KUMASI, Gana, 27/09/2012 – No Gana, país com crescente congestionamento de tráfego, marcado crescimento económico e acentuada divisão entre áreas urbanas e rurais, a construção de bicicletas feitas de bambu pode representar a chave da promoção do desenvolvimento sustentável. Também pode conduzir a bicicletas mais fortes e duradouras. É esta a opinião de Bernice Dapaah, directora executiva da Iniciativa das Bicicletas de Bambu, que ensina os jovens do Gana a construir, reparar e vender bicicletas com armação de bambu.
"Aceitamos a capacitação das mulheres, crianças e jovens. E este projecto reduz as emissões de carbono e contribui para o descongestionamento de tráfico, pelo que é igualmente uma forma de reduzir as alterações climáticas," declarou durante uma entrevista à IPS.
A Iniciativa das Bicicletas de Bambu trabalha em parceria com Ibrahim Djan Nyampong, proprietário da Africa Items Co Ltd em Acra, e as respectivas armações são vendidas no estrangeiro por 350 dólares cada uma. Custam cerca de 200 dólares para construir e Nyampong – que também é o assessor técnico das Bicicletas de Bambu – paga aos jovens aprendizes 30 dólares adicionais por armação.
Nyampong descreveu algumas das vantagens técnicas que as armações de bambu têm em relação às bicicletas de fibra de carbono ou metal.
"Duram mais que a estrutura de metal," sustentou. "Uuma bicicleta de bambu não quebra – dura muito tempo."
Afirmou ainda que um teste de controlo efectuado na Alemanha comprovara que as armações de bambu eram 10 vezes mais leves que as de metal, tendo também salientado a sua capacidade de carga. De facto, a resistência à tracção do bambu- que indica a resistência máxima que pode suportar ao ser esticado – é muito maior que a do aço.
O bambu é fibroso e, portanto, absorve o choque. Amortece as vibrações naturalmente, pelo que a estrutura não precisa de molas de aço ou de titânio.
"O bambu também é tratado contra as rachas ou as térmitas e, por isso, é muito forte," explicou Nyampong.
Acrescentou que o bambu é tratado durante três a seis meses antes de ser usado na produção. É então coberto por um verniz claro para o proteger da chuva e de outros estragos.
Estes elementos reforçaram o valor comercial das armações de bambu em termos internacionais e a BambooRide, uma companhia austríaca, já as começou a importar para venda na Europa.
"Inicialmente, estávamos a desenvolver as armações em conjunto com (Nyampong) porque eram boas, mas tinham de se adequar a determinadas normas europeias," disse Matthias Schmidt, director de vendas da BambooRide.
"Portanto, era como uma parceria, uma transferência de conhecimentos em ambas as direcções," disse à IPS.
Os importadores austríacos também forneceram novos equipamentos à equipa de Nyampong, incluindo a sua primeira rectificadora, para melhorar a precisão e reduzir a margem de erro.
Agora, a companhia austríaca importa mais de 10 armações por mês e Schmidt afirmou que esperava que a iniciativa continuasse a expandir.
"A capacidade é limitada… e em caso de virmos a precisar de mais armações… precisamos de ter outras fontes. Portanto apoiamos os esforços de Dapaah no sentido de melhorar o equipamento e a tecnologia," afirmou.
Assegurar a Sustentabilidade Ambiental
A utilização de bambu em vez de metal para a construção de armações de bicicletas também tem várias vantagens para os produtores – e para o meio ambiente.
Segundo Dapaah, a disponibilidade do bambu como material local não só permite aos produtores evitar os dispendiosos custos de importação mas também elimina as emissões de carbono que decorrem do transporte de materiais importados para o país.
O bambu também é orgânico e reciclável e, ao contrário dos materiais de metal, não precisa de elevados níveis de energia durante a extracção e fabrico.
"A bicicleta de bambu respeita o meio ambiente… porque também lutamos contra as alterações climáticas," referiu Dapaah.
Afirmou ainda que a iniciativa também estava empenhada na sustentabilidade ambiental através do trabalho junto dos produtores de bambu nas comunidades rurais no sentido de plantarem novas colheitas de bambu e conservarem as que já existem.
"Se cortarmos um bambu, certificamo-nos que são plantados pelo menos três ou quatro mais," explicou.
Além disso, as estruturas das bicicletas de bambu incentivam o transporte sustentável como alternativa aos veículos a motor e aos combustíveis fósseis.
De acordo com Isaac Osei, director regional da Agência de Protecção Ambiental do Gana, isso é importante.
"O problema de tráfego no país em geral está a aumentar e, quando o tráfego aumenta, isso está associado a questões ambientais," disse à IPS.
Há 30 automóveis por cada 1.000 pessoas no Gana, e a Autoridade de Licenciamento de Veículos e Condutores regista centenas por dia. Estes dados sugerem que o registo de propriedade de automóveis vai continuar a aumentar, à medida que o país atinge níveis recordes de crescimento do PIB per capita.
Osei referiu alguns dos impactos prejudiciais resultantes de uma maior utilização de veículos, incluindo emissões de dióxido de carbono e poluição derivada de partículas de poeira em estradas de terra batida.
"Penso que é bom para o país e para o mundo educar as pessoas a usarem bicicletas em vez de veículos," salientou.
Promover o Desenvolvimento Rural
Ao empregar jovens e ao fornecer-lhes competências técnicas, a iniciativa é concebida para reduzir o desemprego e, consequentemente, a pobreza rural.
"Até agora já proporcionei formação a 10 rapazes," disse Nyampong. "Podem construir as bicicletas mas não se encontram no estádio desejado para o controlo necessário da qualidade, portanto ainda lhes estamos a dar formação."
Além disso, as Bicicletas de Bambu irão ajudar os estagiários formados a estabelecer as suas próprias oficians e a formar um maior número de jovens.
Os produtos também são concebidos para melhorar os meios de subsistência da população do Gana nas zonas rurais.
"Fizemos… estudos, especialmente nas comunidades rurais onde o transporte é muito deficiente, e queremos usar esses dados como uma fonte alternativa de transporte para os alunos, visto que alguns caminham milhas de casa até às escolas," explicou Dapaah.
As Bicicletas de Bambu oferecem ainda "bicicletas de bambu para carga" para ajudar os agricultores a transportarem os seus produtos para os mercados. Nyampong e a sua equipa trabalham com engenheiros da Universidade de Tecnologia de Delft, na Holanda, para conceberem "uma bicicleta ambulância feita de bambu".
O objectivo é ajudar as grávidas que necessitam de cuidados médicos urgentes.
Em 2009, as Bicicletas de Bambu ganharam o Prémio da Iniciativa Global Clinton e em 2010 o Prémio da Iniciativa para as Sementes do Programa Ambiental das Nações Unidas. Também atraíram atenção internacional em Junho quando receberam o Prémio Mundial de Negócios e Desenvolvimento durante a Cimeira da Terra no Rio de Janeiro em 2012.

