Berlim, 20/10/2005 – Os remédios antigripais se esgotam e o pânico toma conta da Europa na medida em que se confirma a presença da gripe do frango na Romênia, Grécia e Turquia e que são analisadas amostras suspeitas em outros países. "Nos dois últimos dias, recebi em minha clínica dezenas de pacientes que temiam ter contraído o vírus da gripe aviária", disse á IPS Dorothea Assenov, médica em Neukoelln, um distrito pobre do sudeste de Berlim. Assenov confirmou que coletas de toda a capital alemã poderiam contar a mesma história. "E nas farmácias estão esgotados os remédios contra resfriado e gripe", afirmou a médica.
Também na França a população corre às farmácias para armazenar grandes quantidades de antigripais, especialmente o Tamiflu, que previne a variedade da gripe aviária transmitida a humanos, disseram à IPS médicos e outros especialistas em saúde. A demanda recrudesceu esta semana, depois que o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, advertiu no parlamento que a "França não está protegida contra a gripe do frango". Villepin considerou que os principais vetores da doença (ser vivo transmissor) são as aves migratórias. E anunciou um plano preventivo, já implementado, que inclui o armazenamento em hospitais de 200 milhões de máscaras e 14 milhões de unidades de vacina contra a gripe até o começo do próximo ano.
O primeiro-ministro acrescentou que já determinou a compra de 40 milhões de doses de vacina. As autoridades também realizam análises nas regiões francesas onde costumam fazer escala as aves migratórias no outono boreal, em seu caminho para o sul. As granjas também serão analisadas. Até agora, a gripo aviária matou 60 pessoas, todas no sudeste asiático, desde que surgiu o mais recente foco da doença, que se propagou entre as aves e granjas dessa região e da Ásia central até atingir os montes Urais, no final de julho. O vírus H5N1 matou milhões de aves em cativeiro e espécies silvestres em seu caminho para o Ocidente.
Especialistas europeus advertiram durante o verão boreal, que terminou em setembro, que em seu trânsito da Ásia central para regiões temperadas da bacia do Mediterrâneo e da África subsaariana as aves poderiam se converter em vetores do vírus. Outros incluíram o tráfico ilegal de aves silvestres entre os agentes transmissores. Governos europeus estabeleceram medidas de precaução para impedir que as aves migratórias entrem em contato com as criações. A Holanda proibiu, já em agosto, a criação a céu aberto de aves para consumo humano. Também em agosto, a União Européia proibiu, em geral, a importação de aves, plumas e outros subprodutos avícolas de regiões afetadas pelo vírus H5N1. O governo da Alemanha seguiu, em setembro, o exemplo holandês.
Caso seja impossível criar aves em local fechado, é obrigatório o uso de redes e cercas. Depois que o vírus foi detectado em aves mortas na Romênia e Turquia no começo deste mês, a UE ampliou sua proibição das importações procedentes desses países. Ao mesmo tempo, especialistas em Berlim alertam que o pânico pode ser contraproducente, pelo conseqüente esgotamento de vacinas e remédios. O Instituto Robert Koch, especializado em doenças infecciosas, e o Instituto Paul Ehrlich, dedicado ao desenvolvimento de vacinas, sugeriu que a imunização seja administrada primeiro entre os grupos de risco, como enfermos crônicos e idosos. Também deveriam ter prioridade funcionários de hospitais e outros centros médicos, segundo as duas instituições.
"Já enfrentamos dificuldades na produção de vacinas", disse Johannes Loewer, presidente do Paul Ehrlich. "As próximas quatro milhões de unidades estarão disponíveis somente no início de novembro". De todo modo, Loewer recordou que a temporada de gripe na Alemanha começa, em geral, mais para o final do ano, por volta do Natal e Ano Novo. "Agora não há motivo para entrar em pânico", garantiu. A porta-voz do Instituto Roberto Koch, Susane Glasmacher, disse que a gripe aviária "não ameaça a totalidade da população", e lembrou que o contágio da doença por humanos ocorreu apenas em circunstâncias muito especiais.
