TAMALE, Gana, 06/09/2012 – Para garantir que ele e a família conseguem sobreviver depois da colheita falhada deste ano, Adams Seidu, tal como os agricultores de outras comunidades rurais na Região do Norte do Gana, aplicou uma estratégia de sobrevivência. Eles utilizam aquilo a que Seidu denomina "estratégia um-zero-um" para as crianças e "estratégia zero-zero-um" para os adultos.
A equação representa três refeições por dia. Um representa uma refeição enquanto que o zero não representa qualquer refeição. Portanto, os quatro filhos de Seidu têm um pequeno almoço de manhã, nada ao meio-dia e uma refeição à noite, enquanto que ele e a mulher só comem uma refeição por dia, à noite – tal como acontece a muitas outras famílias nesta nação da África Ocidental.
A escassez de alimentos está a tornar-se uma preocupação na região. Um estudo sobre nutrição efectuado em Março pelo Serviço de Saúde do Gana indicou que 32.2 por cento das 208.742 crianças com menos de cinco anos na Região do Norte estavam subnutridas e sofriam de atrasos no crescimento.
A família de Seidu tem sobrevivido, embora com dificuldades.
Isto deve-se ao facto de Seidu, que vive em Fuo, um bairro de Tamale, a capital da Região do Norte, ter sentido dificuldades com as suas colheitas nos últimos anos.
As Regiões do Norte, Ocidental Superior e Oriental Superior do Gana costumavam ser os celeiros do país no que diz respeito à produção de cereais e tubérculos. Mas as mudanças climáticas nestas regiões, que constituem a zona da savana do Gana, têm resultado em chuvas fracas, pequenas colheitas e subsequente insegurança alimentar.
"A última temporada de colheitas foi um dos períodos mais devastadores, tendo muitos agricultores perdido muito devido à fraca precipitação que causou o atrofiamento das colheitas antes de amadurecerem," disse à IPS Seidu, que tem uma pequena exploração agrícola onde planta milho, arroz e mandioca.
Durante a estação chuvosa de 2000, o distrito do de Nanumba Norte, na Região do Norte, registou uma pluviosidade média de 1,495 milímetros. Mas em 2010, no mesmo período, a área só registou 433 milímetros.
A reduzida pluviosidade tem tido um efeito dramático nesta região. De acordo com o Recenseamento Nacional Demográfico para a Habitação de 2010, a Região do Norte é a terceira região mais densamente povoada do Gana, onde cerca de 80 por cento das pessoas trabalham na agricultura. Agora, metade dos agricultores na região lutam pela sobrevivência, visto que as suas colheitas continuam a falhar, segundo o Serviço de Estatísticas do Gana.
Nos dois hectares de terra cultivados por Seidu este ano, apenas colheu três sacos pesando 84 quilos cada um. "Há dois anos colhia sete sacos nessa mesma terra. Algumas das plantas não floresceram e muito menos deram fruta este ano," disse o agricultor, que só tem um braço.
As estatísticas do Gabinete Regional do Norte do Ministério da Alimentação e Agricultura indicam que a produção de milho na região desceu de 164.200 toneladas métricas em 1991 para menos de metade, ou 78.800 toneladas métricas em 2000. Não há números disponíveis mais recentes.
O principal técnico regional de meteorologia na Agência Meteorológica do Gana, Kafui Quashiga, disse à IPS que a chuva tinha diminuido radicalmente nos últimos 10 anos devido às alterações climáticas. As estatísticas compiladas pela agência indicam que se tem registado um declínio abaixo dos indicadores de longo prazo de 6,550 milímetros, que era o padrão normal da pluviosidade no início da década de 2000.
"Quando comparamos os dados referentes à precipitação de 1991 a 2010 em Wa, na Região Ocidental Superior, em Tamale na Região do Norte, em Navorongo na Região Oriental Superior e em Krachie na Região do Volta, verificamos um declínio acentuado e é provável que esta tendência continue," apontou.
A pobreza, analfabetismo, doença e subnutrição tornaram-se agora as características comuns nestas regiões.
Seidu admitiu que, devido à colheita reduzida, não conseguia pagar as propinas de dois dos seus filhos. "Devido às más colheitas nos anos mais recentes, só posso enviar dois dos meus quatro filhos para a escola."
Outro agricultor, Nindoo Salisu, de 60 anos, disse à IPS que só três dos seus 10 filhos é que conseguiam ir para a escola. "Conseguimos arranjar o suficiente da terra até que o mau tempo nos tornou mais pobres."
" A situação é muito assustadora, e quanto mais cedo se fizer algo melhor será, porque exerce repercussões negativas sobre a nossa existência como seres humanos," disse Quashiga.
E embora tenha havido alguns projectos de adaptação na região, não foram completamemte bem sucedidos.
Abubakar Sadique Haruna, agricultor da Região do Norte, empresta o seu tractor aos camponeses locais a título de serviço de lavoura.
Com a ajuda do Programa de Desenvolvimento Agrícola e Optimização da Cadeia de Valores (ADVANCE), Haruna presta os seus serviços a cerca de 400 agricultores.
A ADVANCE, que é financiada pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, iniciou as suas operações no ano passado. Através dela perto de 1.000 agricultores receberam apoio com serviços de lavoura e formação sobre o modo de utilização de sementes melhoradas, novas tecnologias e melhores práticas agrícolas.
Haruna explicou que por cada hectare de terra lavrada, os agricultores lhe pagavam quatro doláres – o equivalente a 4.5 litros de combustível – ou então pagavam-lhe em espécie com um saco de 84 quilos de milho no final da estação das colheitas.
Além dos seus serviços de lavoura, Haruna fornece aos agricultores sementes de qualidade superior, produtos agroquímicos e adubos. Também os educa sobre as melhores práticas agrícolas de forma a permitir-lhes aumentar as colheitas.
"O pior é o facto de alguns agricultores, depois de pagarem a alguém para lhes lavrar as terras, não terem dinheiro para comprar estes agroquímicos (devido às más colheitas)," relatou à IPS.
Haruna disse que 2011 não fora um bom ano para os agricultores, porque cerca de 200 dos seus clientes não tinham dinheiro para lavrar os seus campos.
O funcionário responsável pela monitorização e avaliação junto do Ministério da Alimentação e Agricultura, Festus Aaron Langkuu, disse à IPS que novos metódos para a captação de água estavam em fase de experimentação nalgumas áreas.
Relatou igualmente que as barragens de Golinga e Bontanga, na Região do Norte do país, que foram reabilitadas no âmbito do Projecto da Autoridade para o Desenvolvimento do Milénio em 2010, estavam a distribuir água para as colheitas a alguns agricultores.
"Embora o governo apoie alguns destes agricultores com adubos, a questão final é que, se não houver chuvas, estes agricultores não podem cultivar, o que pode fazer descarrilar (o progresso em direcção ao) objectivo de redução da pobreza," disse Langkuu.

