A Morte de Mill Pode Levar à Unidade Nacional no Gana

KUMASI, Gana, 06/09/2012 – A morte do Presidente John Atta Mills vai ter um efeito moderador na política nacional nos meses que antecedem as eleições de Dezembro de 2012 no Gana, de acordo com o Secretário Executivo da Rede para a Paz da África Ocidental (WANEP), Emmanuel Bombandey. Segundo Bombandey, este acontecimento provavelmente irá travar a agressão intra-partidária característica da política no Gana, e não irá causar instabilidade ou violência.

Isso, de acordo com alguns especialistas, é só por si uma história de sucesso.

"Nos últimos dois anos, as transições têm constituído um problema em muitos países africanos, e continuam a sê-lo," disse Emmanuel Akwetey, Director Executivo do Instituto para a Governação Democrática do Gana,.

Apontou exemplos como o Ruanda, Malawi e Nigéria, onde a morte de líderes políticos conduziu à violência.

"Para um país que tem um passado de intervenções militares e instabilidade política … não há nada como um vazio de poder, especialmente no topo," asseverou. "Alguém pode decidir intervir – devido ao nervosismo ou oportunismo."

Contudo, no Gana o Vice-Presidente John Dramani Mahama tomou posse como Presidente algumas horas após a morte de Mill. Embora se tenham levantado algumas questões sobre quem é que vai ser o porta-bandeira do partido no poder, o Congresso Democrático Nacional (NDC), e a forma como a selecção será feita, o Professor Kwame Ninsin, leitor de ciências políticas na Universidade de Gana, declarou que isso não criaria um vazio de poder.

"Não julgo que não possa ser ultrapassado …. Tenho a certeza que esta é uma situação que a liderança do partido é capaz de resolver eficazmente," disse.

Acrescentou ainda que o sucesso do partido se deve a mais do que a face da sua liderança.

"As eleições também são feitas ou arruinadas pela capacidade organizacional do partido em questão," acrescentou, "e gostaria de acreditar que o NDC está adequadamente preparado para apoiar o seu candidato presidencial e ganhar as eleições."

Estabilidade Radicada em Instituições Bem-Sucedidas

Na generalidade, de acordo com Bombandey, a transição do Gana tem sido considerada uma história de sucesso, situação atribuível principalmente à força das suas instituições.

"Não espero qualquer forma de instabilidade," declarou, "o que deverá demonstrar a governação do país e a constituição – que funciona muito bem."

"Vamos rumar a eleições presidenciais em paz," acrescentou.

De acordo com Ninsin, mesmo os militares foram "profissionalizados" nos anos que se seguiram à revolta de 1981 no Gana, não representando qualquer ameaça à estabilidade do país.

"Se existisse alguma ameaça à segurança, isso teria ficado evidente logo nas primeiras horas após o anúncio da morte do presidente. Mas o processo de transição ocorreu de uma forma tranquila."

Akwetey também atribuíu a transição política relativamente tranquila à estabilidade das instituições democráticas emergentes do país.

"Amadurecemos e ultrapassámos as nossas lutas – os militares, os governos autoritários, os combates políticos," disse. "Apesar da ocasião ter sido solene e triste, também é gratificante saber …que podemos seguir em frente e continuar a viver," afirmou, acrescentando, "Conseguimos demonstrar ao mundo que levamos a sério a nossa constituição."

Segundo Akwetey, a importância deste procedimento e ordem está profundamente radicada na cultura do Gana.

"Mesmo nos sistemas tradicionais, somos um povo em que as regras estão profundamente interiorizadas. É como um código genético"

Kofi Owusu, jornalista galardoado e director da estação Ultimate Radio de Kumasi, afirmou que estas instituições tradicionais, assim como as mais recentes instituições democráticas, podiam contribuir para um período de transição tranquila.

"Por hábito, o povo do Gana respeita os mortos," disse. "Querem prestar homenagem ao falecido e é por isso que Akufo Addo, o líder da oposição (Novo Partido Patriótico) suspendeu a sua campanha para chorar a morte de Mill juntamente com o resto dos Ganeses.

Isso tinha criado uma "pausa" nas querelas habituais, afirmou Owusu, acrescentando, "Sendo quem são, os Ganeses vão seguir os costumes para manifestar o seu respeito."

Não sabia quanto tempo a "pausa" iria durar.

Interrupção das Hostilidades

Owusu descreveu o estado do discurso político no Gana antes da morte de Mill.

"O debate era muito aceso," explicou. "Os riscos eram tão elevados que as pessoas pareciam condicionar toda a sua vida à questão de quem é que iria ser Presidente."

Mas Bombandey afirmou que a morte do presidente servia para recordar aos Ganeses a sua identidade comum e impedir que os partidos políticos reatassem o seu discurso hostil depois do período de luto.

"À medida que se aproximam as eleições, vamos regressar a uma actividade política intensa, depois do presidente ter sido enterrado. Mas julgo que as pessoas se lembrarão que não devemos regressar ao intenso nível de retórica política que tinhamos sentido anteriormente," disse.

Por seu lado, Owusu previu também uma mudança na natureza do discurso político nos meses que se seguiram à morte de Mills.

"Desapareceu o homem que era o alvo (da crítica política). De repente já não o podem atacar e, portanto, o que é que se faz? Acreditamos que esse facto vai diminuir a intensidade dos debates; o tom amargo irá reduzir-se de forma significativa até às eleições," acrescentou.

Referiu igualmente que alguns líderes tinham começado a ver a tragádia como uma oportunidade para fortalecer a unidade nacional.

"Algumas pessoas dizem que a situação representa uma oportunidade para unir o país antes das eleições," disse.

Bombandey afirmou que os deputados já tinham demonstrado um considerável sentido de unidade. Cada partido tinha manifestado a sua solidariedade para com o governo e as famílias enlutadas, e esta unidade podia persistir nos dias anteriores às eleições nacionais.

"Penso que haverá um novo sentido de decência no debate político," explicou, "e, mais concretamente, isso é positivo na medida em que podemos assistir ao debate de questões adicionais e a menos insultos e querelas políticas."

Bombandey disse que acolheria de bom grado essa mudança de tónica.

Portia Crowe

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