Os que contraíram a enfermidade tiveram contato direto e reiterado com animais infectados e residiam em zonas muito contaminadas com o vírus H5N1. Até agora, não houve casos de contágio entre humanos. Apesar dos freqüentes apelos à calma, o alarme se mantém. Os clubes de futebol italianos da primeira divisão Bologna e Udinese anunciaram nesta terça-feira que retirariam todos os alimentos à base de frango dos pontos de venda de seus estádios. O ministro da Saúde da Itália, Francesco Storace, considerou que essas medidas constituíam "uma incrível estupidez" que transmite "uma devastadora mensagem de medo".
O diretor da Organização Mundial de Saúde Animal, Bernard Vallat, disse ao jornal financeiro francês Les Echos que a Europa está imersa em um clima "psicótico". As "declarações sobre o surgimento de uma pandemia de gripe aviária não condizem com o conhecimento científico", disse Vallat. "Em todo caso, o risco de pandemia esteve presente todo este tempo". Os países em cujas granjas se registrou a presença do vírus da gripe do frango no sudeste da Ásia são Camboja, China, Coréia do Sul, Indonésia, Japão, Laos, Paquistão, Vietnã, Tailândia e Taiwan.
A gripe aviária afeta todo tipo de ave. Nos seres humanos infectados os primeiros sintomas são febre e tosse, bem como queda de pressão e do nível de glóbulos vermelhos. Em última instância, pode-se desenvolver pneumonia. As aves sofrem enrijecimento dos olhos e problemas no fígado. A doença, conhecida há cerca de 100 anos, em 1997 ultrapassou a fronteira das espécies ao contagiar a humana. As aves expulsam o vírus através de seus excrementos, que uma vez secos e pulverizados podem ser inalados pelos seres humanos.
Algumas das 15 cepas da gripe aviária são de altíssima mortalidade, mas a do vírus H5N1 é a pior de todas, devido à sua gravidade e capacidade de adaptação genética. Ao serem detectados em 1997 nos primeiros casos humanos e a morte de seis das 18 pessoas que contraíram a doença, o governo de Hong Kong ordenou o sacrifício de todas as aves em criação – na época 1,1 milhão – o que consumiu três dias. A Organização Mundial da Saúde informou que o vírus pode sobreviver no ar em temperaturas frias. Na água suporta até quatro dias a 22 graus e até 30 dias a zero grau. A OMS também calculou que um grama de esterco de frango pode conter vírus suficientes para infectar um milhão de aves.
A OMS manifestou preocupação pela possibilidade de a doença matar milhões de pessoas se o vírus se combinar com cepas da gripe humana. O porco, animal que sofre tanto os embates da gripe aviária quanto da humana, poderia funcionar como laboratório onde ocorreria a mutação. Desse modo, a gripo do frango poderia ser contagiosa de humano para humano, informou a organização. Em 1918 e 1919, uma pandemia de gripe espanhola matou até 50 milhões de pessoas, 500 mil delas nos Estados Unidos. Foi uma das epidemias mais devastadoras da história mundial. A Romênia exportava, antes de detectar a gripe aviária em suas granjas, cerca de quatro mil toneladas de carne de frango por ano, a maior parte para Alemanha, França, Grã-Bretanha e Suíça.
A União Européia estendeu a proibição de importar aves vivas e produtos agrícolas da Romênia e Turquia até abril do próximo ano, depois que a enfermidade foi identificada em uma granja perto dos mares Egeu e Mármara. O alarme na Europa foi alimentado por interesses comerciais. Várias farmácias que comercializam seus produtos através da Internet chegaram a fazer leilões de Tamiflu e outros antigripais. Um deles anunciava: "Caem os estoques de Tamiflu! Compre agora!". (IPS/Envolverde)

