Bruxelas, 19/10/2005 – Cento e quarenta e cinco sindicalistas foram assassinados no ano passado, 16 a mais do que em 2003, segundo o último informe da Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres (Ciosl), a principal central de trabalhadores do planeta. O documento divulgado nesta terça-feira, que cobre 136 países nos cinco continentes, documenta mais de 700 ataques violentos contra sindicalistas e quase 500 ameaças de morte. Todos esses casos se relacionavam com a atividade sindical. A Ciosl, que tem um total de 145 milhões de filiados, advertiu que os trabalhadores organizados correm, em muitos países, risco de discriminação, demissão e prisão, ao mesmo tempo em que são impostos "obstáculos legais à organização de sindicatos e à negociação coletiva".
"O relatório deste ano revela o quanto longe governos e empregadores estão dispostos a ir para suprimir os direitos dos trabalhadores em busca de competitividade nos cada vez mais degoladores mercados globais", advertiu nesta terá-feira o secretário-geral da organização, Guy Ryder. "A globalização deve seguir um rumo completamente diferente, com preocupações sociais e pondo vim à exploração", afirmou o sindicalista. Na América foi registrada a maior quantidade de assassinatos e ameaças de morte, enquanto a Ásia do lado do Pacífico foi a primeira em matéria de sindicalistas presos, segundo o informe da Ciosl. Novamente, o país em pior situação foi a Colômbia, onde foram assassinados no ano passado 99 sindicalistas e centenas sofreram ameaças, diz o documento.
A Colômbia, com freqüência qualificada de "a mais antiga democracia parlamentar da América do Sul", há 40 anos é palco de uma "brutal guerra civil entre as guerrilhas esquerdistas e a oligarquia direitista", afirmaram os autores do informe. "Isso levou ao desenvolvimento de uma generalizada cultura de violência, na qual o preço de um sicário varia entre US$ 20 e US$ 200. a maioria dos sindicalistas foi assassinada por paramilitares direitistas, que matam impunemente", disse à IPS Sara Hammerton, do Departamento de Direitos Sindicais da Ciosl.
"O governo não demonstrou vontade política para solucionar o problema. Não conseguiu processar os assassinos. E, como se não bastasse, o próprio governo tentou sufocar os sindicatos para dissolver as organizações do setor público", afirmou. Vários trabalhadores também foram assassinados por seu trabalho sindical na Bielorússia, Birmânia, Camboja, China, Filipinas, Haiti, Irã, Nigéria, República Dominicana, Turquia, Venezuela e Zimbábue, e muitos outros apanharam ou foram feridos, indica o documento da Ciosl. Nas Filipinas, 14 pessoas acabaram mortas quando forças de segurança usaram um planador e veículos blindados para romper um piquete.
Enquanto isso, muitos governos nada fazem para atender os problemas sofridos pelos sindicalistas. "Os consideramos a causa do problema. Na Bielorússia, o governo conseguiu ter a principal central sindical sob seu controle e procura sufocar todas as organizações independentes. No Zimbábue e na Nigéria, o governo é o principal repressor dos sindicatos", segundo Hammerton. A China também preocupa a Ciosl. "Pequim ainda nega a liberdade de associação. O governo só reconhece os sindicatos oficiais, que demonstraram sua ineficácia para proteger os direitos dos trabalhadores", advertiu a organização.
Na Europa, onde a situação é menos dramática, as autoridades de vários Estados outrora integrantes da extinta União Soviética procuram "ativamente" controlar os sindicatos, segundo a Ciosl. Os serviços de segurança da Ucrânia costumam visitar as sedes sindicais, e inclusive as casas dos dirigentes, afirmou a organização. As autoridades da Geórgia "hostilizam e detêm representantes sindicais, detêm seus líderes, obstruem as atividades das organizações e apreendem seus bens de maneira ilegal", acrescenta o estudo. Os trabalhadores das zonas francas de processamento de exportações (maquiagem), estabelecidas pelos governos para incentivar a atividade econômica e a entrada de divisas, são regiões de "contínua repressão anti-sindical", de acordo com a Ciosl.
Trabalhadores da Namíbia sofreram o embate de cães por parte de representantes dos proprietários da fábrica têxtil. Uma trabalhadora foi duramente golpeada na repressão. O documento considera a situação nas zonas francas de Fiji, Índia, Filipinas e Sri Lanka, destacando "o efeito da dura competição sem regular nos mercados globais nos direitos dos trabalhadores". A Ciosl apresenta um caso de Bangladesh, onde as trabalhadoras tentaram criar um sindicato da indústria do vestiário. "O gerente geral as ameaçou de morte e depois contratou criminosos para que batessem em muitas delas, sendo que 25 ficaram feridas", diz o documento. A Ciosl ajuda sindicatos nacionais a apresentarem demandas junto aos mecanismos de supervisão da Organização Internacional do Trabalho (OIT). (IPS/Envolverde)

