Nações Unidas, 19/10/2005 – Ao contrário da crença generalizada, houve uma grande redução dos conflitos armados, genocídios, violações de direitos humanos, golpes militares e crises internacionais desde o começo dos anos 90. Pelo menos, é isso que afirma um estudo divulgado nesta terça-feira, realizado nos últimos três anos pelo Centro de Segurança Humana na canadense Universidade de Colúmbia Britânica, com fundos dos governos do Canadá e da Grã-Bretanha, Noruega, Suécia e Suíça. A quantidade de conflitos armados caiu mais de 40% desde 1992, e os mais mortais – aqueles onde morreram mais de mil combatentes no campo de batalha – diminuíram ainda mais: 80%. Por outro lado, a quantidade de golpes militares e tentativas de golpes tiveram redução de 60% desde 1963, quando 25 foram registrados. No ano passado, foram apenas 10, todos sem sucesso.
Grã-Bretanha e França seguidas de Estados Unidos e Rússia (e sua antecessora, a União Soviética) participaram da maioria das guerras internacionais desde 1946. Mas hoje a maioria dos conflitos armados são registrados nos países mais pobres, especialmente na África. Na medida em que a renda econômica desses países aumenta, o risco de guerra diminui, segundo os autores do estudo. A maior quantidade de mortes devido às guerras não ocorre em combate, mas pelas doenças e pela desnutrição exacerbadas pelos conflitos, que representam 90% das mortes.
"Nos últimos 30 anos, o colapso de aproximadamente 60 ditaduras liberou milhões de pessoas de regimes opressivos", disse o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz. "A quantidade de democracias aumentou, os conflitos armados entre Estados se tornaram cada vez mais raros e todas as guerras são menos mortais", acrescentou Tutu, autor do prefácio do estudo. De todo modo, persistem cerca de 60 conflitos em todo o mundo, e ainda são cometidos crimes de guerra e graves violações de direitos humanos, ao mesmo tempo em que ocorrem os piores atos de terrorismo da história, segundo o informe.
"As guerras que dominaram as manchetes dos jornais nos anos 90 eram suficientemente reais e brutais. Mas, a maioria dos meios de comunicação do mundo ignorou uma centena de conflitos que terminaram sem ruído desde 1988. Neste período, acabaram mais guerras do que começaram", diz o documento. O diretor do estudo, professor Andrew Mack, afirmou que as "extraordinárias mudanças" chamam menos a atenção "porque muitos poucos ficam sabendo que aconteceram. Nenhuma agência internacional recolhe dados sobre guerras, genocídios, atos terroristas ou graves abusos de direitos humanos. A ignorância se deve ao fato de os meios de comunicação darem mais coberturas às guerras que começam do que às que terminam", acrescentou Mack.
O estudo, intitulado "Informe sobre Segurança Humana 2005", atribuiu a redução dos conflitos a três razões políticas. A primeira é o fim do colonialismo. Desde o início da década de 50 até princípio dos anos 80, as guerras coloniais representavam entre 60%e 100% dos conflitos internacionais. "Hoje não há guerras desse tipo", afirmam os pesquisadores. A segunda é o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos e a extinta União Soviética, responsável por um terço dos conflitos posteriores à Segunda Guerra Mundial. "Isto removeu qualquer ameaça residual de guerra entre as grandes potências, e Washington e Moscou deixaram de incentivar "guerras de apoderados" no mundo em desenvolvimento", diz a pesquisa.
A terceira razão é o surgimento, a partir do fim da Guerra Fria, de atividades internacionais sem precedentes destinadas a deter as guerras hoje em curso e impedir que outras comecem. A principal impulsora de tais atividades é a Organização das Nações Unidas, cuja ação determinou que aumentassem em seis vezes as missões de diplomacia preventiva (para impedir que as guerras comecem) e quadruplicou as missões de paz (para que também acabem as que estão em curso). Também quadruplicaram as missões de manutenção da paz da ONU (para reduzir o risco de que comecem) e multiplicaram por 11 a quantidade de Estados punidos pelas Nações Unidas.
Atualmente, estão em curso 16 missões de manutenção da paz da ONU, com cerca de 17 mil soldados em países tão diferentes como Líbano, Geórgia, Haiti e Serra Leoa. O centro acadêmico norte-americano Corporação Rand calculou que dois terços das missões de paz da ONU tiveram êxito. O custo destas missões foi de US$ 3,870 bilhões no exercício anual 2005/2005. Essa quantia é insignificante diante do gasto militar mundial, que atinge níveis próprios da Guerra Fria, com US$ 1 trilhão anuais. O estudo canadense indica que o custo total das operações de manutenção da paz da ONU para todo um ano é menor do que o gasto militar dos Estados Unidos no Iraque em apenas um mês.
O orçamento militar norte-americano para 2005 chega a US$ 421 bilhões. China e Rússia gastaram, cada uma, US$ 50 bilhões em 2003, enquanto Japão e Grã-Bretanha gastaram, cada um, US$ 41 bilhões. "As Nações Unidas não atuaram sozinhas. O Banco Mundial, Estados doadores, organizações regionais e milhares de organizações não-governamentais trabalharam em estreita ligação com agências da ONU, e freqüentemente desempenharam tarefas independentes", acrescenta o informe. Mas, a Organização das Nações Unidas foi a protagonista excludente das ações pela paz, adverte o documento. As guerras de hoje são menos mortais porque as que ocorriam durante a Guerra Fria envolviam grandes exércitos, armas convencionais pesadas e intervenção estrangeira maciça, explica o estudo. Morriam, então, centenas de milhares de pessoas, às vezes, milhões, acrescenta.
No entanto, a esmagadora maioria das guerras atuais são conflitos de baixa intensidade travados com armas pequenas e leves, entre governos fracos e rebeldes mal treinados. Raramente ocorrem grandes combates. "Embora com freqüência essas guerras sejam brutais, nelas morrem relativamente poucas pessoas em comparação com os grandes conflitos da época da Guerra Fria, no geral centenas de pessoas mais do que dezenas de milhares", acrescenta o estudo. Por outro lado, as mortes em combate também se reduziram pelo grande aumento da quantidade de refugiados nos anos 80. Se esses milhões de pessoas não tivessem abandonado suas casas, centenas de milhares – ou, talvez, muito mais – poderiam ter morrido, afirmam os autores do informe. Que o mundo está ficando mais pacífico, de todo modo, não representa um consolo para as pessoas que hoje sofrem na região sudanesa de Darfur, no Iraque, na Colômbia, República Democrática do Congo ou no Nepal, conclui o estudo. (IPS/Envolverde)

