Tempos difíceis ficam ainda mais difíceis no norte da Costa do Marfim

KORHOGO, Costa do Marfim, 06/09/2012 – Salimata Coulibaly, directora de um centro médico na cidade de Korhogo, na região de Savanes, na Costa do Marfim, parou diante de um gráfico com fotografias de crianças do tipo "antes" e "depois" – uma tirada quando cada criança chegou ao centro e outra tirada depois de a criança ter reagido ao tratamento contra a subnutrição. Nas últimas semanas, não tem havido falta de fotografias. O número de crianças trazidas para o centro para serem pesadas está a subir, tendo aumentado drasticamente de 162 em Abril para 674 em Julho.

"Começou uma crise. Estamos na época da escassez," afimou Coulibaly à IPS, referindo-se ao período entre Junho a Agosto, quando as reservas alimentares nesta parte deste país da África Ocidental normalmente diminuem antes das próximas colheitas.

Christina de Bruin, representante adjunta do Fundo das Nações Unidas Para a Infância (UNICEF) na Costa do Marfim ,disse à IPS que aquela agência tinha notado um aumento semelhante de crianças subnutridas em centros de alimentação em todo o norte.

A fome sazonal não é nada de novo no norte da Costa do Marfim, uma região onde as famílias lidam com elevados níveis de pobreza e solos pouco produtivos. Mas este ano surgiram novos desafios que podem agravar o problema.

A região foi duramente atingida pela crise pós-eleitoral na Costa do Marfim, um conflito civil que ceifou pelo menos 3.000 vidas e que começou quando o antigo Presidente Laurent Gbagbo se recusou a suspender o mandato depois de ter perdido a eleição de Novembro de 2010.

Centenas de milhares de cidadãos da Costa do Marfim ficaram desalojados e dezenas de milhares refugiaram-se na região do norte de Savanes, onde a grande maioria foi recebida por famílias de acolhimento, de acordo com as Nações Unidas. Embora a crise tenha terminado há mais de um ano, permitindo o regresso de alguns desalojados, ainda continua a sentir-se a pressão exercida sobre as reservas alimentares das famílias de acolhimento.

Entretanto, os distúrbios políticos foram substituídos pela crise alimentar regional na região do Sahel em países como o Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger e Chade, causada por chuvas irregulares e subsequentes colheitas fracas e faltas de água. A Oxfam International afirma que 18 milhões de pessoas enfrentam uma crise alimentar este ano na África Ocidental e Central, incuindo o Burkina Faso e o Mali, que fazem fronteira com a Costa do Marfim.

De Bruin afirmou que a escassez de alimentos a nível regional tinha, com efeito "esgotado uma parte das colheitas locais" na Costa do Marfim ao aumentar de forma drástica o custo dos alimentos básicos.

Por último, as chuvas irregulares na Costa do Marfim no ano passado traduziram-se em colheitas particularmente más, o que significa que a estação difícil se tornou ainda mais dura que o normal para muitas famílias.

Tudo isto tem o potencial de eliminar as recentes conquistas nutricionais na região. De acordo com informações citadas pelas Nações Unidas, a subnutrição aguda mundial baixou de 17.5 por cento em 2008 para 5.8 por cento no início deste ano.

Contudo, um estudo realizado em Abril pelo Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, pela Organização da Nações Unidas Para a Alimentação e a Agricultura e pelo Ministério da Agricultura, calculou que cerca de 110.000 pessoas na região de Savanes corriam o risco de insegurança alimentar, e que "o cenário mais provável em 2012 podia ser comparado à situação em 2008", quando a região estava sob o controlo dos rebeldes e sofria o impacto do declínio dos serviços sociais básicos.

No centro médico de Korhogo, Coulibaly afirmou que tinha visto as condições a tornarem-se gradualmente mais difíceis. Não apenas muitas famílias comiam uma única refeição por dia, contou, mas frequentemente eram tão pressionadas a trabalhar por essa refeição que demoravam mais tempo a procurar tratamento médico quando os primeiros sinais de subnutrição apareciam.

"Só vêm aos centros de nutrição quandoa situação é realmente grave," disse. "Tendem a esperar até ser demasiado tarde porque não querem perder tempo a obter tratamento."

