobre a questão. Mas, "estou convencido de que, em termos econômicos, financeiros e culturais, a Turquia significaria uma sobrecarga" para a comunidade de 25 países. O alemão Poettering se mostrou partidário de "discutir os limites da ampliação da UE, baseados na capacidade de absorver novos membros", porque "temos que definir as fronteiras, até onde possamos chegar".

O PPE dedicou quatro dias a debater assuntos da atualidade européia na Universidade de Verão", um grupo de reflexão do qual participam, também, o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso; o presidente do PPE, Wilfried Martens, e os ex-primeiros-ministros Aníbal Cavaco Silva (1985-1995) de Portugal, e Carl Bildt (1991-1994), da Suécia. O belga Martens explicou que "estas reuniões servem para fomentar debates nacionais para uma reflexão sobre a UE como poder no mundo", e recordou que o PPE está no poder na maioria dos países da Europa, embora "devemos ganhar a condução política da Alemanha e espero que Angela Merkel seja a nova líder desse país", afirmou.

Merkel venceu as eleições do último dia 18 à frente da aliança direitista da democracia-crista, mas não conseguiu maioria para formar governo e se vê obrigada a negociar com seus adversários social-democratas. Nas eleições parlamentares do domingo, na Polônia, partidos conservadores e liberais obtiveram o primeiro e segundo lugares, segundo o escrutínio primário. Alguns dirigentes do PPE consultados pelos jornalistas sobre as palavras de Aznar concordaram em falar, mas sob a condição do anonimato. "É verdade que Aznar exagera em suas palavras, mas, também se deve destacar que muitos dos que estão diriam quase o mesmo, talvez não de maneira tão pouco diplomática, se não tivessem responsabilidades governamentais, partidárias ou parlamentares", disse á IPS um delegado belga.

Um deputado alemão ressaltou á IPS sua total concordância com Aznar quando afirmou que "a principal ameaça para a Europa é o terrorismo islâmico", mas, destacou seu desacordo com o espanhol, pois este não considera que a questão-chave seja a urgência de "uma reconciliação entre Oriente e Ocidente", mas o combate aberto e decidido "ao ódio que os fundamentalistas sentem pelos ocidentais", disse. O terrorismo islâmico é nossa principal ameaça, porque quer destruir nossa sociedade, e para isso nos declarou guerra, o que significa que é preciso nos defender, e se o fazemos é sim para ganhar, porque brincar com a pacificação não funciona. Eles querem acabar com o que somos, com o que fazemos", afirmou Aznar em outra passagem de seu discurso, em uma clara demonstração de hostilidade a Patten.

As palavras de Aznar, que se converteram no centro das atenções e conversações nos bastidores, incluíram algumas recomendações aos dirigentes europeus, tais como a recuperação "dos valores clássicos e cristãos da civilização européia" para aumentar a influência da UE, não como um contra-poder dos Estados Unidos, mãos ao seu lado. O presidente da Comissão Européia, Durão Barroso, evitou entrar nesse terrenos espinhoso e optou por dar atenção aos aspectos econômicos e sociais. "A construção européia tem que estar aberta às mudanças do tempo", especialmente executando reformas internas para enfrentar as transformações da globalização, "porque 20 milhões de desempregados é (uma realidade) inaceitável do ponto de vista social", afirmou o ex-líder conservador português, que preside órgão executivo da UE há um ano.

O futuro da UE, em sua opinião, está em "tirar o maior proveito dos benefícios da globalização", através de maior abertura interna, nas relações entre os Estados-membros e entre as instituições os cidadãos. Não se pode ter "uma união política sem uma integração econômica, ambas têm de estar juntas", em um contexto de justiça social e competitividade, acrescentou. Barroso disse que o bloco pode se beneficiar da globalização, mas para isso será urgente realizar mudanças em suas estruturas econômicas e sociais para competir com mercados emergentes como os da Índia e China, que demonstraram sua adaptação fácil à economia de escala mundial. A UE não pode resistir ás mudanças, "por isso devemos nos adaptar", apesar de, "ironicamente, esse ser um dos maiores perigos para a Europa", pois se corre o risco de surgirem "correntes populistas anti-européias?, concluiu Barroso.

Contrariando Aznar e os delegados mais radicais contra a expansão para o leste, a ex-vice-presidente da Comissão da UE, a espanhola Loyola de Palácio, apostou pela entrada da Turquia na família comunitária, mas apoiou o ex-líder de seu Partido Popular quanto ao fato de a União Européia ter de caminhar de mãos dadas com os Estados Unidos. Na visão de Palácio, "é essencial para nós que um grande país islâmico interiorize a modernidade do Islã", mas insistiu especialmente em dizer que para se integrar à UE os muçulmanos "tem de aceitar nossa sociedade, e isso implica a secularização da população e do Estado".

"O melhor instrumento para apoiar o processo de secularização do Estado e a sociedade turca é prosseguir as negociações, já que sem isso sua entrada na União Européia é impossível", disse Palácio, acrescentando que "há valores universais, como a igualdade, o Estado de direito, a democracia, a justiça ou a liberdade, que estão acima dos relativismos culturais". Afirmou, ainda, que a UE deve adaptar-se à realidade de hoje, que "não é a mesma de ontem nem será a mesma de amanhã", por isso se mostrou partidária de "apostar por uma sociedade aberta" e sustentou que a "Europa tem de liderar a globalização". Palácio disse que o primeiro passos sra os chefes de governo dos 25 países estabelecerem como enfrentar os desafios do mundo globalizado, "que não podemos evitar, ou nos adaptamos ou ficamos imobilizados". (IPS/Envolverde)

Mario de Queiroz

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