Iraque: Vitória do SIM não é tão grande quanto querem que se acredite

Washington, 21/10/2005 – Os primeiros resultados divulgados do referendo constitucional do Iraque na província sunita de Nínive são muito diferentes dos definitivos, no que parece uma operação para sugerir à imprensa que a vitória do SIM foi maior do que a real. Os resultados definitivos, obtidos pela IPS de um funcionário norte-americano na cidade de Mosul, indicam que em Nínive o projeto de constituição foi rejeitado por ampla margem de eleitores, embora inferior aos dois terços necessários para rejeitá-lo. A diferença entre os primeiros números da votação e os definitivos lançam dúvidas sobre a credibilidade da informação oficial divulgada desde Nínive. Um alto dirigente político sunita garantiu, inclusive, que a quantidade total de eleitores na província havia sido alterada.

Segundo os muito divulgados resultados preliminares apresentados pelo porta-voz da Comissão Eleitoral Independente do Iraque, 326 mil cidadãos votaram em Nínive a favor do projeto constitucional e 90 mil votaram contra. A Comissão diz que esses números se baseavam na apuração de mais de 90% das 300 mesas de votação instaladas na província. Com base nesses dados, os meios de comunicação informaram que o projeto parecia aprovado. Desde então, a Comissão não divulgou novos números, e o resultado final do referendo será conhecido nesta sexta-feira. De todo modo, o oficial de ligação norte-americano com a Comissão em Nínive, major Jeffrey Houston, informou que o resultado seria de 424.491 votos pelo NÃO e 353.348 pelo SIM.

De acordo com esses números, os resultados preliminares divulgados segunda-feira representavam apenas 54% da votação total, e não 90%, como a imprensa fizera crer. E os votos que não foram incluídos nessa estatística rejeitavam a iniciativa constitucional na proporção de 12 para um. Por sua composição étnica, três quartos dos 24 milhões de iraquianos são árabes, 20% curdos e o restante pertence a pequenas minorias. Quanto à religião, o Islã é majoritário. Sessenta e dois por cento dos moradores, concentrados no sul do território, professam o Islã xiita, e 35% o sunita, predominantemente no mundo árabe e também no governo iraquiano entre o fim do império otomano, em 1919, e o do regime de Saddam Hussein, em 2003.

Outras comunidades, como os turcomanos e os cristãos, constituem uma porcentagem muito pequena da população. Segundo as normas que regem o referendo, a constituição seria derrotada se dois terços dos eleitores em três províncias votassem pelo NÃO. Portanto, uma grande quantidade de votantes se registraram nas três províncias de maioria sunita, as de Anbar (ocidente), Nínive (norte) e Saladín (centro), em contraste com a muito baixa participação nas eleições de janeiro. Os votos que apareceram nos registros oficiais de ligação norte-americana somente poderiam proceder dos bairros sunitas de Mosul, cidade de 1,7 milhão de habitantes.

Os votos nas zonas urbanas densamente povoadas demora mais do que nos povoados menores. Isso poderia explicar a defasagem, mas a apuração das áreas sunitas demorou muito mais do que o das curdas. A evidência sugere, então, que se tratou de um esforço deliberado por parte de dirigentes xiitas e curdos para confundir os meios de comunicação. Desse modo, ao informar uma grande vantagem para o SIM, aplacavam a curiosidade da imprensa. Estes políticos sabiam que todos os olhos estariam voltados para Nínive, pois essa província poderia ser o fiel da balança. Por outro lado, os números revelados pelo militar norte-americano sugere uma abstenção que carece de credibilidade.

Em uma jornada eleitoral com 88% de participação dos eleitores aptos a votar na província sunita de Saladín, por exemplo, comparecimento de 60% às urnas parece anômala. E se apenas 70% tivessem votado, o total deveria ser de 930 mil. O resultado final sugere que os sunitas, que manifestaram quase por unanimidade sua postura contrária à nova Constituição, seriam minoria na província. Isso contradiz a realidade ratificada nas eleições legislativas de janeiro. Os votos somados de curdos e xiitas em Nínive somaram apenas 130 mil, enquanto as organizações sunitas convocaram um boicote do referendo. (IPS/Envolverde)

(*) Gareth Porter é historiador independente e analista de política externa, além de autor de "A terceira opção no Iraque: uma responsável estratégia de saída", na edição de outono do Midele East Policy.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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