Num centro de nutrição em M'Benguebougou, aldeia perto de Korhogo, Fatoumata Yire Soro, de 22 anos, descreve a pressão a que foi sujeita quando decidiu trazer a filha de dois anos para tratamento há cerca de dois meses.

"Estava muito preocupada com a saúde da minha filha, que sabia estar subnutrida," disse Soro, que vende carvão. "Mas, ao mesmo tempo, tinha de lidar com a pressão em casa porque não estava no campo (a ganhar a vida). No fim, a saúde da minha filha foi a coisa mais importante."

A questão do atraso em obter tratamento médico para os filhos é apenas um dos adversos mecanismos de sobrevivência adoptados pelas famílias que lutam para se alimentarem. Também é mais provável que os pais retirem os filhos da escola – algo que De Bruin afirmou ter visto em toda a região devido à crise alimentar no Sahel.

"Infelizmente muitas crianças abandonaram o sistema de ensino," explicou. "Devido à crise no Sahel, muitas crianças estão a abandonar a escola mais cedo."

Um problema enraizado

Thomas Bassett, professor de geografia na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e co-autor do livro O Atlas da Fome Mundial publicado em 2010, disse à IPS que é importante lembrar os factores estruturais que contribuíram para a fome na Costa do Marfim.

Mais de 40 por cento das crianças com menos de cinco anos de idade sofrem de crescimento atrofiado, o que quer dizer que não ingerem alimentos suficientes para um crescimento normal.

"Sabemos que cerca de 45 por cento da população vive com dois doláres por dia. Isso é quase metade da população (de quase de 20 milhões de pessoas) que está vulnerável à fome," afirmou Bassett.

"Se uma pessoa vive com dois doláres por dias, qualquer tipo de evento extremo – pode ser uma seca, a instabilidade política, o baixo preço pago pelas culturas de rendimento – pode colocar essa pessoa numa situação precária." Bassett faz trabalho de campo em Korhogo e redondezas há mais de 30 anos.

Segundo Bassett, uma das principais razões para esta pobreza é o facto de os agricultores não receberem dinheiro suficiente pelas culturas de rendimento, especialmente o algodão e a castanha de cajú.

Os preços para ambos estes produtos são decididos por organizações colectivas compostas por produtores e compradores sediados em Abidjan. Bassett afirmou que este problema pode ser parcialmente resolvido por uma maior mobilização dos agricultores no sentido de exigirem os preços mais altos possíveis pelos seus produtos. Uma intervenção secundária, segundo Bassett, seria aumentar o acesso a insumos agrícolas como adubos.

No entanto, Bassett acrescentou que não era provável que o governo de Alassane Ouattara tentasse resolver o problema da fome no norte com grande energia, especialmente se a administração se sentisse segura quanto à retenção de um forte apoio por parte dos eleitores na região.

A seguir à tentativa de golpe de estado dirigido contra o antigo presidente Gbagbo em 2002, o norte ficou separado do sul e foi administrado pelos rebeldes das Forces Nouvelles (Novas Forças) até à eleição de 2010. Os habitantes do norte votaram esmagadoramente a favor de Ouattara, que é originário da região.

"A meu ver, devido ao facto de não haver fome extrema, o governo vai tolerar a fome crónica," disse Bassett. "Não acredito que isto seja um assunto que o governo se sinta necessariamente obrigado a resolver e não creio que o governo de Ouattara vá necessariamente perder qualquer apoio na área devido a esta questão."

De Bruin afirmou que o governo estava a trabalhar com ONGs no sentido de prestar alguma assistência, designadamente ajudando a educar as comunidades acerca dos perigos da subnutrição das crianças, que não eram inteiramente reconhecidos.

"As pessoas não se apercebem do risco dos filhos estarem gravemente subnutridos," disse. "Se tiverem um filho severamente subnutrido com diarreia, as hipóteses de sobrevivência são muito, muito baixas."

Afirmou ainda que as pessoas na região estavam à espera de melhorias significativas com Ouattara, especialmente depois da crise que durou uma década, durante a qual foram desmantelados os serviços sociais básicos, como saúde e educação.

"As pessoas estão definitivamente à espera de melhorias com Ouattara," disse De Bruin. "Garantir que as crianças cresçam saudáveis e tenham acesso à educação – penso que só isso poderá quebrar o ciclo de pobreza e de violência."

Robbie Corey-Boulet

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