La Paz, 20/10/2005 – "A metralha arrebentou os corpos de nossos familiares, por isso queremos que se castigue a impunidade", disse com voz firme Néstor Salinas, irmão de um dos quase 70 mortos que custou a chamada guerra do gás na Bolívia há dois anos, a maioria deles na empobrecida El Alto. O testemunho foi dado diante da Caravana Mayaki, de personalidades e ativistas de organizações sociais italianas e internacionais que pedem justiça para as vítimas da repressão do então governo do direitista Gonzalo Sánchez de Lozada, lançada para deter os protestos contra o plano de exportar gás natural para a América do Norte através de portos chilenos.
A voz de Salinas criou um ambiente de suspensão entre os presentes ao encontro da caravana com um grupo de familiares das vítimas da repressão contra o levante popular que culminou com a renúncia, em 17 de outubro de 2003, de Sánchez de Lozada, apenas um ano após ter assumido a presidência, e sua posterior fuga para os Estados Unidos. A solução para essa crise institucional chegou pelas mãos da Constituição, com o Congresso designando seu sucessor, Carlos Mesa, que era vice-presidente e havia apresentado sua renúncia exatamente em protesto pela sangrenta repressão policial e militar. O próprio Mesa renunciou em junho passado, em meio a novos protestos sociais contra a recente aprovação de uma lei sobre petróleo e uma radical oposição parlamentar, dando lugar a Eduardo Rodríguez, então presidente da Suprema Corte de Justiça, que será finalmente substituído pelo vencedor das eleições gerais de dezembro.
A Caravana Mayaki, que em língua aymara significa "só um", visitou a cidade de El Alto, onde o exército matou a maioria das vítimas nesses dias ao tentar desbloquear as vias de acesso a um centro de armazenamento de combustível para abastecer a vizinha La Paz, sede oficial do governo. No dia 12 de outubro de 2003, um comboio de caminhões-tanque precedidos por veículos militares, transportou combustível para a capital e à sua passagem foram mortas 19 pessoas, em uma das jornadas de maior repressão governamental desde a recuperação da democracia em 10 de outubro de 1982. Ao observar os familiares recordando as vítimas de outubro, "choramos porque nos dói muito, porque são nossos mortos que caíram para defender os bens comuns e representam a mesma luta em todo o mundo", disse em tom comovido o representante legal da delegação, o jornalista Giuseppe De Marzo.
A Caravana Mayaki está integrada pela presidente do Conselho Municipal de Roma e representante do Partido Verde, Mônica Cirinna, membros dos movimentos sociais italianos, do Comitê Mundial sobre a Água, da Associação Basta Já e por jornalistas de rádios e imprensa, que chegaram para conhecer a realidade social do cenário onde foi travada a "guerra do gás". De Marzo é um ativista pelos direitos humanos, particularmente dos indígenas, condição na qual esteve preso por uma semana em 2001, no Equador, após promover a defesa dos territórios ancestrais contra o que considerou invasão de empresas multinacionais do petróleo.
Cerca de 40 visitantes caminharam pelas poeirentas ruas de El Alto, falaram com seus moradores, assistiram aos atos que recordaram os mortos na repressão e ficaram impressionados pelo "empobrecimento" ao qual o povo foi submetido "como efeito da aplicação de uma política neoliberal, como dissera De Marzo à IPS. Tampouco encontraram justificativa para o fato de as donas de casa terem de fazer longas filas para ter acesso a um botijão de gás de cozinha, em um país como a Bolívia, que possui a segunda reserva conhecida desse combustível na região, depois da Venezuela, com 53 trilhões de pés cúbicos.
A falta de investimentos das indústrias do petróleo estrangeiras em novas usinas de conversão do gás natural em liquefeito para uso doméstico provocou uma crise energética, que levou nas últimas horas á renúncia do ministro do setor, Jaime Dunn, após receber censura do Congresso. "É um paradoxo ver a falta de gás entre as pessoas mais humildes que deram suas vidas por esse combustível e continuam vivendo na pobreza. Esta imagem nos deixa "chocados", comentou. A Caravana Mayaki chegou a Bolívia em 2003 com a finalidade de promover os direitos humanos e desde então apóia os movimentos sociais pela defesa dos bens comuns, autodeterminação dos povos indígenas e democracia participativa.
Esta semana, seus integrantes ouviram um clamoroso pedido de solidariedade dos familiares das vítimas de outubro de 2003, os quais querem a presença de Lozada perante a Procuradoria da República como principal responsável pelas decisões tomadas durante os dias de conflito. Até o momento, apenas alguns ministros e chefes militares deram declarações sobre esses fatos violentos, mas o julgamento pode ser frustrado pela ausência de Lozada e de seu então ministro da Defesa, Carlos Sánchez Berzaín. Ambos se refugiaram nos Estados Unidos no dia 17 de outubro de 2003. Os membros da Caravana Mayaki prometeram realizar gestões junto ao governo italiano, e através deste perante o Parlamento Europeu, para que se exija dos Estados Unidos a entrega do ex-presidente à justiça boliviana para que seja processado.
A presidente do Conselho Municipal de Roma, Mônica Cirinna, ficou comovida com "a coragem de um sofrido povo que homenageia seus mortos" frente ao governo "confuso, ausente e sem capacidade para assumir iniciativas de paz e justiça". Ao visitar o túmulo das vítimas de outubro, "tive uma impressão humana belíssima, embora dolorosa e comparada com o campo de concentração nazista de Auschwitz, que vi há dois anos, pela sensação de matança e extermínio", disse Cirinna à IPS. A dirigente italiana lamentou que a impunidade esteja ganhando terreno no caso das mortes registradas na guerra do gás e prometeu seu apoio à causa dos familiares das vítimas dessa tragédia. (IPS/Envolverde)

